Entrevista
Com a candidatura rejeitada pelo TRE, Marinaldo falou sobre o cenário caótico com o apagão, a ditadura que se seguiu e a apatia da esquerda em apoiar as revoltas populares
Marinaldo
Filiado do Partido acompanhou a situação explosiva na capital do Amapá | Foto: Arquivlo
Marinaldo
Filiado do Partido acompanhou a situação explosiva na capital do Amapá | Foto: Arquivlo

Filiado ao partido no Amapá fala ao Diário Causa Operária sobre a crise no Estado, o Apagão, a brutal repressão que se sucedeu aos protestos e sobre as eleições farsescas realizadas em seguida da crise.

Diário Causa Operária: Nas últimas semanas, o Amapá ganhou um destaque enorme na imprensa nacional em função do apagão e dos confrontos entre a população e o poder público. Como foi viver no estado em meio a uma crise tão profunda?

Marinaldo: Esse período em que passamos sem energia tiveram 5 dias sem absolutamente nenhuma energia elétrica, sem comunicação, sem água potável, tendo que buscar água na rua, o comércio fechado, supermercados com geradores sobrecarregados, funcionando em horários limitados. Após esses 5 dias, tivemos um racionamento: num primeiro momento 6 horas com energia e 6 horas sem, depois alternando em 3 horas com e 3 horas sem.

Após quase 26 dias, a eletricidade foi parcialmente reestabelecida, principalmente aqui em Macapá e na região metropolitana. Ainda hoje, não tivemos o pleno reestabelecimento da energia no estado, convivemos com muita instabilidade, quedas constantes de modo que não temos o serviço 100% funcional até o momento.

Ainda, tivemos agora a conta da energia, que veio muito alta. Sempre foi cara mas chegou a aumentar entre 100% a 200%. O governo federal isentou a população de pagar a tarifa durante o período do apagão mas o serviço já era caro e precário, ficou ainda pior.

Em meio a todo esse cenário, a população revoltou-se, com protestos violentamente reprimidos pela polícia. O governador (Waldez Góes, do PDT) não queria manifestações para não atrapalhar a candidatura de Josiel Alcolumbre (DEM), irmão do presidente do Senado Federal, David Alcolumbre (DEM).

O próprio David Alcolumbre chegou a declarar que o principal prejudicado pela crise no Amapá fora o irmão, como se o povo amapaense não tivesse sofrido prejuízo algum.

DCO: Emblemático do desprezo da burguesia pela população…

Marinaldo: Exatamente!

DCO: A resposta da população, como você colocou e as imagens das manifestações de rua mostravam, apontavam para uma radicalidade por parte do povo e uma violência por parte da repressão muito grande, uma convulsão social enorme. Era isso mesmo?

Marinaldo: Era isso sim. A energia não foi reestabelecida 100% no estado, ficando restrita aos principais centros do comércio varejista. Em muitas localidades, a população passou 30 dias sem eletricidade. Justamente nesses locais, mais periféricos, a revolta popular foi muito grande, enfrentando por outro lado, uma repressão extremamente brutal, a ponto de crianças terem perdido a visão após serem atingidas por balas de borracha.

O governador é do PDT mas politicamente é muito mais próximo do bolsonarismo. Sua medida diante do caos foi proibir manifestações, liberando a polícia para reprimir com a máxima violência os atos públicos da população, que já sofrem com a fome e diversas privações, ignorando as necessidades do povo.

As eleições também foram adiadas numa manobra claramente realizada para beneficiar o principal candidato das oligarquias locais, justamente Josiel Alcolumbre. Vale lembrar que o adiamento só ocorreu em Macapá. Todas as outras cidades do Amapá tiveram eleições normalmente, mesmo com o apagão.

DCO: No meio desse cenário caótico, como você avalia a posição dos candidatos da esquerda em meio à crise?

Marinaldo: Aqui no Amapá a gente só vê a direita avançar, a esquerda está muito letárgica. O PcdoB praticamente nem existe mais e os demais partidos, PSOL, PT e PSTU não quiseram fazer nenhuma manifestação, com medo das leis ditatoriais impostas pelo governador. A primeira coisa que eles alegam ao ser convidados para uma mobilização é o medo de ser preso por causa dos decretos do governo estadual.

A CUT chegou a fazer uma carreata em protesto contra o apagão mas sem o devido trabalho de convocação, o ato acabou esvaziado, cerca de 15 carros nas ruas apenas.

Sabemos que a esquerda não tem recursos como a direita mas se a esquerda saísse da defensiva e demonstrasse mais iniciativa, as coisas poderiam melhorar.

DCO: Você foi candidato nas eleições de 2020?

Marinaldo: Deveria ter sido. Estou filiado desde 2018 mas curiosamente, o TRE não reconheceu minha filiação, de modo que não pude me candidatar ao cargo de vereador, que estava proposto inicialmente, devido às restrições burocráticas da justiça.

DCO: Por um lado Macapá estava imersa em caos, por outro a esquerda ficou apática, sequer fez campanha de rua. Você vê relação entre isso e o resultado das eleições?

Marinaldo: Com o apagão, o Josiel Alcolumbre ficou prejudicado, especialmente após a declaração grotesca de seu irmão. Na sequência disto, tivemos o decreto municipal proibindo qualquer tipo de manifestação (o prefeito de Macapá é o ex-PSOL e ex-PT Clécio Luís, atualmente no REDE). Não era permitido comício, nem carreata, nem panfletagem e absolutamente nenhuma atividade política. Claro que a direita fez tudo isso mas às escondidas, pois tudo estava proibido.

A população ocupou ruas, queimou pneus, protestou contra o apagão, protestou contra as tarifas de energia elétrica e quem acabou liderando o resultado no primeiro turno foi justamente o Josias Alcolumbre, o maior representante do descaso do governo contra o povo. Uma situação verdadeiramente contraditória, que só pode ser explicada com a campanha milionária do candidato do DEM.

Relacionadas
Send this to a friend