Mentir com números.
O uso de falsas pesquisas e a manipulação de dados é um recurso recorrente para manipular a opinião pública e tentar melhorar expectativas nos trabalhadores.
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Rus 25 de Março, São Paulo. Foto: Paulo Pinto/FotosPublicas |

“As vendas nos shopping centers brasileiros no Natal de 2019 foram 9,5% maiores do que no ano passado, segundo dados da Alshop, associação dos lojistas desses centros comerciais, compilados junto com o instituto de pesquisas Ibope. Os dados não consideram a inflação no período.”

 

Isso foi publicado e divulgado aos quatro ventos pelos apoiadores do governo de extrema-direita, em harmonia com a propaganda pesada da imprensa burguesa e da máquina governamental para fixar a ideia de que a economia vai bem, de que o Brasil está ‘no caminho certo’, de que vivemos um momento de ouro para o crescimento do país.

O problema é que sequer a pesquisa existe e muito menos o Ibope participou de compilação alguma de dados (inexistentes).

Isso lembra um livro, que se tornou um ‘clássico’, publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1954, que continua atual, quer seja por seu título, quer seja pelos exemplos que o autor usa para demonstrar o uso deliberado de ‘números’ para manipular a opinião pública: “Como mentir com estatística”, de Darrell Huff.

No caso acima, sobre melhora nas vendas no período de Natal, demorou pouco para que fosse desmentida a falsa pesquisa. Outra associação, desta vez de uma associação de lojistas de shopping [Associação Brasileira dos Lojistas Satélites – Ablos], em que  denunciam a manipulação de dados. Se a falsa pesquisa mostra um crescimento, a pesquisa da Ablos, ao contrário, indica que a maioria absoluta dos lojistas teve queda de vendas, enquanto os poucos que tiveram alta de vendas alcançaram no máximo 2,5% em relação ao ano passado que, por sua vez, já tinha sido um ano ruim.

Mas esse é apenas um exemplo que logo foi desmascarado, há outros que não são questionados ou que são usados de maneira sorrateira pela imprensa burguesa, em consonância com orientações do ‘mercado’ e ou do governo, para amenizar a falta de expectativa ou as expectativas negativas que os trabalhadores têm do futuro.

Podemos ver como se tem maquiado os números do desemprego e romantizado a precarização dos empregos informais. Elimina-se da conta aqueles que supostamente não estariam mais procurando emprego porque não têm expectativa de conseguir um, os empregos informais são reclassificados como ‘autoemprego’, ‘trabalho por conta própria’, ‘negócio próprio’, ‘empreendedorismo’, ao mesmo tempo ocultam ou invisibilizam o fim de garantias e direitos trabalhistas, aplaude-se o fim da proteção ao trabalhador.

Os números, que ainda podem ser subestimados, indicam uma realidade muito ruim: a totalidade do trabalho informal, captados em 2017, foi composta por 5 setores: 

1) Trabalhadores empregados sem carteira assinada (36,1%); 

2) Trabalhadores por conta própria e não contribuintes da previdência social (43,2%); 

3) Trabalhadoras domésticas sem carteira assinada (11,6%); 

4)Trabalhadores auxiliares de negócios familiares (6%); e

5) patrões que não contribuem à previdência social (3%). 

Com isso, ainda em setembro de 2019, já tínhamos registrado um recorde de 38,6 milhões de brasileiros trabalhando na informalidade, enquanto os desempregados ultrapassam o número de 13 milhões de pessoas.

Com esse contingente enorme de trabalhadores precários, com aumento no preço dos alimentos, com aumento nos combustíveis, com aumento do gás, com redução do acesso a medicamentos (antes gratuitos ou de baixo custo), com o aumento do desemprego, com o aumento registrado na desigualdade, com redução absurda de investimentos, da assistência social, dos programas sociais como o Bolsa Família, como seria possível ter havido um aumento nas vendas de Natal?, mesmo que considerando a classe média que, mesmo em menor medida, também foi afetada pela política de empobrecimento que desde o governo Temer a direita vem executando impiedosamente.

A falsificação e manipulação de dados é recurso típico da direita golpista, visa a falsificar pesquisas e seus resultados para esconder o quão mal está a situação dos trabalhadores, situação que tende ir de mal a pior. 

Essas manobras, com a ajuda da imprensa burguesa, objetiva dar fôlego para a direita que procura a cada dia uma nova estratégia para evitar a mobilização dos trabalhadores e da sociedade em geral, ao tempo em que esconde não terem soluções para a crise, seja política ou econômica, ou, sabendo que a solução contraria seus interesses, desvia o olhar e ridiculariza as críticas.

As soluções, as únicas que podem nos tirar do buraco que a direita e a extrema-direita nos meteram, passam necessariamente pelo Fora Bolsonaro. Enquanto a esquerda continuar servindo de amortecedor para a direita, enquanto replicar o discurso de que temos que suportar o governo da fraude de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, a situação tende a piorar e pode acontecer no Brasil o mesmo que em outros lugares da América Latina: a população, os trabalhadores, vão reagir sem os partidos, até mesmo contra ou apesar deles, inclusive da esquerda.

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