“Luta contra o fascismo” de Guilherme Boulos é apenas uma manobra oportunista para eleições

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No último dia 15, o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que concorreu à Presidência da República pelo PSOL, Guilherme Boulos, concedeu uma longa entrevista ao programa No jardim da política da Rádio Brasil de Fato. O candidato teve 0,58% dos votos válidos (617 mil votos) – considerado o pior resultado do PSOL em eleições presidenciais desde a criação do partido. No segundo turno, Boulos e a coligação PSOL-PCB apoiaram a chapa de Fernando Haddad e Manuela d’Ávila (PT-PCdoB-Pros) contra Bolsonaro.

Na entrevista, Boulos fez um balanço de sua candidatura e uma análise de conjuntura, mantendo sua leitura apartada da realidade política e mesmo sua postura capituladora na luta contra o golpe. Cada vez mais, alguns setores do PSOL se aproximam de um modelo de “oposição de esquerda” institucional, parlamentar, a reboque das medidas da burguesia. A cada novo ataque, chorarão nas redes sociais, negociarão seu pesar em troca de algum benefício circunstancial e seguirão em frente.

Para Boulos, “nos últimos três anos ocorreu um golpe parlamentar no Brasil, assumiu um governo ilegítimo, prenderam o Lula, principal liderança política, de maneira injusta, uma prisão política”. Mais adiante, porém, comemoraria: “esse nosso campo e o PSOL teve uma vitória importante ao atingir a cláusula de barreira, dobrando a bancada parlamentar”. Se Lula é preso político e sua prisão foi injusta, tal fato constituiu a espinha dorsal das eleições nas quais Boulos seria não apenas o primeiro candidato sofregamente inscrito como também nelas participaria até o fim, no apoio a Haddad. E qual seria, afinal, a vantagem de dobrar a bancada parlamentar dentro de um parlamento golpista? Qual o sentido de um partido de esquerda ter lançado candidatura própria em meio ao golpe de estado senão dividir os votos do PT e enfraquecer a luta contra o golpe?

Lembremos aqui um pouco da trajetória política recente do próprio Boulos. Em 2014, foi um dos principais impulsionadores do movimento Não vai ter Copa, iniciado pela direita para desmoralizar a Copa do Mundo no Brasil. Em 2015, tornou-se figura de proa na Frente Povo sem Medo, criada para dividir a luta contra o golpe inicialmente agrupada em torno da Frente Brasil Popular, na verdade defendendo a política de Fora todos do PSTU. Tal postura ficaria clara em junho de 2016, quando a Povo sem Medo lançou a campanha O povo deve decidir, pedindo eleições diretas ainda em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Em 2017, Boulos iniciaria o movimento Vamos, destinado a abandonar qualquer mobilização contra o golpe e a lançar-se à construção de um programa eleitoral para 2018. Por onde passou, o movimento plantou a ilusão de que as eleições presidenciais conduzidas pelos golpistas seriam normais. Em 2018, por meio de uma manobra autoritária e arbitrária da direção do PSOL, Boulos foi incorporado ao partido e alçado à candidatura à Presidência da República – decisão meramente referendada em convenção partidária posterior.

Boulos esteve presente em praticamente todos os atos contra a prisão de Lula em Curitiba e em Porto Alegre: nos palanques, pois em nenhum deles se teve notícia de mobilização da militância do MTST por parte da direção. Lula o adotaria como papagaio de pirata, visando a excluir dos holofotes as lideranças do próprio PT que desejavam vê-lo encarcerado.

A posição política atual de Guilherme Boulos dá continuidade a essa trajetória confusa, em que sempre esteve à frente de bandeiras diversionistas que servem à direita pela inércia que produzem nos movimentos populares. Após o segundo turno, em discurso no vão do MASP, declarou que reconhece “como legítimo o governo de Bolsonaro”, em nome de uma “resistência pacífica e democrática” que pretende doravante conduzir contra a ideia eleitoral de fascismo constituída no bojo de movimentos com o Ele Não.

Na entrevista, seu ponto de vista não foi diferente. “Bolsonaro ganhou as eleições. Podemos questionar, como questionamos, as fake news, o caixa dois que bancou empresas para fazer disparos de Whatsapp, mas ele teve a maioria dos votos. Nós não somos o Aécio Neves e não vamos cumprir esse papel ridículo que o Aécio Neves cumpriu em 2014 na história brasileira”. De fato, tal ponto de vista não é o do Aécio de 2014, mas o do Aécio de hoje. Trata-se afinal de uma verdadeira ginástica retórica para levar suas bases a aceitar passivamente o processo eleitoral fraudulento, bem como o governo golpista que dele pode resultar.

O conceito de “luta contra o fascismo” de Boulos não poderia ser mais capitulador:

Democracia tem que ser uma prática cotidiana. Bolsonaro foi eleito presidente da República, mas não recebeu mandato para ser ditador, nem imperador, nem para mandar a oposição para a ponta da praia, para o exílio ou para a cadeia. Ele precisa seguir a Constituição, precisa respeitar as liberdades democráticas, as liberdades de manifestação, de expressão, de imprensa. O mandato que ele recebeu inclui que ele cumpra a Constituição nesses aspectos. E o que nós temos visto com muita preocupação é que ele, ainda como candidato, fez declarações absurdas, desde o elogio à ditadura, elogio a torturador, àquele famoso discurso na Avenida Paulista, por uma live no Facebook, onde ele disse que ia varrer os vermelhos, que a oposição teria essas três opções: exílio, prisão ou ponta da praia.

Boulos tem visto com “muita preocupação” o fato de que Bolsonaro age como Bolsonaro: um fascista. Ocorre que o dualismo “democracia versus barbárie” que Boulos, Haddad e grande parte da esquerda colocaram no campo eleitoral desde então era somente isso: um discurso oportunista eleitoreiro. Aparentemente, não acreditavam e não acreditam de fato que houve um golpe, que a constituição e os direitos fundamentais vêm sendo solenemente ignorados por todos os golpistas. Discursa como se ignorasse que pelo menos dois dos três Poderes da República estão sob as ordens dos militares já hoje. Enfim: discursa como se acreditasse de fato que o imperialismo vai retroceder graças à portentosa atuação da bancada parlamentar do PSOL, que agora chegará a 11 deputados.

O tom “indignado” de Boulos com os golpistas tem um constrangedor tom moralista pequeno-burguês e uma lamentável autoindulgência capazes de fazer inveja a um coxinha. Para ele, a campanha eleitoral

foi um enorme aprendizado. Além desse sentimento de missão cumprida, eu tinha feito um compromisso com a Sônia Guajajara, minha companheira de chapa, quando nós firmamos essa aliança, entre o PSOL, o PCB, com um conjunto de movimentos sociais, de que a única coisa que nós precisávamos ter certeza é de que a gente sairia desse processo com mais dignidade do que entrou. Nesse sentido, conseguimos atingir esse resultado tão necessário e que não é um resultado fácil de se atingir no processo eleitoral, marcado por mentiras, por baixaria, por recursos de toda sorte.

Difícil será explicar às centenas de milhares de trabalhadores que ao fim e ao cabo ainda depositaram seus votos em tal discurso vazio que dignidade seus líderes encontram em haverem capitulado completamente para os golpistas. Difícil será explicar ao conjunto da população brasileira quais as razões que essa esquerda parlamentar encontra para justificar o anúncio de uma aliança com os golpistas – incluindo o PSB e o PSDB – a pretexto de “unir os campos democráticos para combater o fascismo” dentro do parlamento, e não com a organização e a mobilização popular. Uma coisa não se pode negar: a candidatura de Guilherme Boulos à Presidência da República deixou claro a que veio: jogar o jogo dos golpistas e desempenhar o papel de “esquerda que a direita gosta”.