Militares ocupam escolas e deixam crianças sem aula e a imprensa se cala

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A intervenção militar já tem suas bases fixadas na vida cotidiana do povo brasileiro. Tanto nas altas esferas governamentais quanto nas ruas das cidades, os milicos já emanam uma profusa soberania diante da crise sistêmica – assumindo o controle da burocracia do Estado e dos órgãos de repressão social. Não obstante, contra a própria orientação da Secretaria de Segurança, o exército monta base militar em escola e a imprensa não se posiciona.

A adequação do modus operandi caso haja necessidade de uma intervenção a favor dos grandes interesses do capital tem sido copiosamente ensaiada pelos milicos desde a ECO 92. Numa clara demarcação de poder, as doses homeopáticas de intervenções têm aumentado e passado para um estádio mais avançado – correspondendo a atual conjuntura política. Em relação ao avanço do golpe de Estado chefiado pela direita entreguista, o exército tem atuado desde julho de 2017 a mando do golpista Michel Temer (MDB), que decretou missão de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), dando assim, poder de polícia aos militares até o final de 2018, podendo ser prorrogada.

Nesta semana uma desagradável surpresa foi encontrada na Zona Norte do município do Rio de Janeiro. Ao invés de uma escola lotada de crianças, o exército foi encontrado sob um forte aparato bélico, impedindo o funcionamento do local. No momento, estava em voga uma operação militar nos complexos da Maré, Alemão e da Penha que contava com cerca de 4.200 militares e 70 policiais civis sob o pretexto de averiguação de atividades criminosas. A região teve as aulas suspensas durante três dos cinco dias da operação. De acordo com o ativista digital, Arthur Lucena, “A princípio, eles disseram que só sairiam quando terminada a operação”, “Mas decidiram se retirar no mesmo dia em que a equipe retornou à escola com uma representante da Secretaria Municipal de Educação”. Na semana anterior, no Complexo do Alemão, os militares usaram as dependências da escola municipal Professora Vera Saback Sampaio por cerca de dois dias. Segundo a mãe de uma aluna, os militares intimidaram um vigia e entraram sem autorização. Ainda segundo ela, eles colocaram um tanque de guerra na porta de cada escola, em pelo menos cinco escolas da região.

A Instrução Normativa da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro recomenda o “não baseamento de recursos operacionais nas entradas e interior” de unidades de ensino, para “evitar que os mesmos se tornem alvos em potencial de infratores armados”. Vale lembrar que de acordo com a plataforma colaborativa Fogo Cruzado, cerca de 871 escolas e creches públicas da cidade estiveram dentro de um raio de 300 metros dos tiros deflagrados – o que corresponde à metade do total. Ademais, um menino de 11 anos foi atingido de raspão dentro da sala de aula na zona norte, no início do mês.

Segundo a coordenadora do eixo da segurança pública da ONG Redes da Maré, Lidiane Malaquini, “Na maré, até 15.000 crianças podem ficar sem aula quando tem operação, o que já é grave. Mais grave ainda é o Estado usar essa escola como estratégia de guerra”. No decurso das operações militares, afirma Lidiane, “Já atendemos mais de uma vez situações em que policiais invadem ou ocupam escolas, quebram teto, portas ou caixas-d’água em busca de drogas, usam como rota de fuga, se escondem para fazer operação”.

Para Pedro Strozenberg, ouvidor-geral da Defensoria Pública do RJ, essa ação não é inédita e viola por completo os direitos fundamentais dos alunos, mesmo que seja em nome de uma legítima proteção dos agentes públicos. Ainda ele, “A política de segurança não considera a escola uma aliada, um fator de proteção, o que é muito preocupante”. Como coordenador do projeto da defensoria e de entidades de defesa dos direitos humanos, somente nos últimos seis meses Pedro já têm à disposição mais de 300 relatos anônimos de moradores de 15 comunidades do Rio sobre abusos de policiais e militares durante a intervenção.

Com o aumento do poderio militar nas distintas estruturas do Estado, podemos traçar um prognóstico de hecatombe social; sobretudo para a população mais pobre, que se encontra totalmente suscetível às sucessivas investidas dos cães de guarda do governo – que não pensam duas vezes antes de puxar o gatilho. Nessa lógica repressiva e maniqueísta dirigida pela pérfida burguesia contra a população pobre – uma vez que a polícia não dá jeito, o exército há de dar.