Mães lançam livro sobre filhos mortos pela Polícia

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Na quarta-feira(16), será lançado o livro O memorial dos nossos filhos vivos – as vítimas invisíveis da democracia, na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, no centro de São Paulo. Com 181 páginas, a obra apresenta 23 relatos a respeito de 26 vítimas de policiais e outros agentes do Estado.

 

“O Estado os mata…. e eles passam a ser suspeitos”

 

A decisão de transformar as histórias de vida dos jovens assassinados em livro partiu de Débora Silva, coordenadora do movimento Mães de Maio, que teve um filho assassinado pela polícia num ataque contra civis que deixou aproximadamente 600 mortos em maio de 2006, no estado de São Paulo. “Nossos filhos tinham nome e sobrenome, mas quando o Estado os mata, eles passam a ser suspeitos ou são criminalizados (…) Além de matar nossos filhos, o Estado ainda contamina a população ao colocar uma interrogação na cabeça das pessoas: ‘se a polícia matou, alguma coisa tem’”, afirma Débora.

Durante estes 13 anos, os familiares que integram este movimento relatam para pesquisadores e jornalistas de que maneira os filhos foram assassinados. O livro traz também relatos de mães que tiveram os filhos assassinados por policiais em Chicago, no Rio de Janeiro, em Goiás, no Rio Grande do Norte, no Pará e no Ceará.

Um destes relatos é o de Vera de Freitas. Integrante do movimento Mães de Maio, conta como o filho Mateus foi assassinado em Santos, no litoral de São Paulo por dois homens encapuzados no período dos crimes de maio de 2006. Seguem alguns trechos do relato presentes no livro:

Terminei a faculdade e engravidei do Mateus. Pra minha família foi a maior alegria. Tanto pro irmão, como pro pai, como pra mim, porque a gente queria mais filhos, não queria só um. […] Eu ia trabalhar e comecei a sentir as dores, fui tê-lo no hospital. E, foi muito bom. Os meus amigos que trabalhavam comigo me mandaram um ramalhete muito lindo de flores. Aquela felicidade”.

Meu filho tinha uma saúde boa, tinha um corpo bom. Magro. Ele sempre se cuidou. E, de repente, a coisa. A gente sempre com cuidado. Na gestação, mil cuidados…Não tomava um remédio sem falar com o médico. Com medo de que algo pudesse afetar o filho, né? A gente tinha aquela coisa, aquele cuidado. Meu marido sempre foi muito cuidadoso com eles… “olha, cês num vão pra cá, vão pra lá…”. Eles estudavam, dava pra eles ir a pé. Eu pagava a condução. Pegava passe escolar pra eles não ter que vir na avenida. Eu tinha receio, muito carro, eles tivessem brincando e que…A gente tinha aquele medo, aquele cuidado. E, de repente...”.

De acordo com o professor da Universidade da Califórnia, que escreveu o prefácio do livro,“O convite aqui é que tenhamos a coragem de defender os ‘nossos’ mortos e os ‘nossos’ mortos devem ser todo/a aquele/a vítima do Estado, qualquer que seja sua biografia. O projeto político das mães, portanto, é um convite à criação de uma comunidade moral forjada na dor e na raiva, não na cumplicidade com a lei”, afirma o professor.

 

Cresce número de pessoas mortas pela polícia no Brasil

 

De acordo com um levantamento realizado pelo Monitor da Violência, uma parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o G1 a partir dos dados do Distrito Federal e dos 26 estados, no ano passado, o Brasil teve 6.160 pessoas assassinadas por policiais, o que representa 935 a mais do que em 2017.

A pesquisa apontou que, a cada 100 mil habitantes, a taxa de mortes pela polícia subiu de 2,5 para 3. O Rio de Janeiro é o estado com maior taxa de mortes por policiais. São 8,90 a cada 100 mil. O Atlas da Violência 2018 já havia mostrado que, num grupo de 100 mil pessoas, 87,7 homicídios foram de jovens negros e pobres. A professora Nalayne Mendonça Pinto, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), afirma que “O Rio é um estado violento por intervenção policial, temos um grave problema com os autos de resistência. Estamos assistindo um aumento no índice de morte da população de jovens negros também por armas de fogo. O governador [Witzel] faz afirmações que representam uma grave violação constitucional de autorizar as execuções”.

No Estado de São Paulo, os dados divulgados pela Ouvidoria da Polícia Militar no mês de março mostraram que os PM`s assassinaram 64 pessoas durante confrontos. Em relação ao mesmo período do ano passado, em que os policiais militares cometeram 43 assassinatos, este número representa um aumento de 46%.

Esta alta no índice dos assassinatos no Estado são responsabilidade do governador bolsonarista João Doria e do presidente ilegitimamente eleito Bolsonaro. De acordo Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao reforçar a ideia de que “bandido bom é bandido morto”, Doria promove um estímulo da letalidade policial. “De um lado, a letalidade da PM que historicamente é alta, independente do Doria. De outro, você tem um governo com uma agenda voltado para o enfrentamento violento, é uma combinação explosiva e o resultado é esperado”, afirma.

Este aumento no número de pessoas assassinadas aponta para a necessidade da dissolução da PM e de todo o aparato repressivo. Ao ser entendida como um braço armado do Estado, a Polícia Militar está voltada para a proteção da burguesia e o extermínio dos pobres e negros. Ao ser dissolvida, torna-se necessária a criação de uma milícia popular eleita e controlada pelo próprio povo que não dependa da burguesia e, muito menos, do Estado.