Lula, Battisti e Paris-Match

Solenidade comemorativa dos 10 anos da reforma do Judiciário

Reflexão sobre Lula e a opinião de um jornalista francês

Carlos A. Lungarzo

18/05/2019

No 28 de abril, li a íntegra da entrevista a Lula que apareceu no El País, mas não senti que eu pudesse fazer um comentário coerente e interessante. O ilustre preso político estava como sempre, lúcido, corajoso, tolerante e sensível aquilo que enraiva ao extremo seus miseráveis e sádicos algozes, que, por falta tanto de inteligência como de caráter, não conseguem quebra-lo. Mas, hoje, lendo um dos assuntos que aparecem anteontem num artigo da famosa Paris Match, decidi resgatar uma pequena parte daquele comentário.

Era, talvez, a única pergunta cujo tema conheço bem dentro de tudo o que foi perguntado a Lula, e à qual respondeu com uma notória naturalidade, apesar do forçado do assunto… Um assunto muito manipulado, no qual ele teve uma única, porém decisiva atuação há mais de oito anos. Aliás, um assunto que nada tinha a ver com o que estava em pauta neste momento (os aspectos da política nacional), inversamente ao que aconteceu com outras perguntas da entrevista que foram feitas dignamente.

Era daquelas perguntas que se fazem para tentar constranger uma pessoa e desconstruir seu discurso. Isto foi evidente até por alguém tão alheio ao jornalismo como eu. Mas, Lula respondeu com tranquilidade e, mesmo assim, deu a mesma resposta que hoje li em Paris Match: refiro-me, é claro, ao caso Battisti.

P. Como o senhor viu a declaração do Battisti depois de extraditado, admitindo ter participado de quatro assassinatos. Se arrependeu de deixar ele viver no Brasil?

R. Não me arrependi, porque não sabia [,,,] Aliás eu não conheci o Battisti, porque acho que eu não fazia parte da turma que ele tinha confiança.

Vejam que interessante. Em vez de sentir-se desconfortável por Cesare não ter enviado a ele um agradecimento (coisa que eu fiz por ele), Lula tem a modéstia de dizer, com outras palavras, que Battisti não se aproximou dele porque não se achava íntimo.

Em realidade, o Lula, grande conhecedor das pessoas, parece ter percebido algo que acontece com muitos perseguidos e exilados, embora ele nunca tenha sido concretamente exilado. Cesare foi um caso raro de alguém que foi perseguido com sanha infinita durante 40 anos, incluso no único país onde havia recebido uma condição definitiva de residente. Tenho a impressão que, em sua resposta, Lula entendeu o que realmente aconteceu com ele:

Tendo em conta aquele histórico, Cesare não queria comprar brigas com outras pessoas, para não tornar sua posição difícil. O fato de ter recebido apoio incondicional da maioria do PT (o que podemos chamar “a esquerda do PT”) o podia colocar em situação frágil frente à esquerda antipetista. Fez um esforço para ser neutro, mas não tenciono elaborar sobre essa neutralidade.

Nem sempre é possível imaginar a angústia que acomete um refugiado quando pessoas que são (real ou supostamente) de sua própria ideologia querem prestigiar-se com sua causa, mesmo colocando-o em risco. Também é grande a angústia quando um exilado (mesmo que não seja tecnicamente refugiado) é questionado por seus amigo por receber favores de quem esses amigos consideram um “traidor” a sua causa (que, muitas vezes, é uma causa apenas virtual).

Durante meu voluntariado no ACNUR no final da ditadura brasileira, devi alojar em minha casa de Campinas refugiados argentinos da área sindical, que passavam difíceis momentos de convívio com refugiados que estavam numa moradia alugada pela ONU, onde eram discriminados por outros refugiados oriundos da luta armada que os acusavam de traidores. A situação durou várias semanas até conseguimos embarcar ambos grupos para a Escandinávia, alguns para a Suécia, outros para a Noruega, pois, nem sob a perseguição mais feroz do planeta naquele momento, a solidariedade podia sobrepor-se ao sectarismo.

Voltando à entrevista de El País, vários amigos e amigas das velhas lutas contra a ditadura de Figueiredo se sentiram incomodados pela suposição de que Lula não teria dado proteção a Battisti se ele tivesse confessado isso naquela época.

Foi um ex-ministro de Lula quem sugeriu isso, e não ele próprio. Aliás, quando Lula disse “não me arrependi porque não sabia” não afirmou que “se tivesse sabido, não teria ajudado Battisti”. Saber que Cesare ia a confessar era condição necessária para se arrepender, mas não suficiente. Meus filhos, que são anteriores à Escola sem Partido, aprenderam isto na terceira série. Quem duvida da diferença pode perguntar a Olavo de Carvalho, que diz ser conhecedor de lógica.

Mas, há um ponto ainda mais interessante: mesmo em sua condição de perseguido com inusitada crueldade pela gangue do Lava-Jato, mesmo sido obrigado a sofrer humilhações nos momentos de perdas de seres queridos, mesmo sendo provocado por algum dos entrevistadores (não sei qual, porque li várias vezes a entrevista, mas não assisti o vídeo para não amargurar-me) Lula pensou, como sempre fez, nos outros. Neste caso, em Battisti.

Lula arriscou sugerir que Battisti poderia ter sido torturado, uma afirmação corajosa para ser feita para alguém que está nas mãos dos sádicos insanos do alto judiciário e da Lava-Jato. Como todos sabem, quando se fala em tortura, seja onde for, a polícia, os promotores e os juízes sempre o entendem como uma provocação contra eles. Não é que se ofendam por serem considerados torturadores (em realidade, eles se orgulham), mas não aceitam que o fato se difunda. E Lula está 24 horas por dia sob a vigilância dos juízes de plantão e dos policiais.

É aqui onde entra o artigo de Paris Match.

www.parismatch.com/People-A-Z/Cesare-Battisti

No número de Match que está no link acima, o célebre jornalista Gilles Martin-Chauffier escreveu um artigo intitulado Pourquoi Cesare Battisti reste mon ami (Por que Cesare Battisti continua sendo meu amigo). Gilles é uma figura de um tipo inexistente no terceiro mundo, mas comum na Europa, na Austrália, e até nos EUA e o Canadá.

Ele não gosta da esquerda, mas é um cara de centro-direita honesta e nostálgica, um entorno político que a gente nunca viveu. (Até a época do impeachment, eu acreditava conhecer um e até fiquei amigo dele, Hélio Bicudo, porém, durante o impeachment percebi meu erro.) Esse tipo de direita é a que acredita possível viver ao mesmo tempo numa sociedade capitalista e justa, uma proposta cuja contradição é difícil perceber desde a maravilhosa Paris.

Gilles lembra o que todos sabemos. Que mesmo estando Cesare preso na Itália, com o caso dos quatro homicídios sendo investigado, em plena histeria policial para encontrar os culpados, ninguém pensou nele, ninguém suspeitou nele. Só cinco anos depois, quando o judiciário precisava cobrir os verdadeiros autores porque alguns deles eram importantes delatores, “descobriram” que Battisti era o autor de todos os homicídios. Ele também lembra que nenhuma das armas encontradas com Cesare era compatível com nenhum dos projéteis encontrados. O Gilles não é nenhuma criança. Têm 64 anos, e acompanhou todos os passos da investigação francesa. No último parágrafo, Gilles diz:

Eu tomo com pinças as frases proferidas numa prisão de alta segurança. As palavras de prisioneiros são sempre palavras obtidas por constrangimento. Fadiga, sinceridade, desencorajamento, remorso, medo, conselho… 40 anos após o fato, muitos fatores podem explicar as afirmações de Cesare. Ele é um amigo e não é quando ele está na borda do abismo que eu vou tirar o braço. [O grifo é meu.]

Um centro-direitista muito ético, sem dúvida, nada a ver com os que traíram seus amigos quando a balança política se voltou contra eles, mesmo tendo compartilhado os privilégios de sua relação quando estavam no poder.

Isto é equivalente ao dito por Lula, mas aqui, assumido por um jornalista famoso, de centro direita, que vive numa sociedade razoavelmente civilizada, e que, como crítico literário, muitos anos antes havia elogiado A Carga Sentimental, como um livro que condenava de maneira radical o terrorismo.

Brasil e os Outros Refúgios

Quero fazer uma observação final. Mesmo tendo sido Battisti um verdadeiro ídolo cultural e social na França, de todos os países pelo que passou, ele só no Brasil teve estabilidade oficial e reconhecimento jurídico como qualquer outro estrangeiro (eu inclusive, que antes não era naturalizado). É verdade que foi alvo de centenas de provocações e tentativas de sequestro, mas nada disso é atribuível ao poder executivo, que o protegeu em todas as situações de perigo. As sabotagens foram feitas por juízes, por um procurador shadow da Lava-Jato, por hooligans ao serviço da direita, pelo nossos jornalismo trash, por militares, e por todos os que comporiam depois os quadros do golpe. A posição de Lula e, depois, da Dilma foram invariáveis.

É verdade que Cesare nunca foi incomodado no México nem na Nicarágua, mas sua proteção veio de amigos políticos, mesmo oficialistas, e não dos chefes de Estado. Na França, onde Battisti viveu o máximo de sua glória pessoal, Françoise Mitterand (que era um socialista cristão, e não um marxista) deu ampla acolhida a todos os italianos, mas nenhum deles foi oficialmente registrado frente ao Conselho de Estado.

O único empenhado realmente em afastar os refugiados das garras da Itália foi Lionel Jospin, considerado um lúcido intelectual de esquerda, um marxista desde a adolescência e membro da OIC. Mas, em 1995, ele perdeu o segundo turno por 5,4% dos votos, e o presidente eleito foi Chirac. Jospin foi eleito primeiro ministro em 1997, e logo em seguida prometeu toda sua ajuda aos italianos, mas só o presidente Chirac, de direita, poderia assinar um documento oficial válido como política de Estado. Também não o tinha feito Mitterand, considerado de esquerda. Chirac, com tudo, tentou remediar o estrago facilitando a fuga de Cesare para o Brasil.

Dos países da esquerda terceiro-mundista, dois tiveram pelo menos a honestidade de dizer que temiam a reação da Itália. No terceiro, Evo Morales montou uma armadilha fatal, todo por alguns fujões de gás que sequer foram comprados por seu “irmão” Bolsonaro, aquele que acha os latinoamericanos uma mulambada.

Os únicos que tiveram uma posição tão digna quanto a de Lula, foram José Mujica e sua esposa Lucía. Contudo, o “Pepe” já não era presidente, e Lucía, a vice, não pôde convencer Tabaré Vásquez a dar refúgio a Cesare. Seus esforços foram muito sinceros, e parecia até mais angustiada que nós quando nos informou da negativa de Tabaré.

Fazendo breve: tanto na teoria como na prática, ninguém deu a Cesare uma proteção tão completa como Lula fez. E isso foi feito num país muito mais complicado que todos os outros, minado pelas sabotagens e provocações de uma das direitas mais fascistas do Ocidente e, hoje, a mais fascista de todas.