“Candidatíssimo”: segundo Leonardo Boff, Lula descarta plano B

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No final do dia na última segunda (7), o teólogo e escritor Leonardo Boff visitou Lula no cárcere da Polícia Federal de Curitiba, em que o ex-presidente se encontra trancafiado numa solitária há mais de um mês. A principal mensagem de Lula, segundo Boff, foi “sou candidatíssimo”.

Juntamente com o prêmio Nobel da Paz, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, Boff já havia tentado visitar Lula em 19 de abril. Ambos foram deixados esperando na rua. O ex-sacerdote, que tem quase 80 anos, sentou-se e aguardou em vão junto à guarita. Sérgio Moro havia determinado, por meio da juíza substituta Carolina Lebbos, que Lula não recebesse qualquer visita além de seus familiares e advogado – negando até mesmo o direito a consulta médica.

Após a visita dessa semana, Boff relatou emocionado ainda às portas da PF:

Eu estive uma hora e meia conversando com o Lula e encontrei um velho amigo. Recordamos muitas coisas de nosso passado. Eu posso dizer que ele está muito bem. Ele está com entusiasmo e vigor. Essa situação de viver numa solitária […] faz com que ele reflita muito, leia muito. E até mandou recado, dizendo que ele é candidatíssimo.

O recado tinha endereço certo: os grupos que se dizem de esquerda e que apressam-se em buscar um “plano B” para as eleições presidenciais. Lula sabe que somente ele pode encampar uma luta eleitoral de combate ao golpe, e que a chamada transferência de votos a um eventual indicado levaria ao fracasso no pleito. Há grupos dentro do próprio PT que vêm pressionando até mesmo pelo apoio à candidatura do direitista Ciro Gomes (PDT-CE), cujas bases são o empresariado mais próximo do rentismo – como Benjamin Steinbruch.

Nesse sentido, Lula destaca o caráter fraudulento e político do processo que o levou à prisão. Segundo Boff:

Ele tem uma indignação justa de quem sofre por causa de falsificações, distorções e mentiras com o objetivo de liquidar a candidatura dele, e enfraquecer o mais possível o PT. Por trás é por em xeque e desmoralizar um projeto que tem uma dimensão social inegável, como nunca na nossa história se fez tanto pelas populações marginalizadas. Ele quer prolongar essa política que nunca houve em nosso país, porque as elites do atraso sempre pediram mudanças, e as mudanças eram sempre mais do mesmo. Ele quer voltar ao poder para radicalizar o projeto de dignificação, de cidadania, a partir dos últimos, os invisíveis, que ninguém dá atenção a eles, que são as grandes maiorias de nosso país.

Como se viu no esvaziamento proposital do ato de 1º de maio em Curitiba, alguns setores das lideranças de esquerda vêm tentando “virar a página do golpe”, abandonando a luta pela libertação de Lula e partindo imediatamente para a campanha eleitoral pela Presidência da República.

Ocorre que nenhum candidato de esquerda tem peso suficiente para chegar ao segundo turno nas eleições conduzidas pelos golpistas – que seguem perseguindo, criminalizando, fazendo ampla campanha por meio da imprensa burguesa. Declarar participação no pleito de outubro com o lançamento precoce de pré-candidaturas – como têm feito Guilherme Boulos (PSOL), Aldo Rebelo (Solidariedade) e Manuela D’Ávila (PCdoB) é legitimar de antemão não apenas o regime golpista, mas também o próprio encarceramento de Lula – por mais que digam o contrário em seus discursos.

Somente a mobilização popular resoluta, devidamente apoiada pelas lideranças, é capaz de mudar a correlação de forças do cenário atual, forçando a libertação de Lula e sua participação no processo eleitoral. Sem tal oposição, este processo converte-se numa grande lavagem pseudo-democrática do golpe em curso, o que daria legitimidade para o seu aprofundamento: mais ataques aos trabalhadores, destruição completa do estado brasileiro, entrega total de nossa economia nas mãos do capital estrangeiro. Por isso, não há alternativa política fora da luta nas ruas e da resistência popular, e a palavra de ordem de hoje é ou Lula, ou nada.

Conforme Lula disse a Leonardo Boff:

Se eu não morri de fome aos cinco anos como outros morreram, eu aprendi a resistir, e estou aqui resistindo, e está aumentando meu ânimo, com as reflexões que eu faço e com o apoio que eu sinto.

Na opinião do religioso, “ele vai sair mais forte do que entrou. […] Ele sabe que o apoio que tem fora, que vem do povo. Isso para ele é um testemunho não só de fidelidade, mas de que a vocação da vida é lutar”.