Livro sobre Henfil mostra a resistência do cartunista à ditadura

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Henrique de Souza Filho, mais conhecido como Henfil, foi um importante cartunista, cujas expressões artísticas produzidas foram inspiração para o professor Marcos Silva, que atua no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). A partir de seu inspirador, produziu o livro “Rir das Ditaduras – Os Dentes de Henfil (Fradim – 1971/1980)”.

Em seu escrito, Silva retoma sobre a vida e obra do importante militante, morto há 30 anos. Ao expor sobre os quadrinhos de Henfil, o professor mescla entre a exposição de alguns, bem como clarificando sobre os significados que esses quadrinhos tinham. Além disso, faz também importantes conexões entre o período histórico vivido por Henfil e o contexto atual. Faz uso também de uma linguagem que prende e aguça o leitor.

A relação entre Silva e o humor gráfico, porém, não vem de agora. Ainda em 1981, focou seus estudos na questão do riso, presente nas revistas brasileiras do século 20, com ênfase no semanário Fon Fon. As revistas também foram inspiração para sua tese de doutorado, na qual o estudante se ocupou da análise do personagem Amigo da Onça (Péricles Maranhão), que surgiu nos anos 40, na revista O Cruzeiro. Ambos estudos resultaram em livros publicados: Caricata República e Prazer e Poder do Amigo da Onça.

Seu interesse em estudar sobre Henfil e suas produções começou em 1992. Silva relaciona o período vivido por Henrique de Souza Filho com o seu contexto. Para Silva existe uma grande preocupação com os “neofascismos cotidianos”, que são os discursos de afeição aos regimes de repressão e autoritarismo. Períodos esses nos quais acontecimentos negativos marcaram a história do país, como a chacina da Candelária e o massacre do Carandiru. Henfil foi um importante militante e combatente da ditadura e Silva se identifica com sua atuação.

Essa afeição se faz ver em seu objeto de estudo: a revista Fradim, que circulou entre 1971 e 1980, totalizando 31 volumes. A expressão do humor, provocativo e refinado, de Henfil está nos personagens Baixim e Cumprido, além trio do Alto da Caatinga, expresso pela ave (Graúna), o cangaceiro (Zeferino) e o bode (Orelana). Além do riso, o objetivo de Henfil era provocar a reflexão. Silva seleciona algumas das revistas, que tratam de variados temas como preconceitos a homossexuais, mulheres, doentes mentais e idosos, além do violento período da ditadura militar.

Para tratar sobre a masculinidade, bem como questões voltadas a sexualidade, Silva se utiliza da série “O crepúsculo do mixo”, que é protagonizada por Baixim, um personagem de personalidade vulgar, mas que se faz possível, ao analisá-lo, transcender os limites do humor e compreender o momento político da época, bem como o comportamento social tido como normal. Além dele, Silva se ocupa da análise do trio (Alto da Caatinga, Zeferino e Orelana), onde Henfil traz as problemáticas das relações de poder entre eles, além dos esteriótipos produzidos.

As expressões artísticas, de todas as formas, sempre foram fundamentais para a compreensão de importantes períodos históricos. Ao se ocupar do estudo de Henfil, Silva traz a importância de se entender os acontecimentos passados, e suas consequentes manifestações culturais, para assimilar e atuar nos eventos atuais.