Massacre da Praça da Paz Celestial: uma repressão aos protestos contra o neoliberalismo na China

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Esta semana completaram-se 30 anos do chamado “Massacre da Praça da Paz Celestial”, ou Massacre da Praça Tiananmen, ocorrido na China em 4 de junho de 1989. O imperialismo e sua imprensa propagandeiam que o ocorrido seria uma prova da repressão e da insatisfação popular com o comunismo e da ânsia por democracia capitalista. Os stalinistas, por outro lado, dizem que a revolta popular era uma “revolução colorida” promovida pela CIA e que sua supressão foi uma defesa do governo chinês para manter o socialismo. Nenhuma das duas teses é verdadeira.

O massacre foi apenas o clímax de uma história que vinha se desenrolando pelo menos desde 1978. Naquele ano, o governo chinês, já sob o controle de Deng Xiaoping, iniciou um processo conhecido como “reforma e abertura” – e que dura até hoje, para “modernizar o socialismo com características chinesas”, impulsionando o desenvolvimento econômico, na propaganda oficial do regime de Pequim. Na verdade, tratou-se de uma política contrarrevolucionária para o estabelecimento do capitalismo no país, em uma época em que o capitalismo, nos países atrasados, só poderia ser implantado por meio da política de choque neoliberal do imperialismo.

Assim, desde o início da década de 1980, a política econômica do governo deixou de lado qualquer sombra de socialismo e fez com que fossem abertas as primeiras regiões de experimentação do neoliberalismo no país, nas províncias costeiras. Seguiu-se a isso a desregulamentação dos salários e dos preços (ou seja, a diminuição da proteção salarial do governo aos trabalhadores e a alta dos preços dos produtos básicos), o fim da segurança do emprego, gerando muitos desempregados. Aumentou a desigualdade social.

Já em 1980, o então secretário-geral do Partido Comunista Chinês enviou um convite para Milton Friedman (um dos principais nomes do neoliberalismo, ideólogo da doutrina do choque e guru econômico de Pinochet) dar aulas sobre livre mercado aos centenas de funcionários públicos de alto escalão, economistas e professores do partido.

Três anos depois, Deng abriu a economia para investimentos estrangeiros e reduziu a proteção estatal aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, e prevendo que isso poderia desencadear um surto de greves e protestos como o que acabara de ocorrer na Polônia, o governo chinês criou a Polícia Armada, justamente para reprimir e evitar uma desestabilização vinda de baixo contra essa política contrarrevolucionária.

Em 1988, devido à pressão popular, o PCCh foi obrigado a voltar atrás em algumas medidas de desregulamentação de preços. Antigos burocratas já começavam a se tornar magnatas, se apossando de riquezas do Estado que antes administravam mas sem enriquecer. No mesmo ano, Friedman visitou Xangai: “os primeiros passos da China em direção à reforma foram muito bem-sucedidos. Novos progressos extraordinários podem ser feitos, por meio de uma confiança ainda maior nos livres mercados privados.”

O ideólogo do “fim da história”, Francis Fukuyama, um dos principais intelectuais do establishment norte-americano, elogiou e incentivou as reformas chinesas. O mesmo ocorreu com Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA e um dos principais estrategistas geopolíticos do imperialismo.

Finalmente, diante dos ataques desferidos pelo governo em parceria com o imperialismo, protestos começaram em abril de 1989 na Praça Tiananmen e se espalharam para outras cidades, com centenas de milhares de pessoas. Grande parte eram estudantes em greve, em uma onda de mobilizações que havia se iniciado no ano anterior.

Os manifestantes exigiam mais democracia, mas não a “democracia” liberal, uma vez que eram abertamente contra as medidas neoliberais do governo – o que é invertido pela propaganda imperialista desde aquela época, que diz que os manifestantes pediam uma abertura política no sentido de levar o capitalismo neoliberal à China.

Deng Xiaoping decidiu declarar lei marcial a partir de 20 de maio. Em 3 de junho, o governo emitiu ordem para o uso da força contra os manifestantes, o que foi seguido por um banho de sangue promovido pelos tanques do exército e pelos cassetetes dos soldados, principalmente na Praça da Paz Celestial, mas também por todo o país. Seguiu-se uma onda de repressão pós-massacre, particularmente contra operários.

Nos meses que se seguiram ao massacre, a doutrina do choque neoliberal foi ampliada, sem restrições, uma vez vencida a resistência popular. O Massacre da Praça da Paz Celestial foi o divisor de águas para a imposição do neoliberalismo na China. Nos anos 1990, foram expandidas as zonas econômicas especiais de livre comércio, as grandes multinacionais chegaram em peso à China, explorando sobremaneira e com total apoio do governo os milhões de operários que passaram a receber um salário de fome.

Os burocratas do Estado chinês, na prática, fizeram igual aos burocratas dos Estados Operários do Leste Europeu: realizaram a transição para o capitalismo e se mantiveram no poder, com a diferença de que os burocratas chineses permanecem até hoje no poder com as mesmas instituições do Estado, como o próprio partido comunista.

Um estudo de 2006 mostrou que 90% dos bilionários chineses são filhos de dirigentes do PCCh. Hoje, muitos altos dirigentes do partido são empresários e tantos outros são doutores e mestres que estudaram nos EUA, inclusive nas escolas de economia. O bilionário Jack Ma, um dos homens mais ricos do mundo (e que, em abril, defendeu a jornada de trabalho de 12 horas por seis dias na semana), é membro do partido comunista.