Resenha
Segunda parte da resenha A “ascensão da política antidemocrática no ocidente” por Wendy Brown
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In this Oct. 20, 2017 photo, Simone Batista, holding her baby Arthur, looks into the camera as tears roll down her cheeks while she recounts being cut from the
Foto: Reprodução |

A ideologia burguesa no século XX procurou mascarar a dominação e a exploração capitalista. Após a II Guerra Mundial, nos chamados “30 anos gloriosos”, a tônica era a defesa que as contradições de classe estavam sendo suplantadas pelo “ pacto do wefare state”, que garantia através de um sistema social de benefícios, pelo menos nas grandes economias europeias, a coexistência social.

A crise econômica e social dos anos 1970 desmantelou não somente as bases da estruturação do Estado de Bem Estar social, mas implicou também um desmantelamento das ilusões sobre harmonia e democracia social. Assim, concomitante com a implementação de políticas neoliberais na economia e na estrutura das instituições do estado, apresentou-se uma profunda ofensiva ideológica “neoliberal”.

Nas ruínas do neoliberalismo. A “ascensão da política antidemocrática no ocidente” de Wendy Brown, aborda os parâmetros justificadores da ideologia neoliberal, e mais que isso aponta que existiria uma reconfiguração social a partir de uma “nova racionalidade” neoliberal.

“O ataque contemporâneo à sociedade e à justiça social em nome da liberdade de mercado e do tradicionalismo moral e, portanto, uma emanação direta da racionalidade neoliberal, e não se limitam aos assim chamados “conservadores” (BROWN, Wendy. Nas ruinas do neoliberalismo, 2019, p.29)

Segundo a autora, no neoliberalismo o questionamento é bem mais amplo do que uma mera alteração ou supressão da intervenção estatal na economia, mas indica uma rejeição de uma solidariedade social e até mesmo a noção de social ou sociedade, isso em nome da “liberdade”.

“o ataque neoliberal ao social, que estamos prestes a examinar mais de perto, é fundamental para gerar uma cultura antidemocrática desde de baixo, ao mesmo tempo em que constrói e legitima formas antidemocráticas de poder estatal desde cima.” (BROWN, idem, p.29)

Portanto, a ascensão da razão neoliberal representa um ataque ao social, e as políticas estatais que possam de uma maneira ou de outra gerar benefícios para os trabalhadores. Os governos não deveriam se preocupar com noções abstratas como “justiça social”, mas adotar critérios vinculados ao mercado.

“ Na nova racionalidade governamental, por um lado, todo governo é para os mercados e orientado por princípios de mercado.”( idem)

Wendy Brown reconstrói a formação do pensamento neoliberal, tomando como ponto de partida  a constituição da Sociedade Mont Pèlerin em 1947, acompanhando aas formulações de autores neoliberais como Friedrich Hayek, Milton Friedman e os ordoliberais alemães.

Para Hayek a justiça social não passa de uma “miragem” e o fascínio por ela representa “a mais grave ameaça à maioria dos outros valores de uma civilização livre”. Segundo esta concepção, os mercados não têm como função compensar déficits sociais, mas tão somente recompensar contribuições efetivas no jogo livre, em parte produto de habilidades e da sorte, e que é inevitável a existência de perdedores e ganhadores.

Por sua vez, a concepção ordoliberal indica a possibilidade de uma intervenção do governo, dentro de uma rígida austeridade fiscal, visando combater a proletarização, favorecendo uma “Empreendedororização”.

De uma maneira global, a racionalidade neoliberal para a autora, transforma as pessoas em “capital humano”, em que a esfera econômica passa a dominar toda existência. A mídia e os governos realizam um trabalho constante para disseminar os valores neoliberais, em que a busca individual por valorização do “capital humano” como auto investimento de cada um no seu próprio “negócio”(si mesmo).

A atuação política enquanto coletividade de classe é negada pelo neoliberais, que fomenta uma “cidadania” sem proteção social nem interesse pela “coisa pública”.

Dessa forma, a ascensão neoconservadora para Wendy Brown de alguma maneira relaciona-se com o desenvolvimento econômico, entretanto, o elemento fundamental que ampara as ascensões da nova direita seria a moralidade “antidemocracia, neofascistas, neoconservadoras, racistas e masculinistas.”

Em Nas ruínas do neoliberalismo é nítida a influência de Michel Foucault, por isso a noção de “racionalidade neoliberal” passa a ter uma implicação determinante na configuração social atual. Além disso, a autora, influenciada por Nietzsche, indica que o “populismo de direita” baseia-se na noção de ressentimento, como reação das classes perdedoras, e mesmo do ódio do macho branco destronado. Na tentativa de explicar o aparecimento da nova direita e do questionamento da democracia na atualidade, Wendy Brown tenta equacionar sua abordagem foucaultiana sobre “racionalidade neoliberal” com uma análise marxista, entretanto, a conjunção apresenta-se como uma justaposição eclética.

O que pese que a discussão sobre os fundamentos e implicações das ideais neoliberais seja uma reconstrução interessante, o resultado geral da explicação é insuficiente. Essa lacuna decorre da concepção predominante da esquerda idealista de que a “racionalidade neoliberal” é o fator decisivo para as características da época atual.

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