Marketing barato
O uso demagógico das demandas dos setores oprimidos e explorados pela própria burguesia deve ser combatido pela mobilização dos trabalhadores negros
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Luiza Trajano
Luiza Trajano, dona do Magazine Luiza | Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Uma das maiores empresas do Brasil, o Magazine Luiza, anunciou que seu programa de Trainees de 2021 será voltado inteiramente para pessoas negras. O anúncio gerou grande repercussão, desagradando racistas e os setores mais radicais da direita, porém empolgou outros, particularmente a pequena burguesia negra e a esquerda pequeno-burguesa em geral. As massas negras oprimida e explorada no país, naturalmente, permaneceram à margem da discussão. 

Os entusiastas não viram no gesto da gigante do comércio varejista uma campanha de marketing demagógica mas uma “face humana” do capitalismo, como se o sistema responsável por mergulhar quase toda a humanidade em duas guerras mundiais tivesse duas caras. Comoveram-se e alegraram-se como quem vê uma luz no fim do túnel, tornando-se agora devotos da santa “Magalu”. Segundo articulista no site Uol, Bianca Santana, a empresa, “comandada pela mulher mais rica do Brasil, segundo a revista ‘Forbes‘, anuncia uma ruptura com o pacto narcísico da branquitude”.

A comoção gerada, no entanto, é absolutamente superficial, tanto quanto a suposta “face humana do capitalismo”, uma máscara que busca disfarçar a realidade, a opressão da classe burguesa contra o restante da sociedade, cujo controle é obtido mediante um regime de terror cada vez mais brutal, como bem ilustra o genocídio contra a população negra promovido pela polícia brasileira. A ação da empresa não passa de demagogia, servindo também como marketing comercial e político para a empresa e os horrores do capitalismo.

Trata-se de insinuar a possibilidade de uma alargamento da pequena burguesia, hoje majoritariamente branca, o que, supostamente, poderia vir a favorecer a população negra. Ao mesmo tempo infunde-se com isso a ideia perniciosa de que há um setor “civilizado” na burguesia, que a sociedade pode ser melhorada por meio destes gestores, mais humanos, que a opressão do negro pode ser resolvida nesse limiar; por meio do capitalismo e pela mão da burguesia civilizada e não contra ambos. Naturalmente, isso soa como música para a idealista classe pequeno-burguesa, que sonha com uma “promoção” social.

Logicamente, a burguesia procura com esse tipo de movimento, como as campanhas demagógicas em relação aos setores oprimidos, as minorias, etc., alargar a sua base social, coisa de primeira importância diante da polarização política crescente. Envolver a pequena-burguesia negra e branca mais profundamente em suas ideias, seus valores, suas aspirações, seu horizonte político é uma forma de se proteger da classe operária e das massas oprimidas usando a pequena burguesia como soldados na defesa do regime político-ideológico burguês. Os capitalistas também procuram criar uma base social que lhes de uma certa independência em relação ao fascismo nos momentos de crise. 

Uma coisa a ser compreendida é que burguesia lucra com a opressão do povo negro, e não se furtará deste lucro por questões humanitárias. Para o regime burguês, a opressão do negro é um elemento de estabilização econômica, portanto, do regime político. Isso se dá pela criação de todo um setor social sob o qual o peso do atraso é transferido (maior parte do desempregados, dos pobres e miseráveis, dos que recebem até um salario mínimo, maior parte da chamada mão de obra desqualificada), o que coloca a população negra como instrumento para se jogar o preço da mão de obra geral para baixo.

A inserção do negro na sociedade capitalista em pé de igualdade com o branco teria com resultado natural o acesso de milhões de pessoas ao emprego e a renda, o que levaria à elevação do preço da mão de obra geral, pois não haveria uma massa de desempregados e pobres com os quais chantagear o trabalhador. Naturalmente, isso não é do interesse da burguesia.

Nesse sentido, a ação da empresa Magalu é evidentemente inócua. A esmagadora maioria do povo negro não entrará no processo seletivo da Magalu ou de qualquer outra gigante capitalista, nacional ou internacional, apenas uma ínfima parcela da população negra poderá gozar desta restritíssima oportunidade de ser explorado pela Magalu mas recebendo um pouco mais de migalhas em troca. A perseguição do Estado capitalista, contudo, não cessará, a superexploração da mão de obra do negro pela mesma burguesia não diminuirá, os direitos democráticos dessa população continuaram a ser pisoteados pelo Estado. O negro continuará marginalizado.

Tal ação nada tem haver com a luta do negro, sendo  apenas parte da campanha demagógica da burguesia, na qual procura envolver; atrair setores mais amplos para sua defesa, é a utilização de uma demanda fundamental para objetivos espúrios. A burguesia que mantém o negro oprimido é a mesma que faz campanha contra o racismo, o que constitui a própria definição de injustiça: o opressor passar-se aos olhos dos outros e dos oprimidos por defensor do próprio oprimido.

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