Teoria
No texto escrito em 1930, Trótski aponta alguns erros do Partido Comunista e do Partido Social-Democrata Alemão, que fez com que o nazismo saísse vitorioso no país
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Leon Trótski em 1940 com amigos no México. | Foto: Domínio Público

O texto de Leon Trótski começa por fazer um breve levantamento sobre os números que os três partidos – Partido Social-Democrata Alemão, Partido Comunista Alemão e Partido Nacional-Socialista (Partido Nazista) – haviam conseguido na última eleição na Alemanha, o que indicava um breve aumento no número de votos por parte dos comunistas, um gigantesco aumento nos números dos nazistas e a superioridade dos social-democratas.

Sendo assim, Trótski aponta os motivos que levaram os nazistas a terem um aumento tão grande no número dos votos, chegando a conclusão de que a pequena-burguesia do país havia se afastado do dos partidos de esquerda por conta de sua política reformista e sem uma saída real aos problemas enfrentados pela população no capitalismo.

Trótski critica os social-democratas por sua política direitista enquanto governavam a Alemanha, porém, a principal crítica cabe ao Partido Comunista, que, recebendo ordens da burocracia estalinista, havia formulado a teoria do “Social-Fascismo”, na qual todos os partidos que não o Partido Comunista, eram considerados como fascistas que deveriam ser combatidos. Essa política não só paralisou completamente o Partido Comunista contra os verdadeiros fascistas, que vinham crescendo, como fez com que a classe trabalhadora que se encontrava no Partido Social-Democrata não rompesse com sua ideologia reformista.

O perigo fascista paira sobre a Alemanha

A imprensa oficial do Comintern interpreta agora os resultados das eleições da Alemanha [Setembro de 1930] como uma prodigiosa vitória do comunismo, que situaria na ordem do dia a palavra de ordem da “Alemanha soviética”. Os burocratas optimistas recusam refletir sobre o significado da relação de forças revelada pelas estatísticas eleitorais. Examinam o incremento de votos comunistas independentemente das tarefas revolucionárias criadas pela situação e os obstáculos estabelecidos. O partido comunista recebeu por volta de 4.600.000 votos, face aos 3.300.000 em 1928. Do ponto de vista dos mecanismos “normais” do parlamentarismo, o ganho de 1.300.000 votos é considerável, mesmo levando em conta o aumento no número total de eleitores. Mas o ganho do partido fica ensombrado completamente se comparado com o progresso do fascismo, que passa de 800.000 a 6.400.000 votos. De não menor importância para a avaliação das eleições é o fato de a social democracia, apesar das perdas substanciais, reter os seus quadros principais e ainda receber um maior número de votos operários [8.600.000] do que o Partido Comunista.

No entanto, se nos perguntarmos que combinação de circunstâncias internas e externas poderiam fazer virar a classe operária para o lado do comunismo com maior velocidade, não acharíamos um exemplo de melhores circunstâncias para um giro tal do que a atual situação na Alemanha: A saga do Young, a crise econômica, a decadência dos dirigentes, a crise do parlamentarismo, o incrível auto desmascaramento da social democracia no poder. Do ponto de vista destas circunstâncias históricas concretas, a influência do Partido Comunista na vida social do país, apesar do ganho de 1.300.000 votos, devém proporcionalmente pequena.

A fraqueza da posição do comunismo, totalmente ligada à política e funcionamento interno do Comintern, revela-se mais claramente se compararmos o peso social atual do Partido Comunista com estas concretas e inadiáveis tarefas que as atuais circunstâncias históricas colocaram na sua frente.

É certo que o Partido Comunista não contava com ganho semelhante de votos. Mas isso prova que ante a desfeita dos seus erros e defeitos, a direção do Partido Comunista deixou de ter grandes objetivos e perspectivas. Se ontem subestimava as suas possibilidades, hoje ainda subestima mais as dificuldades. Por esta via, um perigo vê-se multiplicado polo outro.

Para além do mais, a primeira qualidade de um autêntico partido revolucionário é a de ser capaz de olhar a realidade cara a cara.

Para que a crise social poda ser conduzida para a revolução proletária, cumpre que, ao lado de outras condições, se dê um decisivo movimento das classes pequeno burguesas na direção do proletariado. Isto daria ao proletariado a ocasião de pôr-se à frente da nação e liderá-la. As últimas eleições revelam – e isto é o seu principal valor sintomático – uma tendência no sentido contrário. Sob a desfeita da crise, a pequena burguesia tem-se decantado não pela revolução proletária, mas pela mais radical reação imperialista, empurrando nessa direção um considerável sector do próprio proletariado.

O crescimento gigantesco do nacional socialismo é expressão de dois fatores: uma profunda crise social, que desestabiliza o equilíbrio das massas pequeno burguesas, e a carência de um partido revolucionário que apareça ante as massas populares como reconhecido dirigente revolucionário. Se o Partido Comunista é o partido da esperança revolucionária, o fascismo é, como movimento de massas, o partido da desesperança contrarrevolucionária. Quando a esperança revolucionária abraça as massas proletárias ao completo, isso empurra inevitavelmente no caminho da revolução consideráveis e crescentes camadas pequeno burguesas. Precisamente nesse plano, as eleições oferecem a imagem oposta: a desesperança contrarrevolucionária abraça as massas pequeno burguesas com tanta força que que empurra importantes sectores do proletariado…

O fascismo na Alemanha tem-se convertido num perigo real, como uma aguda expressão da posição de indefenso em que se acha o regime burguês, o papel conservador da social democracia nesse regime, e a impotência acumulada polo Partido Comunista para derrubá-lo. Quem negar isto, é cego ou um fanfarrão.

O perigo atinge particular gravidade ligado com a questão do ritmo de desenvolvimento, que não depende apenas de nós. O estado febril detectado na curva política com motivo das eleições mostra que o ritmo de desenvolvimento da crise nacional pode decorrer com rapidez. Por outras palavras, o curso dos acontecimentos num muito próximo futuro pode fazer ressurgir na Alemanha, num novo plano histórico, a velha trágica contradição entre a madureza de uma situação revolucionária, de uma parte, e a fraqueza e impotência estratégica do partido revolucionário, de outra. Isto deve ser dito com clareza, abertamente e, sobretudo, a tempo.

Pode ser calculada com antecedência a força da resistência conservadora dos trabalhadores socialdemocratas? Não tal. À luz dos acontecimentos do passado ano, essa força semelha ser gigantesca. Mas na verdade o que mais ajudou à coesão da social democracia foi a política errada do partido Comunista, que achou a sua mais alta expressão na absurda teoria do social fascismo. Para medirmos a resistência real da social democracia, cumpre um diferente instrumento de medida, quer dizer, uma correta táctica comunista. Com essa condição – e não é condição pequena – o grau de unidade interna real da social democracia pode revelar-se em pouco tempo.

Embora de modo diferente, o que foi dito anteriormente também tem a sua aplicação no fascismo: Desenvolveu-se, de uma parte, a partir da instabilidade das condições criadas pela estratégia Zinoviv-Stalin. Qual é a sua força ofensiva? Qual a sua estabilidade? Tem atingido o seu ponto álgido, como nos asseguram os optimistas profissionais [Comintern e partidos comunistas oficiais], ou está apenas no primeiro degrau da escada? Isto não pode ser predito mecanicamente. Pode determinar-se só através da ação. Precisamente em função do fascismo, que vem sendo uma lâmina de barbear em mãos do inimigo de classe, a errada política do Comintern pode produzir resultados fatais em pouco tempo. De outra parte, uma correta política – não em tão breve período de tempo, é certo – pode socavar as posições do fascismo.

Se o Partido Comunista, apesar das circunstâncias excepcionalmente favoráveis, provou a sua impotência para abalar seriamente a estrutura da social democracia com ajuda da sua fórmula do “social fascismo”, o fascismo real, polo contrário, ameaça agora essa estrutura, não já com fórmulas verbais de um falso radicalismo, mas com as fórmulas químicas dos explosivos. Por mais que seja certo que a social democracia preparou com a sua política o florescimento do fascismo, não é menos certo que o fascismo supõem uma ameaça mortal primeiramente para a própria social democracia, cuja força está indissoluvelmente ligada com formas e métodos democrático-parlamentares e pacifistas de governo…

A política de frente unida de trabalhadores contra o fascismo nasce desta situação. Abre grandes possibilidades para o Partido Comunista. Uma condição para o êxito, porém, é o rechaço da teoria e prática do “social fascismo”, cujo dano pode ser quantificado sob as presentes circunstâncias.

A crise social produzirá inevitavelmente uma profunda cisão no seio da social democracia. A radicalização das massas afetará aos social-democratas. Nós teremos que chegar a acordos, inevitavelmente, com diversas organizações e fações social-democratas contra o fascismo, colocando condições precisas aos seus líderes, à vista das massas… Devemos abandonar declarações vácuas sobre a frente unida e voltar à política de frente única consoante com a formulação de Lenine e a sua aplicação constante por parte dos bolcheviques em 1917.

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