O voo do tucano
Mirando suas possibilidades eleitorais em 2022, o apresentador de televisão da Globo se envolveu numa típica campanha de compra de votos junto à população mais pobre.
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Luciano Huck no Fórum Econômico Mundial em janeiro de 2020. | Foto: World Economic Forum/Ciaran McCrickard/Fotos Públicas.
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Luciano Huck no Fórum Econômico Mundial em janeiro de 2020. | Foto: World Economic Forum/Ciaran McCrickard/Fotos Públicas.

A campanha não oficial para as eleições de 2022 já está a pleno vapor. A direita tradicional segue com as mesmas práticas de sempre para manter o maior controle possível sobre o processo eleitoral. O candidato em potencial da Rede Globo, Luciano Huck, virou notícia essa semana por uma campanha divulgada pela rede social WhatsApp.

Durante o ano de 2020, o “tucano” Huck foi garoto-propaganda da campanha “Zap do bem”. Justamente num ano de eleições municipais, mais despolitizadas do que as estaduais ou federais, o apresentador de televisão aparecia em vídeo oferecendo um auxílio de R$ 200,00 para moradores de bairros pobres no nordeste.

A ação inviabilizaria potencialmente uma candidatura do tucano nas eleições municipais, porém esse não é o alvo do voo de Huck. Como as eleições presidenciais ainda estão longe, foi uma operação segura de compra de influência.

Conforme verificado pela jornalista Denise Assis, dos Jornalistas pela Democracia, em matéria publicada pelo Brasil 247, a campanha utilizou cadastros feitos por ONGs que atuam em diversos bairros pobres. A jornalista entrou em contato com o número utilizado para disparar as mensagens simulando interesse em receber o auxílio.

Denise descobriu que os cadastros haviam sido realizados até novembro, por essas ONGs, e o dinheiro repassado através de “empresas parceiras” para uma espécie de “conta digital” no aplicativo da rede social. As pessoas não recebiam o dinheiro em mãos, mas podiam utilizá-lo para pagar contas.

O projeto teria sido idealizado pela operadora de telefonia Oi e teve como “parceiros do projeto” figuras como Luciano Huck, Whindersson Nunes, Marcos Mion. Os valores teriam sido levantados junto a empresas e empresários comovidos com o sofrimento da população pobre. Ainda na mesma ligação, a jornalista recebeu uma estimativa de que cerca de 10 mil famílias haviam sido beneficiadas pelo projeto.

Mais detalhes expõem um pouco mais a empreitada. Não era necessário ter conta no banco, até porque os R$ 200,00 não seriam transferidos para lá, tratava-se de uma conta digital. O atendente explica que a empresa, chamada Conta Zap era uma espécie de banco digital, que funciona pelo WhatsApp.

Além de se promover como um “salvador do povo”, preocupado em ajudar a população pobre a receber dinheiro, Luciano Huck ajudou numa manobra que beneficiava as duas empresas envolvidas, a Oi e a Conta Zap. A primeira ganha dinheiro com as cobranças pelo serviço de telecomunicações e a segunda com as taxas cobradas nas operações financeiras.

No site da empresa de “banco virtual” encontramos aquele já conhecido discurso da modernidade da ferramenta, com frases de efeito como “mais autonomia, menos burocracia” e “o poder financeiro está ao seu alcance”. Cada uma das pessoas que recebeu os R 200,00 teve que abrir uma conta de banco alternativo, tendo todos os dados cadastrados, uma manobra para inflar artificialmente o número de clientes da empresa e fornecer um precioso catálogo de informações que pode ser vendido para empresas de propaganda.

Além das pessoas físicas, o empreendimento também mira os comerciantes, que para venderem para essas pessoas precisam abrir uma conta também. Aliás, uma das estratégias de propagação do serviço vendido é o “indique e ganhe”. Um cliente recebe um “bônus” de R$ 2,00 para cada novo cliente indicado. Este, recebe R$ 5,00 na nova conta. Através de valores baixíssimos, a empresa amplia seu cadastro.

Já Luciano Huck, que tem sondado através de pesquisas de intenção de votos encomendadas suas possibilidades eleitorais, teve um meio de propaganda privilegiado para comprar votos, numa região marcada historicamente pelo controle eleitoral exercido pelos coronéis. Realizou uma espécie de campanha eleitoral antecipada.

Um passo muito provável da operação, que pode escolher o apresentador como o candidato da direita tradicional (da frente ampla, apoiada por setores da esquerda) contra o gerador de crises Bolsonaro, serão as pesquisas eleitorais nas regiões agraciadas pela generosidade dos empresários envolvidos. Se funcionar, o mesmo consórcio pode operar novamente em diferentes cidades e bairros.

Essa plataforma se soma à toda a máquina de propaganda da Globo, que já se especializou em interferir nos processos eleitorais no Brasil, eleição atrás de eleição. A elevada exposição do apresentador, que conta com programa semanal e figura em diversas peças de propaganda dos patrocinadores da emissora.

Huck é uma das possibilidades levantadas pelo bloco mais tradicional da direita, que procura manobrar para retomar o governo federal do improvisado Bolsonaro. Sendo uma figura conhecida da imprensa burguesa nacional, o apresentador de televisão tem recursos para se apresentar como uma opção mais civilizada em comparação ao grotesco e assumido fascista.

Quando mais limitado for o processo eleitoral, melhor para a direita tradicional. Incapaz de mobilizar de verdade a população, esses grupos contam com seus métodos já consagrados, como a compra de votos e a manipulação da opinião através dos seus monopólios da comunicação.

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