Entrevista
O historiador traça um perfil da obra contrarrevolucionária do ditador soviético; PCO ministrará curso sobre o stalinismo em janeiro e fevereiro
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Stálin, o grande organizador de derrotas, segundo Leon Trótski | Foto de Domínio Público

A partir do dia 5 de janeiro, o Partido da Causa Operária (PCO) irá realizar sua 46º Universidade de Férias. Desta vez, devido ao coronavírus, o curso será online. No entanto, não haverá transmissão pela Causa Operária TV. Aos companheiros que quiserem participar, basta se inscrever por um valor de R$ 100,00 no sítio da Universidade Marxista.

As aulas ocorrerão duas vezes por semana, em todas as semanas de janeiro e fevereiro. Serão mais de 40 horas de palestras, ministradas pelo companheiro Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO. Além disso, haverá material didático para auxiliar nos estudos, bem como conteúdo bibliográfico disponível para os inscritos.

O tema do curso será o stalinismo. Trata-se de algo que, embora tenha morrido junto com a União Soviética e o mal chamado “socialismo real” do Leste Europeu, tenta ser revivido por uma parcela da esquerda, apoiada pela burguesia. Ora, por quê? Primeiro, é uma tentativa vã. O stalinismo foi um fenômeno exclusivo da burocracia que tomou conta da URSS após a morte de Lênin e que desapareceu com a queda do Muro de Berlim, com o fim dessa burocracia. Segundo, porque uma parte da esquerda acredita que Stálin foi realmente um revolucionário. Nesse curso, Rui Costa Pimenta vai demonstrar que isso não passa da mais enganosa propaganda, montada pelo poderoso aparato de Moscou, que dominou grande parte do movimento operário no século XX.

Além disso, a burguesia utiliza o stalinismo como um espantalho para a população não acreditar na Revolução. Diz que o socialismo é o stalinismo. Nada mais longe da realidade. Pelo contrário: Stálin e seus sucessores aliaram-se com a burguesia imperialista mundial para sabotar todas as revoluções do século XX. As vitoriosas foram vitoriosas apesar do stalinismo. As fracassadas, fracassaram, em grande medida, devido à política stalinista. O stalinismo, de fato, foi uma política fracassada. Tanto é que ruiu como um castelo de cartas quando a crise se abateu pelo Leste Europeu. Justamente por isso a burguesia o utiliza, agora, “reinventado”, a fim de boicotar a nova tendência à ascensão do movimento operário brasileiro e internacional.

Por isso a importância do estudo e da compreensão do que foi o stalinismo por parte dos marxistas.

A fim de propiciar uma introdução ao curso da Universidade de Férias, o Diário Causa Operária vem publicando uma série de artigos a respeito do stalinismo. Faz parte dessa série a entrevista a seguir, com o historiador Mário Maestri*, que desfaz alguns dos mitos criados por Josef Stálin e pela camarilha stalinista.

Alguns neostalinistas ou filostalinistas dizem que a crítica trotskista a Stálin é moralista. Isso é certo?

Não há moral à margem da luta de classes. O ato moral faz avançar a história, o imoral, retrocedê-la. As ações criminosas de Stálin, do estalinismo e da burocracia são justificadas por pretensamente defenderem a URSS. Domenico Losurdo, o papa italiano do neostalinismo no Brasil, defende os crimes da burocracia porque o capitalismo teria feito pior. Denunciamos os atos do imperialismo e do stalinismo por terem contribuído à contrarrevolução, por razões diversas.

O massacre da geração bolchevique que fez a Revolução de 1917 e dos jovens bolcheviques-leninistas (trotskistas), formados na Guerra Civil (1919-21), favoreceu o assalto da burocracia ao comando da URSS, pondo fim ao exercício do poder pelos trabalhadores. A ação repressiva da burocracia pré-stalinista, estalinista e pós-estalinista ensejou o desfibramento político do proletariado soviético, afastado do exercício do poder que lhe cabia. Fortemente devido a isso, a URSS foi destruída praticamente sem a oposição dos trabalhadores.

São infindáveis os atos do estalinismo e da burocracia contra a revolução na URSS e mundial. A crítica trotskista a eles deve-se a terem contribuído à contrarrevolução e manutenção da ordem burguesa.

Stálin é tratado pelos neostalinistas ou filostalinistas como um “marxista ortodoxo”, anti-pequeno-burguês, política e ideologicamente rígido e disciplinado?

J. Stálin destruiu a ortodoxia marxista, a de Marx, Engels, Plekhânov, Rosa, Karl Liebknecht, Lênin, Trótski, para citar os principais grandes mestres. Escrachou o internacionalismo, pedra maestra do marxismo. Em 1943, liquidou seu órgão máximo, a Internacional Comunista, para cortejar o imperialismo.

Mário Maestri, 72 anos, é um historiador marxista do Rio Grande do Sul

J. Stálin negou a federação mundial dos países socialistas, a pluralidade dos partidos soviéticos, a mais ampla liberdade de discussão e organização nos partidos revolucionários. Negou o direito de governo dos estados revolucionários pelos órgãos soviéticos, o fundamento da construção do socialismo.

Ele era condescendente com as classes capitalistas, com quem pactuou e procurou conviver, e indiferente com a sorte da população soviética e mundial. Era um burocrata ávido de poder e de privilégios, que procurou soterrar a teoria e a ideologia marxistas, para manter a ordem que o sustentava. Era uma espécie de papa corrupto do Renascimento citando a Bíblia para justificar seu poder e crimes. Era, sobretudo, um burocrata, como a facção social que sempre representou.

A difusão do “stalinismo saudoso”, dos que sonham com o regime praticado na URSS em 1930-53, e do “neostalinismo”, dos que defendem um neonacionalismo capitalista, deve-se fortemente à enorme ignorância sobre a história e a política, alimentada com a leitura de ideólogos vulgares e terraplanistas como Ludo Martens, Domenico Losurdo, Grover Furr, etc.

Procedem as propostas que enalteceram Stálin pela industrialização da URSS e a derrota do nazismo?

J. Stálin apoderou-se do poder expressando uma facção social de centenas de milhares de burocratas. Ele era esperto, persistente, auto-centrado, vingativo. Culturalmente, era rústico e, intelectualmente, limitado. O pouco que escreveu hoje é ilegível, à exceção de O marxismo e o problema nacional, de 1913, redigido sob a asa de V. Lenin e N. Bukharin.

Na Estante Virtual impressiona os poucos livros do “Pai dos Povos”. Talvez exagerando, Trótski, escritor magistral, em seu magnífico A revolução traída (1936), dizia que Stálin não conseguia escrever um parágrafo corretamente. Um burocrata mais inteligente e culto teria feito no geral o mesmo que J. Stalin, mas talvez sem muitas de suas derrapagens imensas, devido às suas limitações.

Em fins de 1928, temendo a restauração capitalista, representada por N. Bukharin, seu ex-aliado, J. Stálin e a burocracia apoderaram-se do plano de industrialização e socialização da agricultura que L. Trótski começara a propor em 1923, em O novo curso. Os economistas da Oposição de Esquerda, sob a direção de E. Preobrajenski, autor da fabulosa Nova Economia, traduzida ao português, assassinado pelo stalinismo em 1937, propunham criar as pré-condições materiais necessárias e implementar aquelas iniciativas com medidas cuidadosas e graduais.

J. Stálin e a burocracia implementaram o programa da Oposição de Esquerda a facão. O desastre foi do tamanho da incompetência burocrática. A violência, a desorganização e a fome assolaram o país, em inícios dos anos 1930. Stálin e seus sicários responderam sufocando o incêndio que causaram com o massacre de milhões de soviéticos — Grande Terror (1934-38). Fizeram o certo, em forma terrivelmente errada, com resultados pífios, em relação aos possíveis de serem alcançados. É a partir dos anos 1930 que a burocracia engendra o stalinismo.

A II Guerra Mundial foi ganha pelos trabalhadores e trabalhadoras soviéticos galvanizados e armados pelo impulso social e material permitido pela Revolução de 1917. Porém, a URSS perdeu, sem necessidade, uns 20, dos seus 110 milhões de habitantes. Perdas terríveis e desnecessárias devidas à burocracia e muito especialmente a J. Stálin.

O stalinismo entregou a Alemanha ao nazismo, em 1933, ao definir, não os nazistas, mas os trabalhadores sociais-democratas como inimigos dos comunistas. Em agosto de 1939, acertou o tratado de não-agressão e a divisão da Polônia com Hitler, abrindo as portas à guerra mundial. E, para destruir a memória revolucionária, em 1937, eliminou a nata da oficialidade do Exército Vermelho, formada sobretudo quando da Guerra Civil. Uns 40 mil oficiais foram presos e 15 mil assassinados! Stálin matou mais generais soviéticos que os nazistas em toda a guerra, lembra o historiador Jean-Jacques Marie, em seu excelente Stalin.

Em 22 de junho de 1941, confiando cegamente em Hitler, demorou-se para ordenar a resposta à invasão nazista da URSS, acreditando que era provocação de generais nazistas que queriam forçar à guerra com a URSS. Stálin desprezou os avisos dos ingleses, de diplomata alemão anti-nazista, de seus espiões no Japão e Europa e talvez oitenta outros avisos sobre o deslocamento monstruoso de tropas nazistas e a própria data da Operação Barbarossa. Sequer mobilizou as tropas soviéticas. Milhões de vidas soviéticas foram perdidas devido à dizimação do Exército Vermelho, em 1937, e ao ato de incompetência de Stalin, em 1941, talvez um dos maiores da história militar.

Como você enxerga as desculpas que os seguidores de Stálin encontram para justificar as traições à revolução, a política do socialismo em um só país, a aliança com Hitler?

O pacto de não-agressão e a divisão da Polônia são explicados como necessários para preparar a URSS à guerra. Se isso é verdade, para que dizimar o Exército Vermelho e por que o desastre de 1941? É provável que Stálin e a burocracia esperassem conviver com a Alemanha vitoriosa sobre a Europa.

O “socialismo em um só país” era decorrência necessária da ordem burocrática que almejava a impossível convivência pacífica com os estados imperialistas, para gozar e ampliar seu privilégios. O avanço da revolução mundial favoreceria a retomada política dos trabalhadores soviéticos e a derrubada da burocracia através da revolução política.

Os bolcheviques negaram a construir o socialismo em uma nação e empreenderam a União das República Socialistas Soviéticas, com dezessete repúblicas, parte da União das Repúblicas Socialistas Europeias e, a seguir Mundial, defendidas pela III Internacional, imprescindíveis para a liquidação do capitalismo.

A organização internacional dos Estados operários, após a II Guerra, assentaria golpes mortais econômicos, políticos e militares no mundo capitalista. Foi o capitalismo que levou mais longe com a globalização a internacionalização da produção proposta pelo marxismo. As múltiplas economias autônomas dos Estados Operários foram fortemente responsáveis pela vitória da contrarrevolução em 1989-91.

Stálin (esquerda) junto com Harry Truman (centro) e Winston Churchill (direita), na Conferência de Potsdam, que organizou a criminosa divisão da Alemanha

Os stalinistas acusam Khrushchev de ser um traidor e revisionista da “grande obra” de Stálin e que, com ele, o Estado soviético teria começado a se degenerar.

A desestalinização relativa e controlada, após a morte de J. Stálin, em 1953, nasceu das condições insustentáveis na sociedade soviética. Ou se descomprimia, ou explodia. A burocracia desejava também distensão que pusesse fim à situação permanente de sobressalto imposta por Stálin. Os mais altos burocratas temiam que não fosse o leiteiro a bater na porta pela manhã… As reformas implementadas, primeiro por G. Malenkov, a seguir por N. Khrushchev, deram-se sem maiores rupturas no aparato stalinista na organização e relações sociais da produção.

Você escreveu que antes de 1991, o stalinismo “fora leão de garras e dentes afiados. A seguir, o ‘estalinismo nostálgico’ passou a ser cachorrinho que rosnava mostrando os dentes de papel machê”. Como era a atuação dos stalinistas brasileiros da velha guarda no movimento sindical e estudantil?

Sobretudo na era stalinista (1930-1953), o prestígio da URSS entre os trabalhadores e os aparatos dos partidos comunistas pró-Kremlin foram aproveitados para golpearem internacionalistas, sobretudo trotskistas. L. Trótski foi um entre os milhares de trotskistas assassinados fora da URSS. História ainda por escrever em seus detalhes. Em Domenico Losurdo: um farsante no País dos Papagaios (Estante dos Livros), publico recordação de companheiro grego radicado no Brasil mandado fuzilar trotskistas, quando jovem combatente em milícia stalinista na guerra civil naquele país. No Brasil foi menos violento. O PCB jamais foi partido de massa; durante a ditadura Vargas (1937-45) quase desapareceu; e os trotskistas eram, naquela época, poucos.

Você vê relação entre o stalinismo e o identitarismo?

A destruição da URSS e das “Democracias Operárias” (1989-91) inaugurou a Era Contrarrevolucionária que vivemos até hoje. A consequência mais terrível desse drama histórico foi a crise de subjetividade dos trabalhadores, que encontram dificuldade em confiarem em suas forças e programas.

Com a fragilidade do mundo do trabalho, as classes médias avançam seus programas, como se fossem de toda a sociedade. O identitarismo é expressão da ideologia e subjetivismo pequeno-burguês. É fenômeno muito forte nos EUA e na Europa que avança em forma avassaladora no Brasil, sob o silêncio e o apoio de enorme parte das organizações que se dizem marxistas.

Diferencio o “estalinismo saudoso”, daqueles que sonham com a volta dos anos “dourados” de J. Stálin, do “neo-stalinismo”, defendido por Domenico Losurdo, Jones Manoel (PCB), João Quartim de Moraes (PCdoB) e tantos outros. Este último surge com a constituição da China e da Rússia como grandes nações capitalistas, propostas como inspiração para a esquerda brasileira.

No passado, o stalinismo se apoiava no poder da burocracia na URSS. Hoje, o neostalinismo tende a se apoiar nos interesses e no Estado da Rússia e China capitalistas. Flavio Dino, do PCdoB, no Maranhão, é um forte defensor do grande capital chinês, mesmo contra o interesse dos maranhenses.

No contexto do recuo da centralidade do mundo do trabalho, o neostalinismo anda de braços com o identitarismo, já que são, ambos, expressões da ideologia pró-burguesa, fortemente apoiadas pelo capital.

* Mário Maestri, 72, rio-grandense, historiador, marxista-revolucionário, foi refugiado político no Chile, quando da Unidad Popular, e na Bélgica. É autor, entre outros livros, de Revolução e contra-revolução no Brasil: 1530-2019. 2 ed.

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