Gênio trompetista
A história da carreira de Miles Davis quase se confunde com a própria história do jazz. Foi um dos grandes inovadores, sempre apontando a direção do futuro do estilo.
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miles davis foto don hunstein
Miles Davis durantes as sessões de gravação do LP "Kind Of Blue", 1959 | Foto: Don Hunstein/AP

A história do trompetista Miles Davis quase se confunde com a da própria história do jazz a partir do bebop. Sua inquietude criativa o levou a se reinventar continuamente, absorvendo todas as influências da cena musical. Desta forma seu desenvolvimento esteve ao lado da criação dos maiores movimentos do jazz, como o bebop, cool jazz, o jazz modal, jazz rock e fusion. Não foi dos maiores virtuosos do trompete como o seu contemporâneo e ídolo Dizzy Gillespie, mas seu timbre se impôs como um dos sons mais belos do jazz, uma marca registrada inconfundível. E este timbre fantástico esteve a serviço de seu objetivo final, destacar os elementos essenciais da música onde cada nota tinha importância.

Miles não foi apenas um grande músico. Foi também um grande líder e um grande reconhecedor de talentos. Era capaz de identificar os jovens músicos mais talentosos para incorporá-los a seu grupo. Muitos dos grandes do jazz começaram tocando com Miles, se beneficiando muito com isso, como foi o caso de John Coltrane, Chick Corea, Herbie Hancock, Joe Zawinul, John McLaughlin, Paul Chambers, Gil Evans, Keith Jarrett, Tony Williams, Cannonball Adderley, Red Garland, Gerry Mulligan e muitos outros.

Família abastada

Ele nasceu Miles Dewey Davis III, nascido em 26 de maio de 1926 em Alton, no estado de Illinois, Estados Unidos. Miles nasceu em uma família de classe média alta, sendo que seu pai, Miles Dewey Davis Jr. era um próspero cirurgião dentista e sua mãe, Cleota Mae Henry era professora de música e violinista. A família possuía uma fazenda de 81 hectares em Pine Bluff, Arkansas com uma grande criação de porcos.

Em 1927 a família se mudou para East St. Louis no estado de Illinois. Eles moravam em um edifício localizado em uma vizinhança predominantemente branca. O pai de Miles tinha pouco contato com os filhos porque na época, com a Grande Depressão, era consumido pelo trabalho.

De 1932 a 1934 Miles frequentou a John Robinson Elementary School, uma escola exclusiva para negros e depois a Crispus Attucks, onde ele teve um bom desempenho em matemática, música e esportes. Em 1935 ele ganhou o seu primeiro trompete, um presente de John Eubanks, amigo de seu pai. Passou a ter aulas com Elwood Buchanan, aquele a quem se referiu como “a maior influência da minha vida”, um professor e músico que era paciente de seu pai. Buchanan ensinou a Miles a importância de tocar sem vibrato, algo que ia contra a moda da época e a ter um timbre claro e mais arredondado. Miles disse que sempre que tocava algo com um vibrato forte Buchanan lhe dava um corretivo.

Em 1938, aos 12 anos de idade, Miles já considerava a música como a coisa mais importante de sua vida. No ano seguinte já começou a tocar em bandas. Teve aulas adicionais de trompete com Joseph Gustat, músico da St. Louis Symphony Orchestra, começando a participar de competições de músicos amadores. Anos depois Miles contou que foi discriminado em uma dessas competições por causa de sua raça, mas que as experiências o tornaram um músico melhor. Em outro episódio, quando um baterista lhe pediu para tocar uma certa passagem e ele não conseguiu resolveu aprender teoria musical. Devorou todos os livros especializados que encontrou.

Primeiros passos na carreira profissional

No início de 1944 Miles se formou no colégio e sua namorada Irene Birth deu à luz sua primeira filha, Cheryl. Em julho daquele ano Billy Eckstine e sua banda visitaram a cidade de St. Louis. Dentre os músicos estavam o baterista Art Blakey, o trompetista Dizzy Gillespie e o saxofonista Charlie Parker. Como o trompetista Buddy Andersen havia ficado doente Miles foi convidado a se juntar ao grupo. Com isso ele tocou com a banda por duas semanas no Clube Riviera. Depois desta experiência Miles teve a certeza de que deveria se mudar para Nova York, “onde as coisas aconteciam”.

Assim que chegou em Nova York, em setembro de 1944, Miles começou a estudar no Institute of Musical Arts, que mais tarde mudou de nome para Juilliard School. Lá ele estudou teoria musical e piano. Mas na maior parte do tempo Miles estava mesmo nos clubes procurando por seu ídolo, Charlie Parker. Assim que o encontrou Miles se tornou um dos frequentadores regulares dos bares Minton’s e Monroe’s no Harlem, locais onde jam sessions aconteciam todas as noites. Outros músicos da cena local eram Thelonious Monk, J.J. Johnson, Kenny Clarke e Fats Navarro. Miles trouxe sua mulher e filha para morarem em Nova York. Parker veio morar com eles.

Após algum tempo Miles desistiu das aulas em Juillard, criticando seu foco na música clássica europeia e repertório “branco”. Mas elogiou a escola pelo seu ensino de teoria musical e por ter melhorado sua técnica no trompete.

Os anos de bebop

As primeiras gravações de Miles aconteceram em 24 de abril de 1945 quando fazia parte da banda de Herbie Field. Em novembro participou de várias sessões de gravação do grupo de Parker, o Reboppers, que também tinha Dizzy Gillespie e o baterista Max Roach, mostrando já o seu estilo particular. Nas músicas “Billie’s Bounce” e “Now’s The Time” Miles toca solos que já são prenúncios do cool jazz. Mesmo na tenra idade de 19 anos Miles mostra que já tem algo para contribuir.

O estilo que Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e muitos outros desenvolveram naquele período era o bebop, um estilo que veio para se contrapor ao swing, que era a música tocada pelas big bands, um estilo extremamente popular e dançante. O bebop nunca se tornou popular, sendo considerado um estilo demasiado cerebral para o grande público. Miles tocou com o quinteto de Charlie Parker de 1944 até 1948. Dentre as características do bebop estavam a grande velocidade das músicas e os solos rápidos, com muitas mudanças de acordes na harmonia. Miles tinha muitas dificuldades para acompanhar a velocidade imprimida por Dizzy e Charlie Parker, escolhendo por isso tocar na região média de seu instrumento. Em 1948 ele saiu por causa da crescente tensão dentro do grupo e também pelo comportamento errático de Parker, cada vez mais afetado pela sua dependência de drogas.

Ele recusou uma oferta para se juntar à orquestra de Duke Ellington, preferindo um outro projeto, uma banda de nove músicos que foi reunida pelo pianista e arranjador Gil Evans. O apartamento de Evans se tornou o ponto de encontro para vários músicos e compositores jovens como Max Roach, Gerry Mulligan e Miles que estavam descontentes com a crescente dominação do virtuosismo que dominava o bebop. Estes encontros resultaram na formação do noneto de Miles Davis, que incluiu instrumentos pouco usados no jazz como a tuba e o french horn (no Brasil, fliscorne). No começo de 1949 o grupo gravou várias músicas para a gravadora Capitol, que venderam pouco, mas se tornaram muito influentes. Esta banda durou até meados de 1949, mas as gravações do grupo se tornaram lendárias, sendo reunidas no LP “Birth of The Cool”, lançado em 1957. Este novo estilo ficou conhecido como cool jazz. O cool jazz teve como alguns de seus principais representantes Chet Baker, o Modern Jazz Quartet e Gerry Mulligan.

Em maio de 1949 Miles fez sua primeira apresentação fora dos Estados Unidos com o Todd Dameron Quintet no Paris International Jazz Festival. Esta estada na França foi importante para Miles, que sentiu que os músicos negros e gente de cor, em geral, recebiam mais respeito do que na América. Lá ele começou um romance com a atriz e cantora Juliette Gréco.

Após sua volta de Paris Miles entrou em depressão e tinha muito pouco trabalho. Isso resultou no crescimento de sua dependência de heroína, que se tornou um hábito caro. Aos 24 anos ele perdeu a direção que tinha tido até então. Ele trabalhou com cantores como Billy Eckstine e Billie Holiday e acabou sendo preso por posse de heroína em Los Angeles.

Para sustentar o vício Miles começou a trabalhar como cafetão, explorando prostitutas nas ruas de Nova York. Este estilo de vida afetou muito a música de Miles, o que fica fácil de se constatar quando se vê as poucas gravações dele no período. Em 1953 ele voltou à casa de seu pai determinado a se livrar do vício. Ficou seis meses em Detroit, evitando voltar a Nova York onde era fácil conseguir drogas. Segundo Miles sua decisão de se livrar do vício foi inspirada por seu ídolo, o boxeador Sugar Ray Robinson.

O primeiro quinteto

O ano de 1955 marcou a volta de Miles à música. Em julho ele se apresentou no Newport Jazz Festival ao lado de Thelonious Monk e Gerry Mulligan. A performance de Miles foi aclamada pelo críticos, aumentando sua popularidade com as plateias brancas.

Davis abandonou o bebop e se voltou para a música do pianista Ahmad Jamal. Miles formou o seu primeiro quinteto com John Coltrane (saxofone), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones (bateria). Os solos de Miles continham notas longas e linhas melódicas enquanto John Coltrane contrastava com solos enérgicos. Esta formação foi registrada no clássico álbum “’Round About Midnight”, lançado em março de 1957.

Naquele ano Miles viajou a Paris mais uma vez onde gravou a trilha sonora do filme “Ascenseur Pour L’echafaud” (ascensor para o cadafalso), dirigido por Louis Malle. O disco foi gravado com músicos franceses que improvisaram enquanto assistiam às imagens do filme. De volta a Nova York Miles retomou o trabalho com o quinteto, com Art Taylor no lugar de Philly Joe Jones, que também lutava contra o vício em drogas. John Coltrane conseguiu vencer o mesmo problema e permaneceu no grupo.

Gil Evans

A partir de 1957 Miles estava esgotado pelas constantes gravações e excursões com o seu quinteto e resolveu experimentar novos projetos. Ele se reuniu com o pianista Gil Evans, um jovem músico com formação clássica e estilo impressionista, cujas ideias impressionaram Miles. De 1957 a 1962 eles colaboraram em quatro álbuns que se tornaram clássicos, todos com Miles tocando com acompanhamento orquestral. O primeiro foi “Miles Ahead” (1957). Esse disco incluiu uma versão de “The Maids Of Cadiz” de Léo Delibes, primeira peça de música clássica a aparecer em um disco de Miles.

“Porgy And Bess” (1959) trouxe peças da ópera de George Gershwin. “Sketches Of Spain” (1960) apresentou composições de autores espanhóis como Joaquim Rodrigo e Manuel de Falla, além de originais de Evans. Os complexos arranjos de Gil neste disco trouxeram problemas para os músicos eruditos e também para os jazzistas, mas foi um grande sucesso comercial. O último desta série foi “Quiet Nights” (1962), uma coleção de canções de bossa nova.

Kind Of Blue

Entre março e abril de 1959 Miles gravou o disco “Kind Of Blue”, que é considerado por muitos como o maior disco de jazz de todos os tempos. Bill Evans foi chamado novamente, um elemento central do disco. Neste disco Miles aplica o conceito de jazz modal, ou seja, improvisação baseada em modos, ao invés de mudanças de acordes. Segundo Miles, isto significava uma volta à melodia. O disco trouxe uma formação de músicos inigualável, com John Coltrane (sax tenor), Julian “Cannonball’ Adderley (sax alto), Bill Evans (piano), Jimmy Cobb (bateria), Paul Chambers (baixo) e Miles (trompete). Todas suas cinco faixas se tornaram standards do jazz: “Freddie Freeloader”, “So What”, “All Blues”, “Flamenco Sketches” e “Blue In Green”.

A influência de “Kind Of Blue” foi enorme, indo além do terreno do jazz. Muitos músicos de rock citaram o disco como influência como o tecladista Richard Wright do Pink Floyd e Duane Allman, guitarrista do Allman Brothers. O conceito do jazz modal apareceu em álbuns subsequentes de John Coltrane como os clássicos “A Love Supreme” (1965) e “My Favorite Things” (1961).

No mesmo ano em que lançou “Kind Of Blue” Miles foi vítima de um incidente de racismo explícito. Em agosto de 1959 enquanto saia de um clube com uma garota branca foi abordado por um policial que o intimou a sair andando. Como Miles estava esperando por um táxi se recusou a se mover e foi preso, algemado e golpeado na cabeça por outro policial. Ele foi levado à delegacia onde continuou a ser humilhado. Miles escreveu sobre o episódio concluindo que “se você é negro não existe justiça. Nenhuma.”

Em 1963 Miles formou um novo quinteto, o seu segundo, com George Coleman (sax tenor), Ron Carter (baixo), Herbie Hancock (piano) e o jovem de 17 anos Tony Williams (bateria). Com este grupo Miles gravou álbuns importantes como “Seven Steps To Heaven” (1963), “Miles Davis In Europe” (1964), “My Funny Valentine” (1965) e “Four & More” (1966). O repertório do grupo eram as mesmas canções bebop e standards da música americana das bandas anteriores de Miles, mas tocadas com uma liberdade rítmica e estrutural inéditas e em algumas vezes com velocidade sem igual.

A partir dos álbuns “Miles In The Sky” (1968) e “Filles de Kilimanjaro” (1968) Miles inicia uma nova fase em sua carreira. Esses discos trazem instrumentos elétricos como baixo, piano elétrico e guitarra em algumas faixas, apontando para a direção que sua música tomaria no futuro. A influência do rock começa a se tornar evidente.

Jazz elétrico

Em setembro de 1968 Davis se casou com a modelo e compositora Betty Mabry. Ela era uma figura famosa na cena underground de Nova York, que apresentou Miles a vários músicos de rock. O crítico de jazz Leonard Feather visitou o apartamento de Miles e ficou chocado ao encontrá-lo ouvindo dezenas de discos de bandas como os Byrds, Sly And The Family Stone, Jimi Hendrix, James Brown e Aretha Franklin. Miles ficou particularmente impressionado com o LP de Jimi Hendrix, “Band Of Gypsys”. Betty Mabry também se tornou uma cantora de prestígio gravando vários discos seminais de funk-rock com o nome de Betty Davis. O casal se separou em 1969 após Miles acusar Betty de ter um caso com Hendrix.

Um dos discos mais famosos de Miles neste período é “Bitches Brew”, um álbum duplo onde ele tem a presença de músicos como Airto Moreira (percussão, bateria), John McLaughlin (guitarra), Jack DeJohnette (bateria) e três tecladistas, Joe Zawinul, Chick Corea e Herbie Hancock. O álbum foi construído no estúdio, após sessões onde Miles dava apenas algumas vagas instruções aos músicos como o tempo, alguns acordes ou melodias e sugestões do ambiente musical. As faixas gravadas foram depois montadas pelo produtor Teo Macero. O resultado foi o primeiro disco de um novo estilo que viria a ser conhecido como fusion, uma combinação de solos de jazz com os ritmos e a energia do rock. Foi um disco que trouxe uma nova plateia para Miles, a plateia dos grupos de rock, aproximando os dois mundos até então distantes, provocando polêmicas, especialmente entre os jazzistas mais tradicionais. Uma de suas maiores apresentações nesta época foi no famoso Festival da Ilha de Wight na Inglaterra onde se foi visto por mais de 600 mil pessoas, ao lado de nomes como Bob Dylan, Joni Mitchell e Jimi Hendrix.

Miles chegou a planejar gravar um disco com Jimi Hendrix, mas isso nunca chegou a ocorrer por causa da morte do guitarrista em 1970.

Nos anos seguintes a música de Miles for gradativamente mais em direção ao funk, especialmente em discos como “Live-Evil” (1971), “At The Fillmore” (1971) e “On The Corner” (1972). Nesses discos os músicos vinham mais do mundo do funk do que do jazz.

Nos anos seguintes Miles se concentrou mais nas apresentações ao vivo, rendendo vários álbuns gravados nessas turnês. Só que a saúde do trompetista estava piorando sensivelmente com episódios de pneumonia, artrite, anemia, depressão, bursite e úlceras no estômago. Críticos ainda reclamavam que ele tocava de costas para a plateia. Após sua aparição no Festival de Jazz de Newport em julho e no Schaefer Music Festival em setembro Miles se retirou da cena musical.

De 1975 a 1980 Miles quase não tocou seu trompete ou teve qualquer outra atividade musical. Recusou todas as ofertas para voltar aos estúdios e estava recluso em seu apartamento em Nova York. Apenas em maio de 1980 é que ele voltou à cena, gravando as músicas que viriam a fazer parte do seu álbum “The Man With The Horn”. Em 1982 sofreu um derrame que deixaria sua mão direita paralisada. Após este aviso ele resolveu seguir as ordens dos seus médicos, abandonando mais uma vez as drogas e o álcool, além de fazer exercícios.

Nos anos 80 Miles gravou muitas músicas pop como “Time After Time” de Cyndi Lauper e “Human Nature” de Michael Jackson, além de participar de discos de bandas de rock como o PIL e Scritti Politti. Naquela época o canal MTV era uma presença constante na TV da casa de Miles. Ele continuava observando atentamente os movimentos da música, assim como fez durante toda a sua vida.

Em seus últimos anos continuou com problemas de saúde. Mas fez várias turnês e gravou vários álbuns e trilha sonoras para filmes. Ele faleceu em 28 de setembro de 1991 no St John’s Hospital em Santa Monica, Califórnia, onde foi internado por problemas recorrentes de pneumonia. Teve uma hemorragia cerebral que o deixou em coma. Morreu aos 65 anos de idade.

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