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É possível lutar pela revolução sem lutar contra o golpe?
Nildo Ouriques
Nildo Ouriques

Nildo Ouriques, professor de Economia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e integrante da direção nacional do PSOL, foi entrevistado no programa de rádio Faixa Livre. Segundo ele: “A estratégia de frente única, de lamber as feridas, não nos leva a lugar nenhum.”

Mas para Ouriques a “frente única” não é a aliança com partidos golpistas, mas com o próprio PT. Portanto, a esquerda não pode ter qualquer flerte com a esquerda petista, que representa um fracasso histórico, econômico, político e ético, segundo ele.

Para o dirigente do PSOL, a palavra de ordem correta é chamar à “revolução brasileira”.Mas, como não quer aliança contra o golpe com o PT, e portanto não quer influenciar a base petista, Ouriques despreza a maior parte dos trabalhadores organizados no país (que estão na base do PT na CUT, no MST, etc) devido ao “fracasso ético”. Ouriques quer uma revolução sem o povo.

Mas o pior é que seu argumento é baseado no “fracasso ético” do PT. O partido seria um partido corrupto, assim como afirma a burguesia.

Ao dizer que a frente única não nos levará a lugar algum, Ouriques defende o fracasso histórico da esquerda diante do crescimento da extrema direita e a chegada do fascismo no poder. Trotski bem analisou a chegada do fascismo ao poder nos países onde a esquerda adotou a política ultra-esquerdista, da tese do social-fascismo (Itália, Alemanha) – política da 3ª Internacional, já controlada pela burocracia stalinista, que negava a aliança com as bases dos partidos social-democratas, acusando esses partidos de serem iguais aos fascistas – bem como analisou a derrota do fascismo nos países em que a esquerda adotou a política de frente única, agregando uma grande massa de operários, fossem eles organizados pela social-democracia ou não, na luta contra a extrema direita (caso da França e da Inglaterra).

Ouriques quer repetir o fracasso. Não se unir com a esquerda contra os fascistas. Isto é, enfraquecer a luta contra os golpistas. Uma política totalmente sectária que procura isolar o movimento em nome de uma luta moral.

Ouriques também se colocou contra novas eleições e contra a libertação de Lula, validando a fraude que colocou Bolsonaro no poder e a ditadura dos golpistas.

“Essa bandeira da anulação das eleições nos desmoraliza no seguinte sentido: é o fracasso petista. O petismo dizia ‘eleição sem Lula é fraude’. Depois vai para a eleição. E a Gleisi Hoffman vai lá com aquela carinha cândida dela dizer que se elegeram a despeito de tudo e que agora estão nessa campanha Lula livre que é um fracasso histórico. Temos que sair dessa agenda, a agenda tem que ser outra, é a agenda da revolução brasileira.”

Ou seja, Bolsonaro estaria no poder por conta do “fracasso petista” e não por conta de uma fraude completa, que tirou o principal candidato das eleições, reprimiu manifestações e militantes de esquerda e censurou a campanha da esquerda.

Para derrotar a direita, a esquerda não deveria exigir a liberdade de Lula, mas lutar pela “revolução brasileira”. Porém, Ouriques esquece que entre a revolução e o atual momento existe um grande caminho para percorrer, e ignora que a luta pela liberdade de Lula, como luta que se opõe à política da burguesia e do imperialismo, é uma luta que mobiliza os trabalhadores, e portanto, faz crescer sua consciência rumo à revolução.

A luta pela liberdade de Lula, com os absurdos do STF, tem gerado uma desilusão do povo em relação ao judiciário e às instituições golpistas. Portanto, falar em revolução sem lutar pela liberdade de Lula, nem faz sentido, pois não se estimula a polarização, que pode separar o povo da política da direita, que é um processo progressivo até a revolução.