Morochusetts, o herói menos que monoglota

Os coxinhas têm um herói. Trata-se de Sérgio Moro, o juiz da República de Curitiba, um dos tantos enclaves da direita golpista. Não sabemos ao certo a identidade secreta desse herói. A julgar pelas consequências da operação Lava Jato, tudo leva a crer que seja um norte-americano, como Bruce Wayne ou Peter Parker. Um norte-americano, no entanto, muito peculiar: Sérgio Moro, o norte-americano, não sabe pronunciar “Massachusetts”. Ano passado, o paladino anticorrupção de Maringá deu uma palestra em Harvard, universidade localizada em… Massachusetts.

Ficamos sabendo das dificuldades de Sérgio Moro em pronunciar “Massachusetts” no programa Roda Viva da semana passada, transmitido pela TV Cultura, a TV Alckmin. O programa conseguiu muito prestígio no passado, levando ao ar entrevistas importantes, mas hoje tornou-se uma extensão da revista Veja. E foi no papel de instrumento de propaganda dos tucanos que a TV Cultura levou ao ar a entrevista com Sérgio Moro no dia em que os recursos da defesa de Lula foram negados no TRF-4, para a surpresa de ninguém.

Descobrimos mais. Moro também não se dá bem com a língua portuguesa. Errou concordância, falou em “colheita de provas”, o que pensando bem faz sentido, se as provas são plantadas, e disse coisas como “seje”. Ou seja, o herói dos coxinhas, norte-americano de coração, e supostamente  brasileiro de nascimento, não fala nem inglês nem português. É menos que monoglota.

Esse, porém, foi um detalhe menor da entrevista. Pior do que sua pronúncia errada de “Massachusetts” ou do que seu português sofrível foi a defesa da prisão depois de condenação em segunda instância. Moro fez como os juízes do STF para defender essa ilegalidade: ignorou a Constituição. Deu exemplos de outros países, mas contornou o pequeno problema do que diz o texto constitucional.

Para a desgraça dos golpistas, a Constituição é muito clara neste ponto, no artigo 5º, inciso LVII: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Claro e cristalino, o texto não permite evitar a conclusão de que, se negar o habeas corpus de Lula essa semana, o STF, encarregado de defender a Constituição, estará mais uma vez cometendo uma ilegalidade e atentando contra a carta magna. Exatamente o que Moro, em campanha política contra um adversário político, foi pedir para o tribunal fazer em rede nacional, engrossando a campanha para pressionar os ministros do Supremo.

Se a argumentação de Moro não pode convencer as palavras a mudarem de sentido dentro da Constituição, ela pode pelo menos convencer os coxinhas que o idolatram. Esses podem ser convencidos de qualquer coisa pelo juiz de Curitiba, até a defender o auxílio moradia ilegal que juízes têm usado para aumentar o próprio salário. Ou a sair dizendo “maçaxútsis” por aí.

Alguém poderia dizer que a crítica à pronúncia do Batman maringaense é injusta e pedante. Contudo, os coxinhas é que são pedantes e sempre se apressam em corrigir, por exemplo, Lula e Dilma, mesmo quando não há o que corrigir (como no caso da palavra “presidenta”). No caso de Lula, procuram desqualificá-lo pressupondo que sua forma de falar revelaria uma inferioridade intelectual. Tudo que isso revela na verdade é um preconceito de classe dos coxinhas. Não gostam de Lula porque ele foi operário, fala como um operário e representa politicamente uma grande massa de operários.

Que tenham Moro como herói reforça as evidências de que isso é exatamente assim. Moro fala como um roceiro sem ser um roceiro. Teoricamente, seria treinado academicamente, deveria dominar a norma culta da língua com tranquilidade no momento de dar uma entrevista. Todavia nesse caso os coxinhas não se escandalizam, nem fazem piadas. Como no caso de Lula, não é como Moro fala o que realmente importa. A simpatia coxinha pelo juiz está garantida também por uma questão de classe.

Se parte de um trabalhador, determinada forma de falar seria um indicador de ignorância. Já se for um “doutor” falando, qualquer coisa que ele diga, de qualquer forma que seja, soará inteligente aos ouvidos dos coxinhas. Um fenômeno tratado por Lima Barreto quando fala sobre a “Aristocracia de Bruzundanga” (capítulo de Os bruzundangas):

A aristocracia doutoral é constituída pelos cidadãos formados nas escolas, chamadas superiores, que-são as de medicina, as de direito e as de engenharia. Há de parecer que não existe aí nenhuma nobreza; que os cidadãos que obtêm títulos em tais escolas vão exercer uma profissão como outra qualquer. É um engano. Em outro qualquer país, isto pode se dar; na Bruzundanga, não.
Lá, o cidadão que se asma de um título em uma das escolas citadas, obtém privilégios especiais, alguns constantes das leis e outros consignados nos costumes. O povo mesmo aceita esse estado de cousas e tem um respeito religioso pela sua nobreza de doutores. Uma pessoa da plebe nunca dirá que essa espécie de brâmane tem carta, diploma; dirá: tem pergaminho. Entretanto, o tal pergaminho é de um medíocre papel de Holanda.

 

Outro exemplo literário ajuda a esclarecer um pouco mais a mentalidade coxinha. No conto “O espelho”, de Machado de Assis, o alferes Jacobina deixa de se reconhecer como uma pessoa independente de seu novo ínfimo cargo no Estado. Diante do espelho, seus traços somem depois que ele é obrigado a passar dias sozinho, sem que ninguém o chame de “alferes”. Só volta a enxergar sua imagem refletida quando veste sua farda. Ele deixa de existir, só existe o cargo, por meio do qual os outros o reconhecem:

Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava
defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os
sentir…

 

O coxinha também só enxerga o cargo. Se um juiz falou, deve estar certo. O conteúdo da afirmação não importa. Sequer a forma importa. Apenas o título e o cargo.

P.S. Reproduzo abaixo um vídeo ensinando a pronúncia correta de “Massachusetts”: