Mais uma bizarrice do profeta Arcary. Parte I

Mesmo não tendo nenhum capital intelectual nem político para poder avaliar o valor das prognósticos políticos sobre o desenrolar da crise política brasileira, o ex- porta voz oficial do PSTU, hoje abrigado no balaio de gatos do PSOL, o professor Dr. Valério Arcary, festejado indevidamente nos meios da esquerda marxiana como um “ notório intelectual marxista”, para justificar a criação de mais uma insignificante  “ nova” organização política da esquerda pequeno burguesa ( o ajuntamento do   “Mais” com o “Nos”) resolveu se apresentar como uma espécie de avaliador e mesmo juiz ( um Moro contra o “sectarismo”).

Assim, no artigo A unificação MAIS/NOS: um pequeno-grande passo em frente o colunista da esquerda online, tenta engabelar com truques morenistas desesperados os “militantes” egressos do PSTU que decidiram embarcar em menos de dois anos em nova aventura política, apresentada fantasiosamente como o surgimento de mais uma “unificação” depois dos sucessivos rachas do Partido “ unificado”.

Dessa vez, Valério realmente se superou, procurando através de contorcionismos meramente retóricos apresentar que o PCO e PSTU são “simétricos” , pois são igualmente sectários. “Dois exemplos atuais de sectarismo extremado são o PCO e o PSTU, mas têm origem, infelizmente, na tradição troska. Têm posições simétricas diante da conjuntura.” (site esquerdaonline.com.br)

Bem, antes de entrar propriamente no debate sobre os “argumentos” levantados para justificar a esdrúxula comparação entre o PSTU, o partido que apoiou o golpe, com a preciosa ajuda do professor Arcary, um dos principais formuladores da política “ não existe golpe” e “ ninguém quer o golpe” e o PCO, o partido vanguardista na luta contra o golpe, é importante analisar as credenciais do famoso e global por um dia, profeta negacionista do golpe.

O profeta morenista, nos seus tempos de dirigente do PSTU afirmou de maneira categórica (registrado em numerosos artigos e em vídeos nas redes sociais) que não existia a menor possibilidade de golpe, pois ninguém queria ( Japão, globo, direita, e todos outros).

Demonstrando ser uma pessoa de prestigio, o profeta Arcary apresentou seus diagnósticos e prognósticos inclusive no canal GloboNews da família Marinho, quando  mais uma vez negou veemente  que havia conspiração golpista no Brasil.

Ressaltou ainda o profeta Arcary, como Merval e outros colunistas golpistas, que a narrativa sobre o golpe era do PT, e mais uma vez nos tranquilizou pois “não haverá  golpe algum”, pois “os capitalistas nunca ganharam tanto no país”. Isso dito no principal órgão conspirador golpista.

De qualquer forma, nosso profeta mostrou muita coragem “ revolucionária” dizendo na TV da Família Marinho exatamente a mesma coisa que a família Marinha gostaria de ouvir e os colunistas da Globo sempre disseram.

De qualquer forma, não precisaria ser profeta para saber que o então profeta do PSTU faria profecias que agradassem os interesses dos donos da emissora golpista. Se o profeta fosse denunciar o golpe da direita, certamente não seria chamado, mas neste caso poderia ser acusado de sectarismo. Então já temos um exemplo histórico de não sectarismo do profeta Arcary, usar todas as oportunidades para expor as ideias e propostas que favorecem os capitalistas na imprensa golpista, ajudando a direita a camuflar seus objetivos golpistas e a conspiração em curso.

Pois bem, mas porque ficar remoendo o passado? o profeta Arcary prefere  esconder suas fabulosas profecias de que “ não haveria golpe”  e que “ ninguém quer golpe”, logo não existe conspirações nem golpistas. Sem dúvida, precisamos entender que o fracasso das previsões do profeta Arcary é a expressão do completo fracasso não somente político, mas também intelectual de toda esquerda pequeno burguesa. Não por acaso,  no seu texto o profeta pede para não lembramos do passado, citando logo na epigrafe inicial  o dito popular “Águas passadas não movem moinhos”.

 

A Cegueira e a acovardamento da esquerda pequena burguesa diante do golpe

Em 2016, através de um golpe de estado, a presidenta eleita com mais de 54 milhões de votos foi retirada do Palácio do Planalto. Decorridos menos de dois do afastamento definitivo da presidenta Dilma através do impeachment fraudulento é cada vez mais nítido que o golpe não somente foi realizado como está se aprofundando.

O desenvolvimento da crise política, com a explicitação do caráter golpista do afastamento da presidente Dilma, provocou um verdadeiro terremoto político em todo sistema político partidário no país. Na esquerda, setores significativos no interior do PT e da CUT começaram a superar a paralisia e estão entrando em movimento. Através de um processo lento, mas continuo, processa-se uma importante experiência política de enfrentamento com as ilusões em torno das instituições burguesas.  A prisão de Lula representou uma derrota do movimento contra o golpe, mas não foi uma derrota definitiva, na medida que não houve um recuou das mobilizações, e provocou também uma compreensão mais profunda sobre o caráter das instituições controladas pelos golpistas.  A mobilização em São Bernardo, com forte presença operária, colocou pela primeira vez em questão efetivamente a legitimidade das ações dos golpistas. Destacou-se a ação dos militantes do próprio PT para tentar impedir a prisão de Lula.

Por sua vez, o fracasso da política de conciliação de classes dos governos de frente popular também acentuou o fracasso da política de aparência “revolucionaria” da esquerda pequeno burguesa do PSTU ao PSOL, passando pelo PCB e os grupelhos satélites dessa “esquerda”.

Podemos afirmar sem medo de errar, que a quase totalidade da esquerda pequeno burguesa demonstrou não possuir efetivamente nenhum contato com a realidade, uma vez que não conseguiram enxergar o desenrolar do golpe, e depois tardiamente mesmo  “ reconhecendo” que houve um “ golpe institucional ou parlamentar”  recusaram-se  a lutar contra o golpe.

Inclusive teve setores que apoiaram a Lava Jato, e  queda de Dilma como os agrupamentos de origem morenista no interior do PSOL  (CST, Luciana Genro). Contudo, o mais impressionante foi a posição do PSTU, que adotou uma atitude abertamente golpista, apoiando o “Fora Dilma” no marco do “ Fora Todos”.

Os desdobramentos do golpe evidenciaram que a derrubada de Dilma teve um caráter reacionário, visando não apenas o afastamento do PT do executivo nacional, mas uma reconfiguração do Estado.

Cotidianamente, fatos corroboram para indicar  o desmonte dos direitos sociais e democráticos, exemplificados pela PEC 95, que congela por vinte anos os investimentos orçamentários na área social, a lei da terceirização, a Reforma Trabalhista e o retorno da censura. A intervenção militar no Rio, a execução de Marielle Franco, a prisão do ex-presidente Lula e os atentados primeiro contra a caravana e depois contra o acampamento pela liberdade de Lula evidenciam que estamos caminhando a passos largos para um regime ainda mais repressivo, e até mesmo para uma ditadura aberta.

Esse processo histórico de explicitamente do golpe de estado, que desvelou que os discursos radicais e supostamente “ combativos” da esquerda pequeno burguesa, em relevo a escolha do PT, Dilma e Lula como inimigos principais, nada mais eram do que apoio dissimulado aos golpistas, abriu uma profunda crise em toda esquerda, atingindo de maneira mortal, o PSTU, partido que mais abertamente defendeu a derrubada do governo Dilma.

A ação dos golpistas e a tomada de consciência por amplas parcelas populares do significado do golpe levou ao colapso a política sectária da esquerda pequeno burguesa. Neste processo, o ultraesquerdismo do PSTU revelou-se nitidamente como sendo uma política contra-revolucionária a serviço da direita pró-imperialista, isso ficou evidente até mesmo para os próprios militantes do PSTU, que atordoados abandonaram o partido, depois de terem defendido as posições golpistas durante todo período que levou ao impeachment. Depois de ser formulador dessa política alucinada, o profeta Arcary sem maiores explicações e com muita “ alegria” resolveu sair do PSTU e entrar no PSOL.

Como não poderia deixar de ser, o esgotamento completo dos truques usados pelo PSTU para esconder que “ partido revolucionário” apoiava a direita golpista, e que os erros reais ou imaginados do PT eram apenas formidáveis álibis para não lutar contra os golpistas assustaram os parceiros da “ frente de esquerda”. O triste fim da reputação do PSTU, que passou de partido “ radical” para partido golpista, levou a desmontagem da fachada “ revolucionária” usada ostensivamente inclusive por prestigiados intelectuais marxianos no meio ambiente de classe média das universidades para enganar os estudantes desavisados.

Desconcertada, a esquerda pequeno burguesa procurou apagar os vestígios da sua capitulação política e do fracasso das suas previsões.  Além disso, se antes não pegava bem defender o governo Dilma diante das ameaças de golpe( vistas como imaginárias e criadas pelo petismo)  pois seria apoiar a “ conciliação de classes do PT” e ser o pior dos seres um “ governista”, agora não pega nada bem, aparecer na foto como sendo golpista ou coxinha de esquerda.

Então, nada melhor do que negar que negaram o golpe. Assim setores do PSOL, PCB e os grupelhos satélites ensaiaram um tímido protesto contra o golpe, em verdade, não participando de luta alguma contra o golpe, mas usando fartamente muita nota pública e rede social para desvencilhar-se em palavras do sectarismo (na verdade do apoio ao golpe) do PSTU, apesar de continuaram atuando conjuntamente na “ central” do PSTU.  Os mais audaciosos, que não participaram da luta contra o golpe, como o MRT e o MAIS, inclusive passaram a criticar a CUT e o PT por “não lutarem contra o golpe” e “não fazerem” no piscar de dedos a greve geral (voltaremos a esse assunto).

O posicionamento contra, e mais que isso a participação na mobilização contra os golpistas é o ponto central para podermos apreciarmos concretamente e objetivamente o valor da política e sobretudo para que serve as organizações políticas diante dos desafios da conjuntura.

As conjunturas adversas e situações com as mudanças bruscas funcionam como uma espécie de prova dos nove para o valor efetivo dos partidos e agremiações políticas, e não as declarações solenes, em especial das autoproclamações proferidas pelos setores da esquerda burguesas, e os gurus do “marxianismo” acadêmico.