A coerção como tratamento
Diferente do tratamento dado aos bolsonaristas, a Polícia Militar repreende qualquer ato de esquerda apresentando os mais estapafúrdios argumentos.
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Ato contra o governo golpista no monumento do Zumbi, RJ | Foto: DCO

Dando sequência à denúncia que fizemos ontem (21) acerca da detenção do militante do Partido da Causa Operária e outro companheiro que se manifestava no ato contra o governo golpista de Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, reproduzimos aqui entrevista realizada com o militante do PCO, Henrique Simmonard, após ser detido pela Polícia Militar do Rio de Janeiro.

 

Como foi que os PMs te prenderam? Prenderam mais alguém?

O ato estava marcado para começar às 14h em frente à estátua de Zumbi dos Palmares, na avenida Presidente Vargas. Chegamos às 13h30 no local, encontramos algumas pessoas no caminho que informaram a grande presença da Polícia Militar. De fato, ao chegarmos à estátua, havia carros de polícia por todos os lados; policiais faziam rondas com caminhonetes cheia de policiais armados, assim como a cavalaria. Éramos um grupo de aproximadamente 10 pessoas. Quando começamos a montar as bandeiras, faixas e botar nossas camisas vermelhas  chegou um grupo de 20 policiais para falar com a gente. Falaram que tínhamos o direito de nos manifestar, mas antes deveriam revistar nossas mochilas em busca de “materiais cortantes”. Não opusemos resistência embora tenhamos apontado que era um ato antidemocrático. Tudo o que encontraram foi um pequeno chaveiro da marca Victorinox que possui uma lâmina inferior a 5 cm, na minha mochila e uma tesoura de criança “sem ponta” na sacola de um companheiro que atendera ao chamado para a mobilização e que não deseja ser identificado. Nenhum dos itens é proibido, e ambos serviriam para cortar o fitilho que sustenta os cartazes e faixas.

 

Qual foi o motivo apresentado pelos PMs? O que disseram?

Após encontrarem a tesoura e o chaveiro, o tenente da polícia encarregado ligou para algum superior. Depois o PM notificou-me que deveria me levar para a delegacia junto com o outro companheiro. O motivo, portanto, seria a “apreensão de materiais cortantes”, embora não tenham especificado em que lei isso se encaixava. Por conseguinte, me levariam até a 21ª DP, em Bonsucesso, na zona norte da cidade, bem longe de onde estávamos.  Nada fazia sentido. Portar aquele chaveiro e a tesoura não era ilegal, não havia razões para levar-nos até Bonsucesso e, ainda, foi-nos negado o direito de ir por meios próprios. Segundo a polícia, deveríamos ir no carro deles. Quando perguntamos sobre o motivo de tudo aquilo, a única resposta era “ordens do coronel” ou “ordens superiores, só estou cumprindo”. Fomos colocados no carro da polícia e levados para a delegacia. Dois policiais armados na frente, atrás um outro policial, eu e o companheiro também detido.

 

Levaram apenas o seu canivete ou algo mais?

Além de apreenderem o canivete e a tesoura, disseram ter encontrado na sacola do outro companheiro um prego enferrujado, mas ele disse que não sabia que isso se encontrava na sacola. Também foram atrás dos mastros de todas as bandeiras, fossem eles de bambu ou de PVC, sem apresentar nenhum motivo. Segundo os agentes, eram “ordens superiores”. O ato aconteceu mesmo assim, e quando chegou uma nova leva de pessoas, todas foram revistadas. A Casa Nem, que chegou um pouco depois, também teve seus mastros apreendidos. Ninguém que chegou depois foi levado à delegacia.

 

Falaram alguma coisa enquanto te levaram detido? O quê?

Silêncio quase absoluto. Qualquer pergunta era respondida da mesma forma. De vez em quando, havia comentários do tipo “Droga! esqueci meu fuzil (…) vamos passar por Manguinhos… ali é muito perigoso”.

 

Houve ameaças?

No trajeto não, apenas caras feias. Na delegacia, um delegado da polícia civil me perguntou o motivo de eu estar ali. Nem ele nem os funcionários entenderam muito bem os motivos; ficavam fazendo ligações para saber como preencher a papelada.

 

Quanto tempo te mantiveram detido?

Um pouco mais de uma hora e meia. Nesse meio tempo, meu documento circulou na mão de várias pessoas e sumiu de vista, tendo só o recebido no final. Volta e meia um funcionário mal encarado, cuja função era de comando, mas não consegui identificar qual exatamente, pedia meu documento, me fazendo repetir todas as vezes que já estavam em posse de seus colegas. Pediram meus dados para preencher um Registro de Ocorrência. Pelo que pude interceptar de algumas conversa pelo telefone entre um policial e seu superior, o código usado foi o 00059, porém na cópia do registro de ocorrência que me entregaram não consta em lugar nenhum. Também tive que assinar um testemunho de que não agredi nenhum policial e não fui agredido por nenhum.

 

Como você foi tratado?

Durante todo o trajeto, fui mantido numa atmosfera de total ignorância. Em momento algum, me disseram explicitamente os motivos de eu estar em uma delegacia longe do ocorrido, de ter sido levado por um carro da polícia, quanto tempo eu ficaria na delegacia etc. Alguns funcionários me disseram que não demoraria e que não havia muito motivo para eu me preocupar. Também disseram que não estava sendo fichado. O policial mais graduado que me levou até a delegacia não trocou uma palavra comigo, e os demais disseram que não sabiam o motivo de tudo aquilo. No final das contas, saí da delegacia apenas com uma cópia do Registro de Ocorrência, e tive que voltar para o ato por meus próprios meios.

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Luna Sanger
Luna Sanger
12 dias atrás

Putamerda. O cara tava ARMADO em plena manifestação e diz que a prisão foi injusta?

Luna Sanger
Luna Sanger
11 dias atrás

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