Capitulação
A política de “frente ampla”, de submissão da esquerda aos interesses da burguesia, só levará à derrota do movimento operário
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Alberto Fernández, presidente da Argentina | Foto: Reprodução

Em artigo intitulado “A lição de Rafael Correa para o Brasil: união pela esperança” e publicado no portal Vermelho, Ricardo Capelli, notório defensor da política de aliança entre a esquerda e os golpistas, porta-voz de Flávio Dino (PCdoB) nos fornece uma interpretação bastante curiosa sobre a ofensiva do imperialismo na América Latina. A de que a esquerda deveria abandonar seu apoio ao ex-presidente Lula, um dos maiores líderes populares do mundo, para ingressar de cabeça na chamada “frente ampla”.

Para justificar sua posição, o articulista do PCdoB ancora-se no exemplo da candidatura peronista nas eleições de 2019 na Argentina, encabeçada por Alberto Fernández, e, sobretudo, no exemplo da Frente União Pela Esperança, lançada recentemente por Rafael Correa no Equador. Em ambos os casos, a esquerda nacionalista decidiu abrir mão de seus maiores líderes, em um gesto de extrema capitulação, para apoiar candidatos mais palatáveis para a burguesia. Uma política que tem como centro, supostamente, aliviar a pressão do imperialismo sobre a esquerda e permitir a recondução de uma parcela da oposição ao governo. Analisemos, portanto, esses acontecimentos a partir do próprio texto de Capelli.

Segundo o articulista, o Equador viveria “um drama muito semelhante ao brasileiro”, de modo que as “operações judiciais-midiáticas foram a fachada institucional para solapar a democracia”. Capelli ainda destaca que Rafael Correa foi “traído por seu sucessor” e “acabou condenado a oito anos de prisão”. O burocrata do PCdoB chega à conclusão de que “estamos diante de uma Nova Operação Condor no continente com o objetivo de desestabilizar os países, prender seus líderes populares mais importantes e sequestrar suas riquezas”.

Dizendo o mesmo com nossas palavras, podemos, sem dúvida alguma, afirmar que o Equador, assim como o Brasil, a Argentina e toda a América Latina, está sendo vítima de uma poderosa ofensiva do imperialismo. Uma ofensiva que é motivada pela profunda crise econômica do capitalismo e que só levará a uma política de pilhagem operada pela classe dominante. E que essa operação precisará, inevitavelmente, ser acompanhada de um fechamento do regime político.

Ora, mas se há uma ofensiva sobre a América Latina, e essa ofensiva é dirigida por uma classe social com interesses muito bem definidos, a única maneira de frear isso é por meio de uma reação organizada dos explorados. Isto é, se a política da direita é de guerra contra o povo, é preciso que o povo, tendo a classe operária no centro da mobilização, declare guerra à burguesia.

Mas não é isso que Capelli propõe. Segundo ele, Rafael Correa e Cristina Kirchner, ao desistirem de suas candidaturas, contentando-se em constarem apenas como candidatos a vice de uma chapa encabeçada por uma figura diretamente ligada à burguesia, estariam se comportando como “dois gigantes colocando o interesse nacional acima de seus projetos pessoais e/ou partidários”. Capelli ainda comemora a flexibilidade da frentes compostas por Correa: “a candidatura será pela Frente União Pela Esperança, organização que reúne diversos partidos e organização sociais e indígenas. A Frente vai além da esquerda, agregando também o Centro Democrático.”

Somos obrigados a discordar de Capelli neste ponto. Abrir mão de suas candidaturas presidenciais não torna Correa e Kirchner “abnegados”, uma vez que não é o interesse coletivo que foi levado em consideração nesses casos. Correa e Kirchner procuram chegar a um acordo com o imperialismo, um acordo com quem não quer acordo algum, um acordo impossível e que apenas permitirá que a direita avance no regime. O fato de que Correa englobou setores da direita — o “Centro Democrático” — é apenas mais uma prova de que o objetivo dessa frente não é combater a burguesia, mas sim de permitir, por meio de uma conciliação, que setores falidos do regime, extremamente impopulares, possam voltar ao poder.

No fim do texto, Capelli deixa claro seu objetivo: importar a distorcida “lição” do Equador e da Argentina para o Brasil: “está em curso um genocídio no Brasil? Um desmonte do país? Qual a atitude diante desta barbárie? A divisão pequena e mesquinha? O cada um por si e o povo que se dane? Adotar o cinismo como prática política é inaceitável.”

O articulista, sendo um funcionário de Flávio Dino, utiliza os exemplos supostamente bem-sucedidos de Equador e Argentina para, justamente, forçar uma política da esquerda a favor de Dino. Afinal, o governador do Maranhão se colocou, desde o início do governo Bolsonaro, como postulante à presidência em 2022. Vem fazendo uma série de manobras para ganhar apoio de setores burgueses e golpistas (como PSB, PDT, MDB, DEM e outros) à sua candidatura. Mas, o mais importante para Dino, é ganhar o apoio da esquerda, sem o qual nunca ganhará nada. Mais precisamente, o apoio do PT e, mais precisamente ainda, o apoio de Lula — curiosamente, buscando desacreditar o próprio líder petista.

A clara intenção de Capelli, nesse sentido, é dizer à esquerda, particularmente a Lula: “Correa e Cristina Kirchner, apesar de serem as lideranças mais populares, deixaram a mesquinharia e o ego de lado para defenderem o interesse nacional acima de tudo, e o mesmo deve ser feito por Lula e pelo PT, abandonem suas posições protagonistas e apoiem Flávio Dino!”

É exatamente o que a burguesia quer: colocar Lula e a ala lulista do PT para escanteio, tirando seu protagonismo da cena política para abrir caminho a uma “nova esquerda”, sem nenhuma ligação com as massas e que não incomoda os capitalistas. Uma esquerda que, pela falta de enraizamento popular, não tem a menor chance de vingar como força política, e que serviria apenas para solidificar o caminho para a direita permanecer no controle do regime político. Uma esquerda que não faz cócegas na burguesia e que fica à reboque da direita, como é o caso justamente de Dino e do PCdoB.

Trata-se da famigerada política da frente ampla, que serve somente para reciclar a direita tradicional, na qual a esquerda (castrada de seu poder de mobilização, ao enterrar sua ala ligada às massas) oferece suas mãos para fazer “escadinha” para a direita subir e se consolidar no poder. Porque no Brasil, no cenário atual, a burguesia não está nem minimamente disposta a permitir à esquerda uma retomada do governo, mesmo que seja uma esquerda verde e amarela como Flávio Dino. Por isso, uma saída à Cristina Kirchner ou Rafael Correa seria uma saída absolutamente inviável nas condições atuais, uma saída para o precipício.

A frente ampla no Brasil, que Capelli já teve a oportunidade de descrever em detalhe em outros artigos, é uma frente com a direita, com os setores que ajudaram a dar o golpe em 2016. Rejeitar os golpistas não se trata de uma maneira de exercer a “mesquinharia” da esquerda. É a única maneira de os trabalhadores se organizarem de maneira independente e derrotarem os seus algozes.

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