Nova Esquerda
Esquerda no EUA rope a exclusividade do acesso às armas da direita e cria um novo panorama.
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Homens brancos de meia idade, o perfil do americano que busca armas está mudandondo. | M&R Glasgow

A cultura de armas nos Estados Unidos remonta dos primórdios da formação daquele país e foi reforçada pelo cinema, sobretudo pelos famosos filmes de bang bang. Esta cultura é mais forte entre os conservadores que sempre usam o argumento da defesa da pátria e da propriedade privada para justificar o armamento da população. A esquerda tradicionalmente se opõem a liberalidade das armas, faz isso como forma de se mostrar mais intelectualizada que seus antagonistas, a quem consideram incultos e violentos. No entanto, o ano de 2020 não cansa de surpreender e abalar estruturas até pouco tempo consideradas inabaláveis.

É mundialmente conhecida a poderosa Associação Nacional de Armas (NRA), uma entidade que faz lobby para a indústria bélica americana e é o xodó de todo direitista e fascista amante das armas nos Estados Unidos. A novidade em 2020 é o crescimento vertiginoso de uma associação de armas que se coloca no polo oposto à NRA, trata-se da Socialist Rifle Association (SRA) ou em uma tradução livre, Associação Socialista de Armas, cujo uso da palavra tabu “socialista” no país que é centro do capitalismo mundial, deixa claro sua oposição a NRA.

A SRA é uma organização pequena, que define sua missão como “defender o direito da classe trabalhadora de portar armas e manter as habilidades necessárias para defesa pessoal e da comunidade”. O vigoroso aumento no número de membros dessa entidade, que triplicou seu número de filiados em dois anos, marca uma tendência geral do surgimento de uma nova esquerda que se busca se dissociar da intelectualidade identitária tradicional do partido Democrata.

O bipartidarismo americano tenta limitar o escopo da esquerda ao partido Democrata, que nada mais é que um partido burguês. O caráter esquerdista deste partido é dado pelo discurso modernizador de costumes apoiado na intelectualidade pequeno-burguesa. As causas identitária do negro, da mulher, dos latinos, dos homossexuais e demais minorias são empacotadas e dissociadas das lutas sociais resultantes da luta de classes, o que torna fácil seu controle pela classe dominante. Assim, no que diz respeito às armas, a esquerda americana busca se opôr pelo vértice à direita, adotando voluntariamente um posição que lhe é desfavorável.

Vemos nesse momento, o surgimento de uma alternativa a esta esquerda, ainda embrionária e desorganizada e que vem ganhando força com os protestos antirracistas impulsionados pela revolta contra o assassinato de George Floyd pela polícia. Outros crimes semelhantes ocorreram desde o caso Floyd, mostrando que aquele não foi um fato isolado, mas reflexo da vocação racista e repressora da polícia americana.

O acirramento da disputa eleitoral entre Trump e Biden em 2020 extrapolou os limites das tradicionais disputas de promessas demagógicas e bravatas, e chegou a um ponto crítico quando Trump ameaçou não reconhecer o resultados das eleições, acusando de fraude, o voto pelos correios. Este foi outro fator que impulsionou o crescimento da RSA, que já ultrapassou a marca de 3000 filiados e 20 mil seguidores no Twitter.

Parte da população negra e outras minorias como latinos, índios e LGTBs já não acreditam nas instituições democráticas e buscam nas armas os meios para defenderem suas posições. Eles consideram que não será o Estado que os defenderão do avanço do fascismo no país. Além dos assassinatos promovidos pela polícia, têm se repetido episódios como o de Charlottesville em 2017, quando supremacistas brancos marcharam com armas de guerra contra grupos antirracistas. No episódio, um carro avançou sobre os manifestantes matando uma pessoa e ferindo outras duas dezenas.

Dados divulgados pelo FBI dão conta de um aumento de 40% no mercado de armas de fogo a civis americanos, além disso o perfil dos compradores vem mudando como divulgou a National Shooting Sports Foundation ou Fundação da Associação Nacional de Tiro. A NSSF aponta um crescimento na busca por armas por negros, hispânicos e asiáticos, além de pessoas que busca uma arma pela primeira vez.

O aquecimento do mercado de armas nos Estados Unidos sinaliza os rumos incertos da crise política e social no coração do capitalismo mundial. O rompimento da membrana que restringia a esquerda aos limites ideológicos do partido Democrata, o partido permitido pela burguesia, dá mostras que diante do aprofundamento da luta de classes, mesmo décadas de lavagem cerebral anticomunista podem ruir muito rapidamente.

A tendência espontânea demonstrada pelas minorias americanas em se armar para se opôr a ameaça do fascismo mostra a necessidade de passar da retórica a ação. A retórica que a esquerda brasileira adora repetir, na famosa frase do escritor Mark Bray que em seu livro “Antifa: o manual antifascista” disse: “Fascismo não se debate, fascismo se destrói”.

Aí está portanto, no exemplo que vem do norte, o caminho para passar do discurso à prática e conferir poder real às massas. Por enquanto temos apenas uma associação de armas socialista nos Estados Unidos, ainda falta um partido revolucionário de massas, porem o surpreendente 2020 ainda não terminou e quem se arriscaria a dizer do que 2021 será capaz?

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