“Mecanismo”:  a Netflix fez uma série Teletubbies para “coxinhas”

Um dos assuntos do momento é a nova série da Netflix, “Mecanismo” que estreou há uma semana. Há muito o que se dizer sobre a série, ou melhor dizendo, peça de propaganda golpista. Provavelmente eu deva voltar ao tema em breve desenvolvendo alguns ângulos que não conseguirei expor aqui.

Vou apresentar algumas impressões iniciais. Além da já falada manipulação e mentiras deslavadas apresentadas pela série, que diga-se de passagem a Netflix por ser uma empresa privada, tem o direito de fazer, assim como nós temos o direito de desmentir, o que me chamou muito a atenção foi a qualidade artística sofrível, realmente ruim para uma produção deste porte.

Dividida em 8 episódios “Mecanismo”, é uma versão estendida do filme da Lava Jato, “Polícia Federal – A Lei é para todos”.

A qualidade de que falo não entra necessariamente no mérito do conteúdo político da série, abertamente golpista, mas no fato de que sendo uma produção Netflix, com orçamento polpudo e um diretor famoso era de se esperar um produto de maior qualidade.

Em destaque o roteiro que gira em torno de um Policial Federal, interpretado por Selton Mello, mais precisamente, um delegado da PF, que é obcecado em acabar com a corrupção do Brasil. Ele é apresentado como um profissional assalariado (pasmen!!), um delegado da PF. Sem motivação nenhuma para tanta gana por justiça. Juntamente com ele outra delegada que também tem a mesma vontade de acabar com a corrupção.

A história começa com o caso do Banestado que envolveu o doleiro Yousseff, na série Ibrahim, interpretado por Enrique Diaz, e o juiz Sérgio Moro, ou Rigo na série. Depois um salto de 10 anos, estamos às vésperas da segunda eleição presidencial da Dilma e a Lava Jato está iniciando suas operações.

Não entrando aqui no mérito de que a série distorce fatos e inventa situações para atacar o PT e principalmente Lula, na série João Higino. Tudo é apresentado de maneira extremamente simplória, enfadonha, arrastada. Não existe interesse na série a não ser o fato de tratar-se de um tema da atualidade. Se fosse em outra situação poucos não passariam do primeiro capítulo. Algo muito comum em várias séries do serviço de streamming. Mas como fala do Brasil do momento, há um interesse embutido.

Os personagens são divididos entre os bons e os maus, com algum verniz de complexidade como o delegado que é um assalariado, deprimido e bipolar, mas de resto não sobra nada.

O personagem de Selton Mello é apresentado com algum tipo de distúrbio psicológico, para parecer mais real, mais verossímil, mas o simples fato dele estar preocupado em resolver o problema do “câncer” que é a corrupção, a troco de nada, já que ganha uma “miséria”, mostra como é um personagem falso, pouco crível. Alguém que passa 20 anos como agente da PF, “ganhando uma miséria” vai se preocupar com crime de corrupção? Não há motivação, o doleiro não roubou a mulher dele, o pai não morreu na mão de nenhum político ou ele terá uma promoção se apresentar resultados… nada que empolgue.

Dilma ou Janete Ruscov, aparece como uma figurante no cenário, mostrando ser uma pessoa bruta e pouco tratável. Mas o alvo principal é Lula, sem sombra de dúvidas que quando aparece é para tentar a todo custo abafar a corrupção. Lula é mostrado, sem cerimônia, como absolutamente ciente de todo o esquema e tentando, nos bastidores, acabar com as investigações e manter todo o esquema. A caracterização do personagem nem precisa dizer que é desprovida da simpatia inerente do ex-presidente.

Para completar o quadro ainda temos o efeito “Teletubbies” da série, que citei no título, a todo o momento as mesmas ideias são repetidas inúmeras vezes, como se fosse o “de novo! de novo!” que aparece nesta série infantil britânica feita para crianças em idade pré-escolar.

"Mecanismo":  a Netflix fez uma série Teletubbies para "coxinhas"
Efeito Teletubbies….

No primeiro capítulo em particular o delegado federal “pobre” repete como um mantra, em narração em off algumas expressões:

“Em 20 anos de PF o que consegui comprar foi um carro usado para minha esposa e um sítio no interior do Paraná”, “A corrupção é um câncer” e “Ninguém combate um câncer impunemente”.

Nem vamos entrar no mérito de que um delegado Federal em início de carreira receba em torno de R$ 16 mil. Vamos simplesmente destacar que essa ladainha de “sou um pobre coitado, e honesto, goste de mim, pois sou contra a corrupção” não é nada empolgante.

A narração em off, recurso exaustivamente usado pelo diretor Padilha em seus filmes, com destaque para os dois “Tropa de Elite”, aqui fica extremamente excessiva, exagerada e muito didática.  A personagem da delegada, da atriz Carolina Abras, também faz as vezes de narradora em alguns episódios. Isso torna a série extremamente sem sal, sem interesse, tudo que acontece na tela é narrado e explicado. Sem espaço para o espectador pensar. Aí entra o efeito “Teletubbies”. Tudo repetido, explicado, nos mínimos detalhes. Outro exemplo infantil deste quilate pode ser encontrado no desenho “Dora Aventureira”. Não há humor e o ritmo é cansativo.

Neste ponto a série tem o mesmo sentido do filme da Lava Jato, feito para os “coxinhas”, conhecidos universalmente como desprovidos de cognição ou no jargão popular a direita é burra mesmo.

Por isso que a falsificação da série funciona, também para este setor. E tom didático é empregado.

Para um “coxinha” que não sabe que o golpe é golpe e que vai fazer ele perder direitos como aposentadoria e CLT não faz diferença trocar o escândalo do Banestado de 1996 (governo FHC), para 2003 (governo Lula), ou apresentar um delegado Federal pobre como um mártir contra a corrupção.

A série não tem contrastes, nenhum personagem apresenta dúvidas, ou você é bom e honesto, como a PF, os promotores do Ministério Público e o juiz imparcial, na série claro, Moro, ou você é mal e corrupto, Lula, o PT, Dilma, os empreiteiros, o diretor da Petrobrás, o doleiro.

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Moro: o imparcial na ficção e o golpista na vida real

Moro aliás é um exemplo de cidadão de bem na série, um senhor casado, que vai ao trabalho de bicicleta, ensina a filha pequena a andar de bicicleta no parque, trabalha até altas horas e ainda é um amante ardente com a esposa. Um perfil incorruptível, um homem acima de qualquer suspeita. Na série ele pondera todas as ações sobre as investigações, um verdadeiro juiz imparcial. Retrato muito conveniente para quando ele estiver frente a frente com o “grande corrupto” Lula, ops!, João Higino.

Esta falta de nuances, dúvidas, contrastes, contrapontos transforma a série que é horrível do ponto de vista político para horripilante do ponto de vista artístico. Lamentável para um canal e um diretor que supostamente teriam cacife para algo melhor. O problema de ser de direita, em si, não é demérito, há filmes e séries de direita e com figuras de direita, que são no mínimo interessantes de assistir, “O Mecanismo” não.

Um exemplo, o filme sobre a figura detestável que é Margareth Tchatcher é interessante de se assistir e até tenta apresentá-la como uma figura com algumas qualidades, contradições, pelo ângulo do machismo. Utilizaram uma atriz de esquerda para representá-la etc. Séries como “Homeland”, “The Americans”, tem os chamados personagens “maus”, terroristas islâmicos, espiões russos, mas são apresentados com humanidade, e não meros vilões inescrupulosos etc.

O recurso “Teletubbies” só reforça o fato de que Padilha e a Netflix produziram uma peça de propaganda ao gosto dos golpistas. Repetir mil vezes o mantra de que a corrupção é um mal a ser extirpado. Em ano eleitoral centrando fogo na figura de Lula. A edição e montagem sem inspiração, o roteiro arrastado e sem graça e até a abertura curta e pouco criativa mostram que a série foi feita a toque de caixa, às pressas, para cumprir o objetivo de atacar Lula com o disfarce do combate à corrupção.

Uma reflexão, se a série tivesse estreado às vésperas da eleição de 2014 Dilma não seria a figurante, mas a personagem central na corrupção. 

É hora de dar tchau!