O que ocorre em Myanmar?
Golpe de estado dado nesta segunda-feira ganha repercussão mundial.
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Militares destruíram presidenta nessa segunda-feira (01) | Divulgação/Flickr
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Militares destruíram presidenta nessa segunda-feira (01) | Divulgação/Flickr

Durante a manhã dessa segunda-feira, as forças militares de Myanmar, um país do sudeste asiático, que faz fronteira com a China, Laos e Tailândia, deram um golpe de estado contra a líder do país, Aung San Suu Kyi, após declararem que as eleições ocorridas no dia 8 de novembro foram fraudadas.

Um histórico de conflitos

A própria eleita não havia assumido a presidência por ter filhos com um homem estrangeiro, assim fora criado para ela o cargo de conselheiro de estado, e tem como histórico o primeiro governo eleito no país, após décadas de uma ditadura militar. Ela recebeu o prêmio de Nobel da Paz em 1991, e era conselheira de estado desde 2016. Vale lembrar também que Suu Kyi é filha de Aung San, considerado herói nacional da independência do país, ex-colônia britânica, que foi assassinado pouco antes da proclamação da independência, ocorrida em 1948.

Seu governo foi marcado por contradições internas da burguesia de Myanmar, como também das relações com o imperialismo. Mesmo sendo considerada um símbolo da liberdade, pela própria imprensa internacional, Aung San Suu foi diversas vezes criticada pela imprensa imperialista por não ter qualquer interesse em resolver um dos problemas mais destacados do país: a perseguição ao povo de Rohingya, constituído por mulçumanos, que representam 5% da população de Myanmar, e que são perseguidos há décadas pelo regime militar, inclusive, sendo considerados pela ONU como “vitimas de um genocídio em marcha”.

Em 2017, por exemplo, o exército de Myanmar foi acusado de assassinar milhares de mulçumanos da etnia rohingya, além de mais de 690 mil refugiados, após uma incursão em Rakhine, estado ao norte do país. Após o ocorrido, Suu Kyi foi contrária às alegações de genocídio, e entrou em conflito com a própria ONU e com organizações sem fins lucrativos como a Oxfam, gerando inclusive uma campanha por parte da imprensa imperialista para que Suu Kyi renunciasse ao prêmio Nobel da Paz.

Militares acusam fraude, já Suu Kyi chama a população a defender o governo

Agora, com o golpe militar dado no país, foram presas também outras autoridades de alto nível, como o mandatário Win Myint, considerado presidente do país. Após a tomada de poder, os militares também anunciaram um ano de estado de emergência, e a posse do presidente interino, o general Min Aung Hlaing, chefe das forças armadas.

Em contrapartida, Suu Kyi chamou a população a não aceitar o golpe de Estado, e tenta mobilizar a sua base para garantir a retomada do poder. Entretanto, as demais emissoras de televisão não estatais, além da comunicação nas principais cidades, estão completamente inutilizáveis. As últimas notícias, divulgadas pela imprensa burguesa, dão conta de que houve cortes nas redes de internet e linhas de telefone, além do fato de bancos e caixas eletrônicos não estarem funcionando. As principais cidades do país também estão com soldados monitorando as ruas mais movimentadas, sobretudo da capital Nay Pyi Taw e da maior cidade de Myanmar, Yangon.

O golpe se deu na primeira semana em que o parlamento eleito iria se reunir para tomar posse, dando continuidade ao primeiro governo civil, iniciado em 2015, após 25 anos de ditadura militar. Os militares alegam que houve milhares de denúncias de fraude no pleito. As eleições ocorreram sem a participação de diversos partidos de minorias étnicas, como os rohingyas (que, logicamente, não são protegidos pelos militares), além de dois milhões de moradores que não haviam conseguido votar.

Myanmar ainda é um país extremamente fechado em que grande parte do poder, na prática, permanece nas mãos dos militares. A transição para um sistema de democracia parlamentar foi controlada para que seu domínio permanecesse praticamente intocável. Os militares controlam rigidamente todos os aspectos da vida pública e têm direito, conforme a constituição acordada entre eles e a burguesia civil, a 25% das vagas no parlamento do país.

Da China aos países imperialistas

Segundo alguns “analistas” da imprensa burguesa, os militares não aceitam a popularidade de Suu Kyi após a investida em 2017 contra a minoria mulçumana, mesmo que no final também não apoiem os rohingya.

A respeito de toda esta situação, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que este foi “um duro golpe para as reformas democráticas em Myanmar”. No mesmo sentido, a União Europeia exigiu a soltura dos presos e que “os resultados eleitorais e a Constituição devem ser respeitados”.

O ministério de relações exteriores da Itália declarou que “condena firmemente a onda de prisões em Myanmar”. Já a Casa Branca emitiu um comunicado dizendo que “em coordenação com os nossos parceiros na área, pedimos que as Forças Armadas e que todas as demais partes adiram às normas democráticas e libertem os presos”. Além disso, em nota o imperialismo norte-americano se declarou “alarmado” e que “se opõem a toda tentativa de alterar o resultado das recentes eleições (…) os EUA agirão contra os responsáveis se essas medidas não forem revogadas”. No mesmo tom, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, fez sua declaração.

Por outro lado, a China, país vizinho a Myanmar, buscou se manter neutra no conflito, pedindo por um acordo entre as partes, em nome da estabilidade do país.

Toda esta situação demonstra uma aparente disputa entre setores da burguesia e da burocracia militar de Myanmar na luta pelo poder. Não fica clara ainda qual a participação do imperialismo no golpe, até porque o imperialismo sabe jogar com declarações demagógicas e apoio tácito. É possível também que diferentes alas do imperialismo estejam disputando o controle político da região e cada uma tenha interesse em apoiar um lado do conflito. No entanto, deve-se deixar claro que independente do conflito em questão, a participação do imperialismo jamais se dará para defender qualquer direito democrático da população, como tentam propagandear pela imprensa burguesa.

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