Macron reprime manifestantes: a esquerda precisa romper com o governo francês e participar dos atos

A protester wearing yellow vest, a symbol of a French drivers' protest against higher fuel prices, stands on the red light on the Champs-Elysee in Paris

Emmanuel Macron está reprimindo violentamente as manifestações contra a alta do diesel levada pelos “coletes amarelos” – forma com que são chamados os manifestantes por trajarem os coletes refletores obrigatórios aos carros franceses.

Ataques a bombas de gás lacrimogêneo e a bombas de água são as maneiras com as quais os policiais franceses contêm a mobilização social. Os mais de 300 presos, as centenas de feridos e a mulher morta pela repressão deixam claro a política de combate desleal.

Apesar da violência do Estado, desde o início dos protestos no sábado (17), as manifestações já contam com mais de 280 mil participantes em toda a França, fora os 75% de aprovação por parte da população. 70% do povo francês é favorável a redução do preço do diesel, que teve alta de 23%, de €1.51 por litro (R$ 6,46), para cerca de $1.71 (R$ 7,31) por litro em 12 meses. Esse é o combustível mais usado pelos veículos franceses, principalmente, pela população pobre e operária.

Apesar de toda essa situação social de luta por direitos básicos, os partidos de esquerda tradicionais e os sindicatos franceses não manifestaram apoio oficial ao movimento, deixando o espaço aberto para a Frente Nacional, partido de extrema-direita fascista liderado por Marine Le Pen.

Olhando mais profundamente, essas manifestações dos “coletes amarelos” decorrem da série de ataques contra a população francesa desferidos pelo governo de Macron através do corte de inúmeros direitos e benefícios sociais.

A perda de direitos trabalhistas, de seguridade para desempregados e o sucateamento de serviços fundamentais, como o transporte urbano, vieram unidos a elevação do desemprego, subemprego e alternativas econômicas instáveis, como a produção de micronegócios individuais. Vale destacar, que o transporte urbano foi tão sucateado, a ponto de diversas linhas deixarem de existir, obrigando a população pobre a recorrer aos veículos individuais.

Como gota d’água, veio a sobretaxa sobre os combustíveis decorrente da demagogia política “ambiental” do governo, aumentando principalmente o preço do diesel, o mais barato e mais utilizado pela população que já havia passado a depender de carros para o próprio transporte, fora serem as maiores dependentes desse recurso para o aquecimento doméstico nos locais cuja infraestrutura de gasodutos é precária.

Com sua posição impopular, a esquerda francesa mantém ligações com a direita em desagregação, fato que a leva também a autodestruição. Isso se assemelha com a política capitulada tomada pela esquerda pequeno-burguesa brasileira na situação da greve dos caminhoneiros em abril deste ano.  

A vacilação em chamar a greve geral, apoiando a greve dos caminhoneiros e derrubando de vez o governo golpista, permitiu o desenvolvimento do golpe, com a fraude eleitoral que retirou Lula das eleições e colocou Bolsonaro no poder. Nesse sentido, Macron se assemelha Temer, com um governo artificial, empossado para atacar os direitos da população, fato que os levou rapidamente a serem odiados pelo povo.

Nos dois casos, o poder central enfraquecido e a população em movimento significam uma oportunidade central para o desenvolvimento da luta da classe trabalhadora. O que falta, contudo, é uma pauta de luta a esquerda, alternativa a direita e a extrema-direita. Sem isso, a população tende a cair na demagogia da extrema-direita, que não se exime em aproveitar-se da pauta popular para fazer a sua política. Para isso, apoiam o movimento dos “coletes amarelos”, mesmo que de maneira discreta, e salientam:

“Nós não estamos dirigindo [o movimento], nós não estamos pensando em dirigir, nós só estamos orientando nossos militantes a participarem das manifestações. No final, todos eles vão votar em nós nas próximas eleições mesmo”.

Esse pronunciamento indica a tendência do crescimento dos partidos de extrema-direita europeus. Numa situação de crise econômica generalizada, somada a implantação de políticas cada vez mais duras contra a população, é natural que as pessoas tendam a radicalização e busquem partidos e lideranças com pautas mais radicais.

Nessa situação, há a tendência da polarização social, deslocando o povo a esquerda em direção a política dos partidos revolucionários. Na falta deles, contudo, e com uma esquerda firmemente atrelada à direita, a extrema-direita acaba ocupando esse lugar da esquerda, enganando a população com seu discurso pseudo-popular.

Isso está ocorrendo na França e em toda a Europa hoje, fato que torna real o perigo da cooptação do movimento dos coletes amarelos pela extrema-direita. Contra isso, é preciso a criação de uma política independente da burguesia por parte da esquerda na Europa, capitalizando a insatisfação popular com uma pauta de luta real.