Ofensiva do latifúndio
Líder sem terra do Pará afirma: “sei que vou morrer”
Há uma ofensiva violenta dos latifundiários contra os integrantes da luta pela terra. Diante das ameaças é necessário lutar pelo armamento dos trabalhadores e comitês de autodefesa
Maria Márcia Elpídia de Melo
Ofensiva do latifúndio
Líder sem terra do Pará afirma: “sei que vou morrer”
Há uma ofensiva violenta dos latifundiários contra os integrantes da luta pela terra. Diante das ameaças é necessário lutar pelo armamento dos trabalhadores e comitês de autodefesa
Maria Márcia Elpídia de Melo em sua residência. Foto: José Cícero da Silva. Agência A Pública.
Maria Márcia Elpídia de Melo
Maria Márcia Elpídia de Melo em sua residência. Foto: José Cícero da Silva. Agência A Pública.

A liderança dos trabalhadores sem-terra do Pará, Maria Márcia Elpídia de Melo, que também é presidente da Associação dos Produtores e Produtoras Rurais Nova Vitória, do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Terra Nossa, deu uma entrevista para ao sítio A Pública, onde relata a sua situação e de outros companheiros diante da ofensiva dos latifundiários após o golpe de Estado em 2016 e após a subida de Bolsonaro a presidência da República.

O assentamento Terra Nossa se encontra em uma região de enormes conflitos de terra e de extrema violência contra os trabalhadores sem-terra, indígenas e quilombolas, que são os municípios de Novo Progresso e Altamira.

Maria Márcia está sendo ameaçada de morte por ser uma liderança que luta contra os latifundiários que adentram no assentamento e realizam as maiores barbaridades. As invasões ocorrem desde retirar madeiras, forçar famílias a venderem seus lotes e de assassinatos de outros trabalhadores dentro do assentamento realizado pelos latifundiários.

A situação é tão grave, que a liderança teve que esconder seu filho, que evitar visitar para que os latifundiários não tomem nenhuma medida violenta contra seu filho. “Eu sei que eu vou morrer. Eu me conformo com a minha morte. Eu só não quero que matem meu filho”, “Eu sei onde ele tá, mas eu não vou visitar com muito medo de alguém me seguir e matar ele. Não deixo ele chegar muito próximo de mim pra evitar”, disse Maria Márcia.

Um levantamento realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o assentamento foi palco de 5 assassinatos oriundo da luta contra os latifundiários e em 2018 houve três mortes com a ofensiva da direita dentro do assentamento. O Assentamento foi duramente impactado pelos incêndios na Amazônia realizado pelos latifundiários com o apoio do governo Bolsonaro, numa clara tentativa de intimidar e destruir as plantações das famílias, para inviabilizar a permanência destes em seus lotes.

O vice-presidente da associação, Antônio Marcos Lacerda, também está ameaçado e quase foi assassinato em uma emboscada. Só não foi morto porque seus companheiros perceberam a ação e entraram em confronto com os pistoleiros. “Eu estava num comércio [dentro do assentamento] e o cara pediu pra falar em particular comigo. Eu disse que não ia. Aí ele falou: ‘Pois eu tô ganhando é pra te matar’. Aí eu falei: ‘Pois então você vai me matar aqui mesmo, porque eu não vou sair’”, relembra. O pistoleiro buscou então uma espingarda, mas foi interpelado pelo genro de Antônio, que conseguiu tomar a arma e evitar o pior. “Foi por causa de negócio de terra também”, disse Lacerda ao sítio A Pública.

Os relatos são que as forças policiais e até o Ibama estão envolvidos nos conflitos e que os sem-terra estão abandonados à própria sorte, inclusive os ameaçados de morte.

Essa situação relatada na reportagem pode ser extrapolada para outras regiões do país e se agravou após o golpe que derrubou Dilma Roussef e após Bolsonaro ser colocado na presidência.

Os anos de 2017 e 2018 foram recordistas em mortes de trabalhadores sem-terra, indígenas e quilombolas em decorrência dos conflitos no campo, sendo que em 2018 esse número foi maior entre lideranças.

Em Eunápolis, no Extremo Sul da Bahia, famílias sem-terra estão sendo ameaçadas constantemente por pistoleiros contratados pela empresa Veracel Celulose. Nove trabalhadores foram presos por se defenderem dos pistoleiros contratados pela empresa Veracel e ainda são ameaçados.

Em Santa Catarina, grileiros de terra a serviço da especulação imobiliária invadiram a Terra Indígena (TI) Tarumã e ameaçaram os indígenas, loteando suas terras. Com ameaças de “vocês são Paraguaios, a terra não é de vocês, nós nascemos aqui” e “se pisarem aqui, vamos meter bala”, invadiram a terra indígena a serviço da organização fascistóide Associação de Proprietários Interessados em Imóveis nas Áreas de Reservas Indígenas no Norte de SC (Apis).

Em Valinhos, interior de São Paulo, 15 integrantes foram atropelados por um bolsonarista que jogou sua picape em cima de uma manifestação e acabou assassinando Luis Ferreira da Costa, de 72 anos, integrante do MST que foi vítima do atropelamento. Um caso semelhante ocorreu no Rio Grande do Norte onde o militante do MST ficou hospitalizado.

No município de Rio Pardo de Minas, norte de Minas Gerais, 30 famílias do acampamento Bela Vista, sob coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), foram atacadas sem o menor pudor dos latifundiários que estavam na área e ficaram tranquilamente até destruir todos os barracos dos sem-terra.

O assassinato do cacique Emyrá Wajãpi por garimpeiros que invadiram a Terra Indígena Waiãpi, no Estado do Amapá, onde as investigações da PF contradizem laudos da própria PF, Funai e polícia civil, e afirma que o cacique morreu afogado.

São tantos casos que fica difícil de elencar e a matéria ficaria com muitas páginas sobre denuncias de assassinatos e violência no campo. Na maioria desses casos com apoio dos órgãos do governo, da justiça e das forças policiais. Fica evidente que esses setores de luta pela terra estão lutando contra a direita que tomou o poder de maneira fraudulenta e fruto da perseguição a esquerda, e que colocou Bolsonaro no poder.

Os trabalhadores do campo só podem confiar a sua segurança em seus próprios pares e a necessidade de comitês de autodefesa formado pelos menos trabalhadores, sem-terra, quilombolas e indígenas. Outro direito fundamental dos trabalhadores que a direita retirou é do armamento. Os que lutam pela terra e suas lideranças ficam à mercê da violência dos latifundiários que estão fortemente armados, seja por pistoleiros, policiais contratados ou empresas de segurança privada que nada mais são que empresas de fornecimento de pistoleiros.

O direito ao armamento dos trabalhadores é fundamental para impedir as mortes no campo e a atuação desenfreada do latifúndio. É a única maneira de garantir a defesa diante de tamanha ofensiva dos latifundiários.