Levantamento começa a identificar o que os golpistas destruíram com incêndio no Museu Nacional

museu incendio

O golpe de 2016 é criminoso de muitos modos: por entregar nossas riquezas e recursos para empresas estrangeiras; por retirar direitos dos trabalhadores com votos comprados no Congresso Nacional; por colocar a população em risco permanente; por criar uma crise artificial e empobrecer o país, em particular os cidadãos com menos condições materiais; por colocar as crianças em risco, ao retirar investimentos em vacinação, por exemplo; por promover o apartheid, inclusive com uma intervenção militar que visava constranger, humilhar e violentar as populações da periferia do Estado do Rio de Janeiro; por roubar do orçamento mais da metade de seu valor para entregar aos credores da dívida interna; entre outras ações talvez ainda mais criminosas.

Um crime específico, que é especial não por ser pior que os demais, mas porque revela uma faceta do golpe e dos golpistas, é aquele cometido contra a área da cultura. É quase um crime de ódio, pois a motivação escancaradamente não é apenas monetária, pois é uma área que, infelizmente, recebe pouco do Estado, mas ideológica. Depois dos estudantes e suas ocupações, os agentes culturais, artistas de todas as áreas, foram os que mais abertamente se manifestaram contra o desmonte das políticas do setor, contra a tentativa de extinguir o Ministério da Cultura, contra o descaso com o setor, sinalizado pelo desinvestimento, chamando a atenção para as mazelas do desgoverno.

Provavelmente, porque muitos artistas têm visibilidade e uma capacidade maior de fazer-se ouvir e compreender pela população, são importantes na denuncia do Golpe, na resistência ao Golpe. Não é à-toa que dezenas de artistas foram atacadas abertamente pelo desgoverno golpista e que houve uma tentativa violenta de criminalizar a atividade artística. Lembrando que um dos pilares do golpe, o ex-deputado Geddel Vieria Lima, caiu porque um ministro da Cultura não cedeu a manobras para uso do Iphan para liberar a construção de um edificio com 30 andares, quando só havia autorizado 13. Logo depois vimos o ex-deputado baiano ser acusado e preso, após serem apreendidos mais de 51 milhões de reais em um apartamento emprestado.

A Lei Rouanet, para ficarmos com um exemplo – que é uma espécie de Geni para a direita brasileira, foi motivo de enfrentamentos dos golpistas com parte da esquerda brasileira, a quem acusavam de usar recursos ‘públicos’ para nada produzir. Até uma CPI do mafioso Congresso Nacional foi instalada para constranger artistas, diretores de cinema e teatro, mas como a CPI demonstrou o contrário do que os fundamentalistas de plantão desejavam e, ainda, trouxe à tona o mau uso que empresas como a Globo e produtores de direita faziam do dinheiro arrecadado via isenção fiscal (que é o que a Lei Rouanet prevê), abandonaram-na, embora continuem vomitando inverdades sobre a Lei.

Como também, depois da resistência, desistiu de extinguir o Ministério da Cultura, assim que encontrou o Ministro à altura do ódio dos golpistas, tornaram o ministério em algo inerte, apático e o colocaram a serviço dos aliados com os poucos recursos a ele destinado. Aí entra o crime contra o patrimônio cultural nacional, assim como contra as bibliotecas, museus e teatro. Estão sucateados, abandonados e são malditos a todo momento, inclusive pela imprensa golpista, que entra no jogo para criar na população uma indisposição a tudo que diga respeito a investimento público para a Cultura.

O incêndio do Museu Nacional não foi o primeiro grande crime, mas têm as maiores proporções pelo que destruiu. O levantamento apenas começou, mas já se sabe que foram perdidas todas as peças que estavam no prédio principal (exceto os meteoritos, que resistiram ao calor), o acervo mobiliário do primeiro reinado e as peças herdadas da família imperial. Parte do acervo, que estava em outras áreas parecem terem se preservado, mas ainda não se tem ideia do que efetivamente foi integralmente preservado.

O crime torna-se grave quando consideramos que o museu mantinha sob sua guarda peças que eram únicas. Ele abrigava acervo com 20 milhões de peças, das áreas de antropologia, botânica, entomologia, geologia e paleontologia. Desse montante, cerca de 3 mil estavam expostas ao público, além de uma biblioteca com mais de 474 mil volumes de livros, periódicos e outras publicações sobre ciências naturais, e aproximadamente 2,4 mil obras raras.

A perda de fósseis de dinossauros ou  de Luzia, que é um dos esqueletos humanos mais antigos encontrados nas Américas (e o mais antigo do Brasil, de aproximadamente 11.500 anos), artefatos do Egito Antigo,  como a esquife de Sha-amun-em-su, cantora/sacerdotisa que viveu por volta de 750 a.C, documentos únicos, livros raros, equipamentos de pesquisa, tudo sob risco. Logo saberemos do tamanho do estrago, embora isso não mude o fato de que o descaso e ação golpista pode significar, repetimos, a perda de peças únicas, datadas.

Os golpistas são ignorantes. Essa ignorância somada ao ódio contra o diferente e à resistência popular, na qual se incluem os artistas, resulta em coisas abomináveis e inconcebíveis, como a destruição de mais de 200 anos de história e de peças que remetem a nossa pre-história. O crime é contra a humanidade.