O candidato que une a esquerda contra a direita
Ex-presidente chamou a lutar contra Bolsonaro, pelo auxílio emergencial e defendeu o enfrentamento da esquerda contra a direita

Por: Redação do Diário Causa Operária

Em sua primeira atividade pública, desde o anúncio da anulação das condenações fraudulentas impostas pela 13ª. Vara Federal de Curitiba, por parte da quadrilha da Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reuniu dirigentes do PT, bem como convidados de outros partidos da esquerda (PCO, PCdoB, PSOL) e de algumas das principais organizações do movimento de luta dos trabalhadores do campo e da cidade (como a CUT, MST, FUP etc.) no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, para fazer um longo pronunciamento público, transmitido para milhões de pessoas e responder perguntas de diversos órgãos da imprensa nacional e internacional.

Lula discursou por cerca de uma hora e meia, relembrou seus anos de governo e pregou a união entre os brasileiros e não deixou de atacar duramente o ex-juiz Sérgio Moro e a criminosa operação Lava Jato.

“Sei de que fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história [do Brasil]”

O ex-presidente declarou também que ainda espera que Moro seja considerado um juiz parcial, no prosseguimento do julgamento suspenso ontem, na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). 

“Nós vamos continuar brigando para que o Moro seja considerado suspeito, porque ele não tem o direito de se transformar no maior mentiroso da história do Brasil e ser considerado herói por aqueles que queriam me culpar. Deus de barro não dura muito tempo.”

E acrescentou, 

 “Tenho certeza que hoje ele [Moro] deve estar sofrendo muito mais do que eu sofri. Tenho certeza que o [procurador Deltan] Dallagnol está sofrendo muito mais do que eu sofri”

Solidariedade e responsabilidade de Bolsonaro 

Lula iniciou seu longo discurso, se solidarizando com os milhões de brasileiros que sofrem as consequências da política genocida da direita que já matou mais de de 270 mil brasileiros (em números oficiais, sabidamente falsificados).

Falando da perseguição sofrida e do sofrimento do povo, o ex-presidente destacou:

“Sei o que minha família passou. Que a Marisa morreu por força da pressão sofrida… Fui impedido de ver meu irmão falecido…. Tenho razões para estar magoado. Poderia estar magoado. Mas não estou.

“A dor que sinto não é nada diante da dor que sofrem hoje milhões de brasileiros.

“A dor que eu sinto não é nada perto do que sentem os familiares das quase 270 mil vítimas do coronavírus.”

Lamentando a explosão de mortes por Covid-19 no Brasil,  condenou o que considera uma naturalização da tragédia. 

“Noite passada, esse vírus matou quase 2 mil pessoas. As mortes estão sendo naturalizadas, mortes que poderiam ser evitadas se tivéssemos um governo para fazer o elementar”.

Responsabilizando o presidente ilegítimo,  Lula assinalou que frente a gravidade da situação, seria dever do governo federal criar um gabinete de crise, reunindo ministérios, governadores, comunidade científica para “toda a semana, orientar a sociedade sobre o que fazer” e “priorizar dinheiro para comprar vacinas de qualquer lugar”.  Mas afirmou que o não o faz porque “Bolsonaro não sabe o que é ser um presidente”.

E defendeu a vacinação, ao mesmo tempo em que criticou a farsa armada pelos governos Bolsonaro, Doria e muitos outros.

“Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente ou do ministro da Saúde. Tome vacina”

“Vacinamos 80 milhões de pessoas em três meses. Cadê o querido Zé Gotinha? Bolsonaro mandou embora porque pensou que era petista. Mas Zé Gotinha era suprapartidário, era humanista”.

“Radical”,  chamou a lutar pela vacina e por auxílio emergencial

Ao mesmo tempo em que assinalava “não tenham medo de mim”, o ex-presidente se declarou um  “radical por querer ir à raiz dos problemas e construir um mundo justo” e convidou todos 

“a lutar para que nesse País para garantir que todos brasileiros tomem vacina, temos que obrigar que o governo compre vacina e ao mesmo tempo brigar pelo salário  emergencial… por investimentos na infraestrutra… apoio aos pequenos comerciantes…”.

Disse não ver a hora de percorrer o País para conversar com o povo, com todos os setores… para enfrentar os principais problemas da atualidade, como a questão da pandemia (vacina), da destruição da economia nacional, a necessidade de auxílio emergencial e de emprego.

Defendeu a soberana nacional se opondo à entrega da Petrobrás e à autonomia do Banco Central, afirmando que

Eu era contra e sou contra a autonomia do Banco Central. É melhor o Banco Central estar na mão do governo do que estar na mão do mercado”.

Ele se manifestou também contra a ingerência dos EUA no Brasil e na América Latina, defendendo Cuba e Venezuela, alvos de bloqueios criminosos do imperialismo norte-americano e destacando a solidariedade recebida dos presidentes destes países,  Miguel Díaz-Canel e Nicholas Maduro, bem como do presidente Argentino, Alberto Fernández.

Polarização necessária

Questionado se não temeria a polarização política que sua candidatura poderia provocar, contra o bolsonarismo e a extrema-direita, Lula ridicularizou os que – inclusive na esquerda –  defendem tal idéia, assinalando que “o analfabetismo político existe mesmo em gente que tem muita escolaridade”, minimizou o apoio creditado a Bolsonaro, assinalando que esse “tem um público de 15 a 20%”e defendeu a polarização, afirmando que

“Podemos polarizar com quer que seja, desde que a polarização seja entre a esquerda e a direita.  Duro era quando a polarização era da direita com a direita e a esquerda não aparecia”.

Relacionou o crescimento da esquerda, ao avançou da polarização ao lembrar que

“Desde que o PT surgiu, em todas as eleições o PT polarizou, ficando em primeiro ou segundo lugar e eu espere que continue assim”.

Mesmo sem se assumir como candidato, afirmando que os problemas atuais precedem a questão das eleições, Lula falou como quem sabe que a polarização é uma decorrência da própria evolução da crise e com a autoridade política de quem é a maior liderança popular do País e tem o apoio das imensa maioria do ativismo não só dos partidos de esquerda mas também das organizações de luta dos explorados do campo e da cidade, sendo o único capaz de unir a esquerda e criar condições para derrotar a direita e golpe imposto ao País em 2016, com a derrubada da presidenta Dilma Roussef.

Criticas a Ciro, Huck, Bolsonaro

Provocado pelos jornalistas, o “não-candidato” Lula, não poupou seus possíveis adversários de críticas. Além de Bolsonaro não faltaram menções contra o abutre Ciro Gomes (PDT), a quem Lula esculhambou pelo tratamento desrespeitoso dispensado à ex-presidente a quem Ciro chamou de “aborto” e pela entrevista do atualmente pedetista (ex-PDS, PMDB, PSDB, PPS etc.) na qual disse a candidatura de Lula em 2022 “seria um circo”.

“O Ciro Gomes sabe quem eu sou. O Ciro Gomes precisa assumir a responsabilidade que ele é um homem de 64 anos de idade, ele não pode falar as meninices que achava que era engraçado quando era jovem. Se ele quer ser presidente, ele tem que aprender uma coisa: tem que respeitar as pessoas (….) Ele não vai ter apoio da esquerda, não vai ter a confiança da direita e vai ter menos votos que ele teve na eleição [passada]”

Sobre o pré-candidato da Globo e, por hora, tucano, Luciano Huck, que em twiter chamou Lula de “figurinha repetida”, Lula ironizou:

“O Huck? Porra, o Huck está jogando bafo falando de cinco linhas. Pô, fiquei tão chateado, um cara que considero um cara bom de TV, um menino que progrediu na vida, mas ele não conhece figurinha, porque quando ele falou que figurinha repetida não vale nada, ele não sabe que figurinha repetida carimbada vale por um álbum inteiro. Ele não sabe nada”

Mesmo evitando falar em candidatura, não deixou de pedir votos, quando se referiu ao “mercado” em resposta a uma das perguntas da imprensa:

“O mercado quer ganhar dinheiro vendo o povo virar consumidor nesse país? Comendo coisa de melhor qualidade, viajando. Tem que votar em mim. Agora, se quiser ver, às minhas custas, a entrega da soberania nacional, não votem em mim, tenham medo mesmo. Por que nós não vamos privatizar. (…) O mercado quer que eu libere armas? Não vote em mim, porque eu vou distribuir livros, nós vamos gerar emprego e ter carteira profissional assinada”.

Sobre o governo Bolsonaro, o ex-presidente afirmou que sob o comando do atual presidente,

“Este país não tem governo, este país não cuida da economia, não cuida do emprego, não cuida do salário, não cuida da saúde, não cuida do meio ambiente, não cuida da educação, não cuida do jovem, não cuida da menina da periferia… não cuida de nada”

Será que o Bolsonaro não leu nada do que a gente fez?”, ironizou Lula.

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