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Cinema nacional

Marighella: repressão na ditadura e luta contra o imperialismo

Apesar das limitações, o filme é bastante importante no cinema nacional e é positivo ao divulgar a figura do revolucionário Carlos Marighella

Wagner Moura dirige Seu Jorge no set de ‘Marighella’ – Foto: Paris/O2

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“Marighella”, filme de estreia do ator Wagner Moura na direção de um longa-metragem, retrata a vida do dirigente comunista Carlos Marighella (Seu Jorge) e sua luta armada contra a ditadura militar. É um filme que, além de abordar um tema político, ultrapassou os limites impostos pelas telas para tratar do assunto.

Ataques da direita

Primeiro, porque imediatamente após ser anunciado, foi alvo de intensos ataques da extrema-direita, que acusou Moura de realizar “falsificação histórica” ao utilizar o negríssimo Seu Jorge como intérprete do mulato Marighella. A burguesia se juntou ao coro fascista e apresentou um Marighella branco, quase suíço, ao contrário dos fatos.

Foi uma tentativa da direita de tirar do povo negro brasileiro mais um herói. Mas, além disso, uma falsificação que nem mesmo a burguesia seguia na época em que o revolucionário estava vivo. No livro “A marcha vermelha”, de 1948, Davino Francisco dos Santos se refere a Marighella, em tom racista, como “negroide”. Quando deputado pelo PCB, em 1947, o comunista retrucou o deputado direitista Altamirando Requião, que reagiu: “Não permito que elementos de cor, como V. Ex.ª, se intrometam no meu discurso”.

Não por nada, em seu rap “Mil Faces de Um Homem”, que consta na trilha sonora do filme, Mano Brown se refere a Marighella como “bandido da minha cor” e “super-herói mulato”. O aspecto negro de Marighella buscou ser destacado por Moura, que usou Seu Jorge justamente por este motivo. No Brasil, o filme iria ser lançado em 20 de novembro de 2019, dia de luta do povo negro, o que nos leva a outro aspecto político que ultrapassa as telas.

Censura golpista

Por retratar a luta contra a ditadura militar, o governo do fascista Jair Bolsonaro, tutelado pelos atuais militares brasileiros, herdeiros do regime de 1964, buscou censurar o filme. A produtora O2 Filmes, ainda em 2019, buscou verbas para reprodução do filme junto à estatal Agência Nacional do Cinema (Ancine). O pedido foi vetado por motivos políticos, contrariando a norma que era feita em geral.

Por isso, apesar da produção brasileira estar pronta desde 2019, o filme circulou primeiro fora de seu país de origem, estreando em festivais na Europa. Em maio de 2021, ainda não foi lançado no Brasil e o povo brasileiro só teve acesso ao longa-metragem após o seu vazamento, na sequência da sua estreia nos Estados Unidos.

O filme

Indo para o filme, é importante destacar que se trata de uma produção importante para o atual momento político. A obra homenageia um dirigente comunista que lutou contra a ditadura de 1964 num momento em que o Brasil vive um golpe de Estado que levou a um  governo controlado pelos militares.

O filme resgata a figura de um dos principais revolucionários brasileiros – independentemente do limitado e confuso programa guerrilheiro – e assim dá força à ideia de que é possível e necessário se mobilizar contra os atuais golpistas brasileiros. Para contextualizar, a ALN, chefiada por Marighella, era a principal organização da luta contra a ditadura e surgiu como um racha no PCB após a inação do partido diante do golpe militar. Essa situação, inclusive, é bem retratada no filme de Moura. “Ninguém fez nada quando tinha que fazer”, critica o revolucionário em uma das cenas iniciais.

O filme mostra a participação da classe operária, de estudantes e de setores de base da Igreja Católica na organização e denuncia o clima conservador que existia dentro do PCB, que via a ação da ALN como “aventura”. Numa conversa de Marighella com Clara (Adriana Esteves), por exemplo, sua companheira lhe diz para não aderir à luta armada. “Você tem filho, tem a mim”, diz a mulher ao tentar demovê-lo da ideia de partir para a luta guerrilheira, retratada no filme nas cenas de assalto a bancos e trens, enfrentamentos com a polícia, entre outras coisas.

Mas o filme exalta a abnegação e o sacrifício pessoal em prol da luta coletiva, da soberania do Brasil contra os Estados Unidos. O que remete a outro tema. Numa clara comparação ao golpe de 2016 no Brasil, o filme mostra a participação ativa do imperialismo norte-americano no golpe militar de 1964. Também, comparando o momento à situação atual do Brasil, os letreiros iniciais do filme registram que, além do apoio dos EUA, a ofensiva golpista da direita se deu por meio da propaganda “contra a corrupção” e contra a “ameaça comunista”, ao estilo da campanha que ocorreu para derrubar o governo do PT.

Além dos agentes de repressão brasileiros, o longa dá aos norte-americanos o papel de vilão que merecem, mostrando a liderança deles, não só sobre o governo militar, como também na orientação da repressão contra os opositores. 

Justamente, o filme mostra o momento do auge da repressão militar. Mostra torturas de uma forma bem brutal e um clima de repressão intensa. “Não dá para ficar circulando por aí”, diz o militante comunista Branco (representação do dirigente Joaquim Câmara Ferreira, interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos) a Marighella, que tomava banho de praia com seu filho em uma das cenas iniciais.

A produção revela a política fascista do Estado capitalista, que age como uma máquina assassina contra a população. Cenas chocantes de tortura dão um apelo emocional contra a repressão, que é personalizada na figura do delegado Lúcio (Bruno Gagliasso), representação do delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury. Lúcio é o protagonista da repressão e o filme mostra os métodos aos quais ele recorreu, como a delação à base da tortura e falsificação de provas.

Os problemas e limitações do filme

Entretanto, o filme também tem alguns aspectos problemáticos. “Marighella” deixa de lado o comunismo, e apresenta um Marighella essencialmente nacionalista, “brasileiro”, como ele mesmo declara em entrevista a um jornalista francês. Nas cenas finais do longa, os militantes da ALN aparecem cantando uma versão “esquerdista” do hino nacional, numa política que se assemelha à atual tentativa da esquerda de se apropriar das cores nacionais, símbolos da extrema-direita bolsonarista e do golpismo.

Ao terminar de assistir ao filme, a impressão que fica é que a figura de Mariguella, enquanto dirigente, organizador e militante político, ganhou pouco espaço e, ao fim e ao cabo, ficou relativamente esvaziada. É certo que o diretor Wagner Moura falou em mais de uma ocasião que procuraria destacar no filme aspectos pouco conhecidos ou menos comentados do revolucionário, como o seu caráter bem-humorado e o seu gosto pela poesia. O filme, de certa maneira, pagou o preço por essa escolha que, ela também, não conseguiu ser levada adiante com pleno sucesso. 

A relação com o filho, a relação com Branco, a relação com os demais militantes do seu círculo na ALN, a relação com sua companheira, tudo isso aparece no filme, mas não há grandes desenvolvimentos e tais elementos aparecem como que soltos, jogados na tela. A explicação para isso está no fato de que o filme pouco explora e desenvolve a figura de Mariguella do ponto de vista político. 

Dissolvida num “nacionalismo” aguado, a ideologia política do revolucionário ganha um aspecto bastante secundário no filme, de maneira que as ações da personagem central e de sua organização ocorrem sem que o público tenha acesso a uma justificativa ou ao motivo do porquê as pessoas fazem o que fazem. E é justamente o pouco desenvolvimento político do Mariguella de Wagner Moura que não permite que as demais facetas da sua vida e personalidade apareçam na tela na sua inteireza. Abordar a vida de um revolucionário, de um dirigente político da esquerda que pegou em armas para combater um regime ditatorial, sem colocar no centro da obra o sentido, o significado e o programa político de sua ação, implica a mutilação ou esvaziamento daquilo que é mais essencial para caracterizar e dar forma à figura que busca ser representada. O filme, sem dúvida, deixa a desejar nesse ponto.  

Não é por outro motivo que não consegue atingir o que foi feito em “Judas e o Messias Negro”, que destacou o líder revolucionário negro Fred Hampton como ativo lutador, propagandista, organizador e agitador. Esse destaque gerou uma certa decepção no público que buscava um filme mais focado na mobilização popular, uma vez que a ALN, que tinha milhares de militantes, é retratada apenas num pequeno círculo de revolucionários.

Ao fim, apesar das limitações, o filme é bastante importante no cinema nacional e é positivo ao divulgar a figura de Carlos Marighella. O momento de lançamento do filme, em pleno governo de Bolsonaro e militares, dá ainda mais importância para a produção.

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