Não vou cancelar a Netflix

A polêmica é meio tardia. Com o lançamento da série “O Mecanismo”, da Netflix, há pouco mais de um mês, algumas pessoas ilustres e outras nem tanto anunciaram o cancelamento do serviço em protesto à peça de propaganda de José Padilha para o imperialismo internacional disfarçado de “arte” pela grife do serviço de streaming.

A questão envolvendo a série e a própria Netflix vai muito além do cancelamento ou boicote ao serviço. A questão é muito maior. Em primeiro lugar, simplesmente ignorar a série ou todo o aparato de propaganda imperialista que envolve o serviço não vai ajudar em nada o combate a essa propaganda.

Fazer um debate denunciando a série e como a Netflix atua a serviço de empresas capitalistas estrangeiras que tem interesse de rapina no mercado brasileiro e em outros países é essencial para lutar contra esta verdadeira máquina de propaganda.

O debate levantado com a série, por exemplo, revelou que os principais acionistas da Netflix, “por coincidência”, são também acionistas das maiores empresas de petróleo do mundo que estão querendo levar o Pré-sal brasileiro a custo praticamente zero.

Um dos maiores acionistas da Netflix é a BlackRock que é o maior acionista da Shell e Chevron. Será que a Netflix não tem interesses políticos e econômicos para produzir uma série que ataca diretamente o PT e enaltece a Operação Lava Jato que por trás da falsa luta contra a corrupção possibilitou a mudança de governo e a privatização da Petrobras? É óbvio que sim.

Não é de hoje que algumas das produções da Netflix tem claro interesse político envolvido. Para exemplificar, há dois documentários realizados pela empresa para atacar diretamente o governo Sírio e o governo Russo.

Um deles é o documentário em curta-metragem “Os Capacetes Brancos”, grupo supostamente de voluntários que resgatam pessoas dos bombardeios da Síria. É uma peça de propaganda imperialista para atacar o governo de Assad na Síria. O filme mostra os efeitos da Guerra, mas faz questão de apresentar os horrores do confronto como produto do governo sírio e não da política genocida dos Estados Unidos e Inglaterra que são os financiadores dos “voluntários” humanistas. Há várias denúncias na internet sobre a atuação do grupo.

Outro é o documentário “Ícarus” que trata de escândalo de doping envolvendo, oportunamente, o governo Russo. O documentário é um ataque direto ao governo de Putin que teria um programa especial de doping para consegui os melhores resultados em olimpíadas. O que fica explicito na farsa é que a denúncia é feita com a ajuda “providencial” dos Estados Unidos. Nada mais conveniente. Outro fato que revela a farsa da propaganda imperialista é que os filmes tiveram grande repercussão e ambos foram agraciados com o Oscar em suas respectivas categorias.

Há uma ilusão por grande parte do público que ao cancelar o serviço da Netflix ou tentar pressioná-la para tomar uma posição é possível controlar a empresa. É uma ilusão. A Netflix e os outros serviços de streaming como Hulu e Amazon Prime, são inimigos na comunicação de massas. A Netflix é como se fosse a Rede Globo em uma versão mundial. O boicote e o cancelamento da assinatura não vai falir a empresa e afetar o seu rendimento. Para quem tem acionistas de grandes petrolíferas como donos algumas mensalidades não vão abalar as estruturas econômicas do serviço.

Boicotar e censurar esse tipo de serviço não vai contribuir para o esclarecimento do que está acontecendo.

O que é preciso é denunciar essas produções e os garotos propagandas golpistas, como José Padilha e ao mesmo tempo valorizar e fortalecer a imprensa alternativa de esquerda para criar uma oposição real e não meramente de protesto com gestos pouco efetivos como o cancelamento da assinatura.