Dragão do Mar
Muito além da princesa Isabel, Dragão do Mar, um jangadeiro cearense que ajudou a derrubar a escravidão no Brasil
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Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar | Foto: Reprodução
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Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar | Foto: Reprodução

“Para mim foi uma surpresa maravilhosa”, conta o historiador cearense Licinio Nunes de Miranda, pesquisador que encontrou o túmulo, Francisco José do Nascimento, mais conhecido como Dragão do Mar.

Francisco foi um líder jangadeiro, eternizado como um dos principais heróis abolicionistas, que acabou com o regime de escravidão no Ceará, estado pioneiro na abolição, quatro anos antes da Lei Áurea, doravante conhecido como Terra da Luz, que vai muito além das falésias e praias.

Durante parte do ano passado, o historiador percorreu diariamente os corredores com 15 mil túmulos no cemitério São João Batista, no centro de Fortaleza, buscando o jazigo específico do herói da abolição, o Dragão do Mar. Finalmente, o paradeiro do túmulo de Francisco Nascimento, desconhecido há mais de 100 anos, foi descoberto por Licínio, em 21 julho de 2020 no âmbito de um trabalho de investigação académica sobre a abolição da escravidão no Ceará. O pesquisador conta que encontrou uma pequena construção já deteriorada pelo tempo, onde se lê “Descanso eterno do major Francisco José do Nascimento”.

É uma descoberta cultural importante, pois o jangadeiro teve participação ativa no Movimento Abolicionista no Ceará. Francisco José, também conhecido como “Chico da Matilde”, nasceu em Canoa Quebrada, Aracati, no dia 15 de Abril de 1839 e faleceu em Fortaleza, no dia 5 de Março de 1914. Criado pela mãe, dona Matilde, que fazia seus ganhos com o trabalho de rendeira, perdeu seu pai ainda criança, o pescador Manoel do Nascimento. Chico foi então levado para morar com outra família aos 8 anos de idade, logo após ficar órfão de pai.

Filho de uma tradição de jangadeiros, Chico da Matilde aprende a ler aos 20 anos de idade e passa a trabalhar na construção do porto de Fortaleza. Tornou-se catraieiro, em seguida foi marinheiro até tornar-se prático no Porto de Fortaleza. Em meio à uma forte seca e epidemia de cólera, os senhores de escravos decidem vender seus contingentes para propriedades do sul, onde a demanda por mão-de-obra era grande. Mas Francisco recusa-se a transportar homens e mulheres escravizados.

Através de sua liderança, uma greve é deflagrada em 1881 em todo estado. Chico é demitido na tentativa frustrada de conter o movimento abolicionista que já vinha crescendo, porém seu nome já havia ficado gravado na história junto com sua jangada de nome Liberdade. Sua coragem impulsionou a greve que paralisou durante três dias os portos cearenses, tornando o Ceará o primeiro estado do antigo império à abolir a escravidão em 1884. E em sua homenagem são construídos um centro cultural, duas escolas e um navio.

“No Ceará ele é nome de rua, de escola e de centro cultural, mas muitas vezes não se dá a importância que ele tem. A história dele mostra que o abolicionismo não era formado apenas por intelectuais, advogados, jornalistas… Mas também por pessoas comuns, como trabalhadores do porto… Espero que a descoberta do jazigo traga essa história novamente, para que possamos reconhecê-lo como um grande herói brasileiro”, afirma o pesquisador.

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