Lula e a luta popular
Ao contrário do que diz parte da esquerda brasileira, a verdade é que Lula só foi libertado por causa do medo da burguesia de uma profunda mobilização popular.
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Lula junto do povo. Foto: Diário Causa Operária. |

Após 580 dias preso injustamente pelo processo farsa que é a operação Lava Jato, finalmente o ex-presidente Lula deixou as masmorras de Curitiba. Neste longo período, um setor da esquerda procurou disseminar várias ilusões nas instituições e na justiça brasileiras. Quando Lula foi preso, dizia-se que ele seria solto em 10 dias. Desde então, foram vários os acontecimentos em que a esquerda ficou esperando que o “democrático” STF cumprisse com as suas obrigações constitucionais e enfim soltasse Lula.

Antes de mais nada, é preciso que tenhamos claro um fato que sempre foi destacado pelos marxistas. Sem que se trave uma luta, não é possível obter nenhuma vitória, afinal, como diz o ditado popular, “nada cai do céu”. Além do mais, conforme discutimos no parágrafo anterior, foram várias as oportunidades em que o STF pôde reverter a arbitrariedade com respeito a Lula. No entanto, só agora o Supremo teve um súbito “surto” democrático. Embora a libertação de Lula tenha sido uma vitória parcial – afinal, o ex-presidente não tem seus direitos políticos plenamente estabelecidos e nem anulado os processos fraudulentos – só foi possível obter esta vitória por meio da mobilização popular.

Além da campanha pelo “Lula Livre”, que se desenvolveu mesmo com a paralisia de setores da esquerda brasileira, as denúncias feitas pelo sítio The Intercetpt tiveram um papel fundamental, que foi o de comprovar aquilo que o setor mais consciente do país já sabia: a operação Lava Jato foi uma grande farsa, uma operação montada de fora do Brasil para derrubar o governo do PT, prender Lula e devastar a economia nacional. Ainda neste sentido, embora a Lava Jato tenha como alvo principal o PT, a operação imperialista atacou duramente setores da burguesia nacional, como as empreiteiras, e os seus representantes na política brasileira, notadamente, o PMDB. Além de tudo isso, temos também toda a crise provocada pelo governo Bolsonaro, como vimos por exemplo no caso recente da Amazônia, onde Bolsonaro abriu margem para uma investida do imperialismo estrangeiro sobre esta gigantesca riqueza brasileira.

Quando o STF resolveu votar o problema da segunda instância, a maior preocupação do Supremo era na realidade soltar os seus “cupinchas”, que acabaram na mira da Lava Jato, tais como Temer e Aécio Neves. No entanto, é preciso destacar também que não foi apenas o desejo de libertar os direitistas, alvos secundários da Lava Jato, que fez o STF soltar Lula. Afinal, uma classe social como a burguesia tem ao seu dispor uma grande quantidade de recursos, de modo que seria perfeitamente possível que eles tivessem costurado um acordo que não envolvesse a libertação de Lula. Se a burguesia optou por esta solução, não foi por outro motivo que não a mobilização popular.

A situação dos países vizinhos acendeu um sinal amarelo para a burguesia e a direita brasileiras, que, ao contrário do que pensa a esquerda pequeno-burguesa, não subestima a capacidade de mobilização e de luta do nosso povo. Tanto é assim que Bolsonaro pediu que os militares elaborassem um plano, para o caso da situação do Brasil caminhar para o que vimos no Chile. Finalmente, precisamos destacar também que, para a direita, a soltura de Lula poderia resolver pelo menos momentaneamente a profunda crise política do país. Embora este possa ser um resultado imediato, o fato é que a liberdade de Lula aumenta ainda mais a polarização política no Brasil, tão temida pela direita.

Por isto, precisamos afirmar claramente. Lula não foi solto por que o STF resolveu resgatar a democracia brasileira ou outras pataquadas deste tipo. Ele foi solto por causa da mobilização popular, e por isso, a esquerda deve aproveitar a oportunidade e aprofundar as mobilizações, tanto pela restituição dos direitos políticos de Lula, quanto pela anulação da Lava Jato e pelo “Fora Bolsonaro”, e não ficar aguardando de braços cruzados até que as próprias contradições do regime tragam resultados positivos para o Brasil.

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