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Antônio Carlos Silva

É proibido defender o jogador?

Neymar e racismo, “preso por ter cão, preso por não ter cão”

Não importa o que faça Neymar, como o imperialismo proibiu, e a esquerda classe média não consegue elogiar o jogador, mesmo naquilo que ela mais gosta de fazer demagogia

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Como já explicamos inúmeras vezes, a defesa que o PCO faz de Neymar como jogador de futebol é antes de tudo uma defesa do futebol brasileiro, que passa por defender o melhor jogador da atualidade. Há uma política direcionada pelo imperialismo, que usa como correia de transmissão a imprensa golpista e a classe média nacional – de esquerda e de direita – de atacar o futebol brasileiro por um problema econômico, é preciso dominar ideologicamente o brasileiro, desmoralizando o seu futebol, para facilitar a dominação econômica dos grandes monopólios imperialistas.

Portanto, essa defesa não tem relação direta com a personalidade de nenhum jogador em espacial nem mesmo com as opiniões políticas desses jogadores. Pelo contrário, procuramos mostrar que a avaliação de um bom jogador de futebol está desvinculada com a opinião política que ele tem. É assim na arte, é assim no futebol.

Na última terça-feira, dia 8, os jogadores do PSG e do time turco Istambul Basaksehir decidiram conjuntamente parar a partida denunciando racismo do quarto árbitro da partida contra o auxiliar técnico do time turco, o camaronês Pierre Webó, e a expulsão do atacante senegalês Demba Ba. Tal ato nunca havia acontecido na história da Liga dos Campeões, o jogo retornou apenas no dia seguinte, com nova arbitragem, com um protesto simbólico dos jogadores durante o hino, terminando com a vitória do PSG por 5 a 1.

Por se tratar do principal jogador da partida, o brasileiro Neymar esteve à frente, junto com o parceiro Mbappé, da iniciativa dos jogadores de interromperem o jogo.

Essa não foi a primeira vez que Neymar esteve envolvido em um caso de racismo. Em setembro, o jogador denunciou que o zagueiro espanhol, Álvaro González, do Olympique de Marselha, o chamara de macaco. Após se revoltar em campo, Neymar foi expulso. Neymar declarou que deveria ter feito o mesmo que fez agora naquela ocasião.

Afinal, desenvolvimento desse primeiro caso foi o mais absurdo possível. Neymar passou de acusador a acusado. Foi chamado primeiro de mentiroso, depois de homofóbico e assim, a liga francesa conseguiu colocar panos quentes no caso. A esquerda, que diz dar tanta importância à questão do negro, manteve-se em silêncio.

Os acontecimentos envolvendo Neymar provam de maneira bastante clara o que denunciamos sobre o imperialismo e o nosso futebol, principalmente pelo comportamento da esquerda pequeno-burguesa em relação ao fato.

Impregnada pela ideologia identitária, a esquerda se dedica a procurar casos em que ela possa colocar em prática essa política. Em nome dela, a esquerda defende a ideia absurda de que a vítima tem sempre razão, não importam as circunstâncias.

O problema é que esse princípio não está sendo aplicado no caso de Neymar. De um modo geral, mesmo diante do caso que ganhou repercussão mundial, a esquerda evita falar de Neymar. Muitos “optaram” por falar dos outros personagens envolvidos, outros chegaram a dizer que Neymar só fez aquilo para ganhar seguidores etc. Mas a grande questão é: a vítima não teria sempre razão? A luta identitária não está acima de tudo?

Por que então a esquerda, mesmo diante de tamanha demonstração, tem tanta dificuldade de elogiar o jogador brasileiro, inclusive dentro daquilo que ela considera seu padrão e comportamento?

A resposta está no que dissemos no início dessa coluna. Está proibido defender Neymar e o futebol brasileiro. Esse é o problema central.

Não vamos confundir a demagogia da imprensa burguesa e da própria burguesia no mundo todo em relação ao caso. Diferente da esquerda pequeno-burguesa colonizada, a burguesia tem o total controle da situação. Ela sabe que pode fazer demagogia identitária com a atitude de Neymar e ao mesmo tempo ter a classe média esquerdista controlada como marionete contra o futebol brasileiro.

Quando o assunto é Neymar, sempre haverá um senão. Até agora, um dos problemas para defender o jogador é o do que ele supostamente seria bolsonarista e sequer se considerava negro. Mas e agora, bolsonarista protesta contra o racismo? Como explicar isso? Neymar se considera negro ou não?

É por isso que para não ser manipulado é preciso ter princípios. Nós não defendemos Neymar pela sua opinião, embora tenha sido muito interessante o posicionamento do jogador nos dois casos recentes. Nós defendemos Neymar porque como princípio defendemos o futebol arte contra o futebol dos grandes monopólios imperialistas, seja qual foram as opiniões políticas dos jogadores brasileiros.

Por completa falta de princípios, a esquerda, que até ontem dizia que não se podia defender Neymar porque ele era “racista-bolsonarista-sonegador-milionário-machista”, continua na mesma posição agora que ele se apresenta com uma atitude que a esquerda adora elogiar e fazer demagogia.

Por isso, como já dissemos em outra oportunidade nesse jornal, quando se trata do posicionamento da esquerda classe média, para Neymar e o futebol brasileiro vale a máxima de Machado de Assis no conto O Alienista: “preso por ter cão, preso por não ter cão”, sempre arranjarão um motivo para criticá-lo.

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