Les Bleus – O racismo à francesa

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A última Copa do Mundo, realizada na Rússia, foi palco de muita discussão política, apesar da insistência de alguns em negar que o futebol tenha interferência política. O fato é que tem, e a relação entre futebol e política é incontestável.

A final da Copa foi marcada pela discussão entre a seleção croata e seus supostos jogadores fascistas e a seleção “multiétnica” da França, com mais de 70% composta de jogadores com descendência estrangeira, a maioria africana.

A tal multiplicidade étnica da França, que fez muito esquerdista torcer para o time imperialista europeu, é uma farsa. A França  que exterminou milhões em suas mais de 15 colônias pelo mundo, a maioria africanas, foi apresentada como um país democrático e civilizado em oposição ao “fascismo croata” expresso em seus jogadores direitistas.
Queria ilustrar o debate desta coluna com um filme que vi recentemente e que mostra como o governo francês tratou os imigrantes naturalizados por meio do futebol.

O filme é o documentário “Les Bleus – Une Autre Historie de France 1996-2016” que trata a seleção de futebol francesa dos últimos vinte anos em consonância com a política do país.

Dirigido por David Dietz, Sonia Dauger e Pascal Blanchard mostra como os franceses, em especial, o governo francês, tratou os jogadores estrangeiros que jogam na seleção francesa neste período.

Entre títulos e fracassos a seleção francesa, em especial, este grupo de jogadores, foram sempre atacados por sua origem étnica.

Os jogadores da seleção foram denominados “Les Bleus”, ou azuis, eram conhecidos como black-blanc-beur,  negro-branco-árabe. Por causa da origem dos jogadores.

Para citar apenas um caso bem significativo do racismo francês, em 1996, o líder da extrema-direita francesa, o partido Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, disse, após a eliminação na Eurocopa, “Os Les Bleus não cantam o hino nacional ou parecem não saber a letra. Acho artificial recrutar jogadores estrangeiros e chamar de ‘seleção francesa’”.

A “culpa” da derrota recaiu sobre o francês de descendência argelina, Zinedine Zidane, que foi  atacado pela imprensa.

Um detalhe é que os jogadores ditos estrangeiros por Le Pen, haviam nascido na França, mas tinham origem africana.

Já em 1998 e 2000 quando a seleção francesa ganhou, respectivamente, a Copa do Mundo, sobre o Brasil, e a Eurocopa. Os elogios vieram e o atacado Zidane virou “herói” nacional.

No documentário o jogador Lilian Thuram, um dos mais politizados dos jogadores, declara “[Essas vitórias] Nos impediu de questionar a sociedade. É como uma fumaça de espelhos”. Mostrando claramente que a questão racial era deixada de lado, momentaneamente, quando a seleção ia bem nas competições.

Mas a fase posterior foi de novas derrotas e novos ataques aos jogadores “estrangeiros”.

Em 2005, as periferias de Paris foram incendiadas por descendentes de árabes e africanos que protestaram contra as péssimas condições de vida dada aos estrangeiros. Na França, é comprovado que um cidadão com sobrenome árabe ou africano tem muito menos chances de conseguir um emprego em relação a um cidadão com nome francês. A semelhança com o racismo sofrido pelos negros e nordestinos no Brasil é bem semelhante.

Na ocasião o então ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, futuro presidente, veio a público dizer  que era preciso “limpar a cidade do lixo das periferias”.

O filme é repleto de depoimentos de jogadores e figuras públicas francesas como os atores Omar Sy e Jamel Debbouze, do ex-presidente da França François Hollande, Dos ex-jogadores Eric Cantona, Robert Pirés, Lilian Thuram e Youri Djorkaeff, dos Técnicos Arsene Wenger e Raymond Domenech e do atacante Olivier Giroud.

No filme é possível perceber como a dita sociedade civilizada francesa atacou em todas as oportunidades os jogadores franceses. Uma das denúncias feitas no filme é o estabelecimento de cotas para jogadores negros e árabes, para não permitir que a seleção fosse de maioria “estrangeira”. E também mostra os ataques sofridos pelos imigrantes por meio de medidas governamentais. O que fica claro é a farsa apresentada pela direita golpista e pela esquerda de que a França é o “berço da civilização moderna”.