“Eu trago o povo em minha voz”
Mercedes Sosa morreu nesta data há 11 anos atrás. Ela foi uma militante de esquerda, perseguida pela ditadura militar
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Mercedes Sosa no Festival folclórico de Cosquin, Argentina, 1965 | Foto: reprodução

Haydée Mercedes Sosa foi um dos grandes símbolos do protesto contra as ditaduras na América Latina nos anos 1960 e 70. Ela se tornou a maior cantora argentina, o principal nome do movimento chamado de nuevo cancionero e cuja reputação não conheceu fronteiras, conquistando fãs por todo o mundo.

Mercedes nasceu em 9 de julho de 1935 em San Miguel de Tucumán, na província de Tucumán, localizada na região nordeste da Argentina. Ela tinha descendência francesa, espanhola e do povo indígena dos diaguitas. Desde pequena começou a cantar e a dançar as músicas tradicionais de sua terra. Os pais de Mercedes eram peronistas, embora nunca tenham se filiado ao partido e ela começou sua carreira como cantora do Partido Peronista em Tucumán.

Com 15 anos de idade entrou em um concurso promovido por uma rádio local, a LV12, usando o pseudônimo de Gladys Osorio por medo de que seus pais descobrissem. Apesar de ainda muito jovem e com pouca técnica vocal venceu o concurso, rendendo um contrato para cantar na emissora por dois meses, o que possibilitou a ela tornar-se profissional, apesar de ainda ter um enorme medo de palco. Em pouco tempo ela adquiriu uma boa reputação, apresentando-se também em atos de apoio ao peronismo e no circo Hermanos Medina.

Começo da carreira

Em 1957 ela se mudou para Mendoza após se casar com outro cantor, Oscar Matus, que também foi outro nome importante do nuevo cancionero e com quem teria um filho, Fabián Matus.

Na época em que Mercedes Sosa começou a cantar a música dominante era o tango de Buenos Aires, mas já começavam a surgir as primeiras manifestações da música de raiz folclórica da províncias argentinas, conhecido como o boom do folclore, resultado do processo de industrialização e das migrações de milhões de pessoas do campo para as cidades e províncias de Buenos Aires.

1959 é o ano em que Mercedes gravou seu primeiro LP, “La Voz de La Zafra” (“a voz da colheita”). A colheita de que Mercedes se refere no título do disco é a da cana de açúcar, principal produto de produção de Tucumán. O disco trouxe várias canções escritas pela dupla Oscar Matus e Armando Tejada Gómez, este último outro dos grandes nomes do nuevo cancionero. No entanto o disco só seria lançado em 1962.

“Movimiento del Nuevo Cancionero”

Em 11 de fevereiro de 1963 Mercedes, seu marido Oscar Matus, Armando Tejada Gómez e outros artistas lançaram o manifesto do Movimento do Novo Cancioneiro. Ao longo de sua carreira Mercedes se manteria fiel aos princípios do manifesto. Um trecho dele diz:

“O novo cancioneiro busca pesquisar a riqueza criativa de autores e intérpretes argentinos para a integração da música popular na diversidade das expressões regionais do país.

Ele quer expressar a consciência nacional do povo através de novas e melhores obras que a expressem….nesse sentido adere à preocupação do Novo Cinema, bem como a qualquer tentativa de renovação que tente testemunhar e expressar nossa realidade apaixonada através da arte, sem concessões ou distorções.”

Mercedes teve que superar muitos preconceitos artísticos, culturais e ideológicos muito arraigados na sociedade argentina para se manter alinhada com os conceitos do manifesto. Por isso usou de um critério rígido para a escolha das canções de seus discos, que sempre tinham vínculos fortes com o povo, além de ser um canal de divulgação para novos compositores e novos estilos musicais, seja com o rock argentino, tango, pop e outras manifestações.

O nuevo cancionero era um movimento que seguia outras manifestações semelhantes nos outros países da América Latina. No Brasil Geraldo Vandré seguiria o mesmo caminho, explorando a música popular do nordeste. No Chile havia a Nueva Canción Chilena, cujos nomes principais eram Violeta Parra e Victor Jara e em Cuba o movimento nueva trova com nomes como Pablo Milanés.

Em 1965 Mercedes lançou seu segundo disco, “Canciones Com Fundamento”. Nesta época ela já havia sido abandonada pelo marido e com um filho para criar. Foi outro álbum, assim como o primeiro, com pouca repercussão, mas que se tornaria um dos expoentes da nuevo cancionero.

Nesse mesmo ano Mercedes participaria da quinta edição do Festival Folclórico Cosquín, que se tornaria o centro do boom do folclore na Argentina. Nesse festival ela cantou “Canción del Derrumbe Indio” de Fernando Figueiredo Iramain, acompanhada apenas por teu tambor (bombo), arrebatando o público, que se levantou em aplausos antes mesmo do fim da canção. O sucesso no festival rendeu um contrato com a gravadora PolyGram, que a levou para gravar seu terceiro disco, “Yo No Canto Por Cantar…”, que lhe trouxe o merecido sucesso.

Golpe militar na Argentina

1966 foi o ano em que a Argentina sofreu um golpe militar que derrubaria o presidente Arturo Umberto Illia e colocaria em seu lugar o general Juan Carlos Onaganía.

No ano seguinte Mercedes lança o LP “Para Cantarle a mi Gente” e parte para turnês bem sucedidas nos Estados Unidos e Europa. Em 1969 ela se apresenta pela primeira vez no Chile. Dois anos depois lança um disco em homenagem a Violeta Parra, “Homenaje a Violeta Parra”, que traz interpretações de canções clássicas como “Gracias a la Vida”, “Volver a los 17” e “La Carta”, alcançando um sucesso notável por todo o continente. Foi um disco importante, que mostraria a sintonia entre os movimentos dos dois países.

Em 1973 a América Latina passa por outro período de turbulência. O Chile sofre o golpe de estado que depõe o presidente Salvador Allende. O regime fascista de Augusto Pinochet assassina violentamente um dos grandes nomes da música chilena, Victor Jara. Na Argentina um novo golpe de estado foi dado em 1976, que depôs a presidente Isabelita Perón e colocou uma nova junta militar no poder, liderada por Jorge Rafael Videla.

Discos notáveis de Mercedes neste período incluem “A Que Florezca Mi Pueblo” de 1975, “Mercedes Sosa” (1976) e “Mercedes Sosa Interpreta Atahualpa Yupanqui” de 1977. Atahualpa foi outro dos grandes cantores argentinos pioneiros no aproveitamento do repertório tradicional e um homem de inclinação política de esquerda.

O endurecimento do regime na Argentina levou a episódios grotescos como o ocorrido em 1978 em La Plata. Durante uma apresentação no Alamacén San José, Mercedes cantou para o público algumas canções que foram proibidas pela censura. Ela foi revistada e detida no palco e todas as cerca de 200 pessoas da platéia foram levadas presas. Após esse episódio Mercedes resolve deixar o país e se exila em Paris e posteriormente vai morar em Madri.

Ela lança vários discos na Europa que são sumariamente censurados na Argentina. Ela retornou ao país em fevereiro de 1982 pouco tempo antes da ditadura argentina ser obrigada a entregar o poder de volta para um governo civil após o fracasso dos militares na Guerra das Malvinas. Seu retorno é celebrado por shows com plateias lotadas e um disco comemorativo: “Mercedes Sosa En Argentina”, gravado ao vivo Teatro Opera de Buenos Aires.

Sosa continuou gravando muitos discos e fazendo centenas de apresentações em todo o mundo até a sua morte em 4 de outubro de 2009 em Buenos Aires. Ela gravou com nomes como Gal Costa, Milton Nascimento, Silvio Rodriguez, Shakira, Sting, Caetano Veloso, Nana Mouskouri, Pablo Milanés, Charly Garcia, Andrea Bocelli e Joan Baez, entre muitos outros. Ela faleceu de uma falência generalizada dos órgãos.

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