Dada e surrealismo
Man Ray foi um dos pioneiros no uso da fotografia como forma de arte. Foi um artista múltiplo, com obras em pintura e escultura, alem de cineasta.
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O fotógrafo, pintor e cineasta Man Ray em Colonia, Alemanha, 1966 | Foto: Reprodução DPA/Picture Alliance

Fotógrafo, pintor, cineasta, escultor, o visionário May Ray foi um dos maiores artistas visuais do início do século XX e um dos expoentes dos movimentos Dada e surrealista.

Durante sua carreira artística Man Ray não permitia que detalhes sobre sua vida pessoal ou os antecedentes de sua família fossem conhecidos pelo público. Ele se recusou até mesmo a admitir que tinha outro nome que não fosse Man Ray.

Ele nasceu com o nome de Emmanuel Radnitzky em 27 de agosto de 1890 na cidade de Filadélfia, no estado da Pensilvânia, Estados Unidos. Veio de uma família de imigrantes russos judeus. Era o filho mais velho de Max, alfaiate e de Minnie Radnitzky. Em 1897 mudam-se para Williamsburg, na vizinhança do Brooklyn, em Nova York.

No início de 1912 a família Radnitzky mudou de nome para Ray. O motivo foi para fugir da discriminação causada pelo antissemitismo, muito arraigado no povo americano da época. Emmanuel tinha o apelido de “Manny”. Desse modo Emmanuel Radnitzky acabou se tornando Man Ray.

O pai de May trabalhava em uma fábrica de tecidos e também tinha uma pequena alfaiataria, onde todos os filhos também ajudavam. A mãe de Ray costumava desenhar as roupas da família e criava trabalhos de patchwork com os retalhos de tecido. Este passado trabalhando com roupas deixou sua marca em Man Ray. Manequins, ferros de passar roupa, tecidos, máquinas de costura, agulhas e outros itens apareceriam em vários de seus trabalhos futuros.

Desde pequeno Man Ray sempre demonstrou um grande interesse pela arte. Estudou de 1904 a 1909 na Boys’ High School, uma prestigiada escola no Brooklyn, que lhe trouxe um sólido conhecimento de desenho técnico e de técnicas de ilustração. Nesse período costumava visitar museus para estudar o trabalho dos mestres. Após sua formação foi-lhe oferecido uma bolsa para estudar arquitetura, mas ele recusou para seguir uma carreira como artista. Nesse sentido trabalhou fazendo ilustrações técnicas para várias companhias em Manhattan.

Início da carreira

Os trabalhos de Man Ray neste começo de carreira mostram seu trabalho em pintura e desenhos ainda com a influência dos artistas realistas do século XIX. Ele já conhecia e admirava o trabalho dos artistas europeus modernistas que ele conheceu na Galeria 291, do fotógrafo Alfred Stieglitz e os trabalhos da Escola de Ashcan, o movimento artístico de artistas americanos que retratava cenas do cotidiano da cidade de Nova York, geralmente nos bairros mais pobres, mas não havia ainda introduzido estes elementos mais modernos em seu trabalho.

A Galeria 291, localizada na cidade de Nova York, era um dos locais que mais davam visibilidade aos artistas de vanguarda americanos. Suas exposições ajudaram a elevar o status da fotografia ao mesmo nível da pintura e da escultura. Lá, o fotógrafo Alfred Stieglitz apresentou aos americanos o trabalho de artistas europeus de vanguarda como Pablo Picasso, Henri Rousseau, Paul Cézanne, Henri Matisse, Auguste Rodin, Francis Picabia e Marcel Duchamp.

Em 1912 Man Ray vai estudar por um ano no Ferrer Center, um centro social organizado em memória do pedagogo anarquista Francisco Ferrer, um local que tinha uma orientação libertária e que enfatizava um ensino não dogmático. A política radical do centro o tornou um polo de atração de anticapitalistas, revolucionários e anarquistas. Lá se discutiam o livre pensamento, religião, sexo e mesmo o controle da natalidade, temas tabus na época. Este período na Ferrer School acelerou o desenvolvimento artístico de Man Ray. Em 1913 conheceu sua primeira esposa, a poetisa belga Adon Lacroix, com que se casaria em 1914. Eles se separaram em 1919.

A Exposição Internacional de Arte Moderna (The Armory Show) de 1917, foi um dos mais importantes eventos de arte já realizados nos Estados Unidos. Foi o responsável por apresentar trabalhos de artistas americanos e europeus, dentre eles Marcel Duchamp, Picasso, Cézanne, Georges Braque, Wassily Kandinsky e Claude Monet e clássicos como Toulouse-Lautrec e Edgar Degas. A peça que mais chamou a atenção do público foi “Nu Descendo Uma Escada”, de Marcel Duchamp, que expressava movimento com uma sucessão de imagens sobrepostas, uma obra que trazia novos elementos ao movimento cubista.

O Armory Show foi um estrondoso sucesso. Neste evento May Ray se torna amigo de Marcel Duchamp e começa a produzir peças com influências do cubismo. Em 1918 produz suas primeiras fotografias de destaque, depois de utilizar a câmara fotográfica inicialmente apenas para documentar o seu trabalho em pintura e desenho. Sobre a fotografia Ray declarou: “estou finalmente livre do pegajoso método da pintura e estou trabalhando diretamente com a luz.” Ele chamou o seu método de manipulação de fotografias de “rayographs”, um trocadilho com o seu próprio nome.

O trio de Man Ray, Duchamp e Francis Picabia se torna o núcleo do Dada nos Estados Unidos. Em 1921 todos eles se mudariam para Paris.

Em Paris

Man Ray iria abandonar completamente a arte mais convencional para se envolver com o Dada, um movimento radical anti-arte. Os artistas do Dada rejeitavam a lógica, a razão e estética da sociedade capitalista, expressando-se pelo nonsense, pela irracionalidade e pelo protesto antiburguês. O movimento abarcou os meios visuais, literários e sonoros, incluindo a escultura, a colagem, poesia do som e escrita recortada, uma técnica literária onde um texto é cortado e rearranjado para criar uma nova obra.

Sob a influência de Marcel Duchamp Man Ray também produziu os chamados readymades, objetos ordinários que adquiriam novos significados através de modificações e tornando-os objetos de arte. Existia um claro propósito de chocar o espectador, fazendo-o repensar o contexto de arte. Um dos readymades de Man Ray foi “Enigma de Isidore Ducasse”, um objeto (uma máquina de costura) embrulhado em pano e amarrado com uma corda. Mas o mais famoso readymade de Man Ray foi “The Gift”, que apresentou um ferro de passar roupas, inteiramente feito de metal, com uma série de 14 pregos colados em sua superfície. Foi criado em 1921 no dia de sua primeira exposição em Paris. Foi roubado no mesmo dia da abertura da exposição. Este readymade acabou se tornando o símbolo da sede do PCO, o Centro Cultural Benjamin Perét.

“Object To Be Destroyed” (objeto para ser destruído) foi um readymade criado por Man Ray em 1923. Consistia em um metrônomo com a imagem de um olho colado em seu pêndulo. Segundo Ray a peça foi criada para servir como uma testemunha silenciosa em seu estúdio enquanto ele pintava. Em 1932, no ano em que Lee Miller, a amante de Ray, o deixou para voltar a Nova York, ele criou uma segunda versão da peça, chamada “Object Of Destruction” (objeto de destruição), que foi publicada no jornal de vanguarda This Quarter, editada por André Breton. Esta segunda versão veio com um desenho acompanhado das seguintes instruções:

“Corte um olho de uma fotografia de alguém que você amou, mas não vê mais. Grude o olho no pêndulo do metrônomo e regule o peso para o ritmo desejado. Vá até o seu limite. Com um martelo tente destruir tudo com um único golpe”.

Enquanto estava em exposição em Paris em 1957 um grupo de estudantes que protestavam, liderado pelo poeta francês Jean-Pierre Rosnay, seguiu a sugestão de Ray e realmente destruiu o objeto.

A ligação de Man Ray com Marcel Duchamp rendeu muitas obras. Em 1920 ele ajudou Duchamp a realizar sua obra “Rotary Glass Plates”, um dos primeiros exemplos da arte cinética. Era composta por placas de vidro acionadas por um motor. Quando ligado produzia estranhos efeitos óticos. Naquele ano Man Ray, Katherine Dreier e Duchamp fundaram a Société Anonyme (Sociedade Anônima), um órgão que organizava concertos, leituras, palestras e exibições de arte moderna. Foi importante por dar visibilidade a artistas como Alexander Archipenko, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Jacques Villon e muitos outros.

Em 1921 Man Ray produziu uma série de fotos de Duchamp em seu personagem Rrose Sélavy. O nome é um trocadilho com a frase “Eros, c’est la vie” (Eros, é a vida). Duchamp aparece travestido de mulher.

Em Paris May Ray conheceu e se apaixonou por Kiki de Montparnasse (Alice Prin), modelo e figura conhecida nos círculos boêmios da cidade. Ela se tornou o tema de várias imagens fotográficas célebres de Ray e também aparece nos filmes experimentais “Le Retour à la Raison” (1923) e “L’Étoile de Mer” (1928).

Outros filmes dirigidos por Ray são “Emak-Bakia” (1923) e “Les Mystères du Château de Dé” (1929). Ray também colaborou nos filmes de Duchamp “Anemic Cinema” (1926) e Fernando Léger “Ballet Mécanique” (1924). No filme de René Clair, “Entr’acte” Man pode ser visto em uma cena jogando xadrez com Marcel Duchamp. Todos esses filmes podem ser vistos no YouTube.

Estes filmes de Man Ray se alinham com o movimento chamado “Cinéma Pur” (ou cinema puro), que reúne cineastas franceses que visavam trazer o cinema a seus elementos de origem, ou seja, visão e movimento. O grupo declara o cinema uma forma de arte independente que não precisa de ligações com a literatura ou o teatro. Desse modo o cinema puro é composto por filmes sem história, sem personagens, e que expressam experiências emocionais abstratas através de técnicas cinematográficas como close-ups, slow motion, imagem em split screen, stop-motion, etc.

Em Paris Man Ray se torna um fotógrafo pioneiro do período entre guerras. Vários artistas posaram para ele como Pablo Picasso, Salvador Dali, James Joyce, Tristan Tzara, Gertrude Stein, Jean Cocteau e Antonin Artaud.

Com o início da Segunda Guerra Mundial Man Ray se viu obrigado a voltar aos Estados Unidos. Ele viveu em Los Angeles de 1940 a 1951 onde direcionou sua energia criativa para a pintura. Voltou a Paris em 1951 onde revisitou várias de suas obras mais notáveis, supervisionando a produção de réplicas em edições limitadas.

Em 1963 Man Ray lança sua autobiografia, “Self Portrait”. Faleceu em 18 de novembro de 1976 em Paris, vítima de uma infecção no pulmão. Seu túmulo tem a seguinte inscrição: “despreocupado, mas não indiferente”.

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