Teatro Político
Parte da esquerda prefere imitar a direita a conduzir um política legitimamente de esquerda.
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Renata Souza e Coronel Ibis, candidatos do PSOL a prefeitura do Rio de Janeiro. | Flavia Belchior e Senado Federal

O senso comum vigente no atual regime político brasileiro define alguns conceitos que são sagrados e incontestáveis a tal ponto que mesmo a esquerda tem dificuldade em discutir, um deles é o conceito de democracia. Democracia é portanto algo sagrado, uma verdade universal indiscutível e incontestável, mas afinal de contas, o que é democracia?

Segundo a opinião amplamente difundida pela classe dominante, democracia é o regime político onde todos participam igualmente, onde qualquer pessoa pode votar e ser votado e no qual vigora o Estado Democrático de Direito. Na realidade, pouca importância é dada a igualdade entre os entes sociais ou ao Direito advindo da aplicação equânime da Lei, a ênfase maior é dada a questão da eleição. Portanto, se tem eleição, então é democrático. Mas vejamos esta questão com um pouco mais de atenção.

No Brasil, via de regra, temos eleições a cada 2 dois anos, dessa forma somos um país democrático do ponto de vista do senso comum. O que pouca gente discute é se o processo eleitoral é realmente justo e democrático, ou seja, todos os participantes da corrida eleitoral partem do mesmo ponto e tem as mesmas condições para disputar. A resposta é simples: não, absolutamente não.

A burguesia faz política 24 horas por dia, 7 dias na semana e 365 dias do ano por meio de um poderoso aparato de comunicação sob a forma de jornais impressos, revistas, emissoras de rádio, televisão, cinema e muito mais. Já à classe trabalhadora não é permitido possuir estes meios. A lei eleitoral define um curtíssimo período para o debate político com regras asfixiantes que impedem uma discussão profunda das causas reais dos problemas que afetam a vida do povo.

Vemos isso claramente na campanha eleitoral das eleições municipais onde os candidatos aos cargos de vereador e prefeito são estimulados a apresentarem projetos sobre coisas irrelevantes para solucionar os problemas do povo. Assim nos vemos diante de um circo de horrores onde candidatos caricatos prometem de tudo, de pavimentação de ruas a construção de casas ou escolas. Promessas vazias de conteúdo que levam o povo a descrer na política e se conformar com o seu destino.

O país passa por uma profunda crise política desde que a burguesia, incapaz de conquistar o poder político pelos meios legais que ela mesma estabeleceu, manipulou em 2016 as instituições políticas e judiciais para, através de um golpe de Estado, tomar o poder político. Na sequencia do golpe, incapaz de estabilizar a crise, fraudou as eleições em 2018 para evitar uma derrota eleitoral que reverteria o golpe.

Mesmo com todo seu aparato de propaganda a elite brasileira não consegue consolidar o golpe, o que prolonga a polarização política entre a esquerda, sobretudo o PT, ou melhor, e os golpistas.

Apesar da obviedade deste cenário, uma parcela considerável da esquerda brasileira busca o caminho mais fácil e cômodo de se adequar ao golpe ao invés de combatê-lo. Não para reconquistar o poder político formal, já que nunca o conquistou de fato, mas para ter o direito de fazer parte parte do regime e deter alguns privilégios políticos. Trata-se portanto de uma luta por conquistas pessoais de uma pequena fração de elementos políticos convenientemente situados na esquerda e de forma alguma pode ser considerado uma conquista da classe trabalhadora.

Vemos portanto na campanha eleitoral das eleições municipais, uma total desconexão com a política nacional. Fala-se de toda sorte de futilidades e absolutamente nada sobre o que realmente tem trazido sofrimento ao povo, o golpe de 2016, a fraude de 2018 e suas consequências nefastas para a população.

O povo percebe estas manobras e sabe que a eleição é inócua na solução de seus problemas reais. Dessa forma, vota com as poucas informações que tem, via de regra obtida pelos meios de comunicação burgueses.

A esquerda precisa atuar para denunciar as artimanhas do regime, começando por destruir os falsos conceitos estabelecidos como a democracia burguesa, por exemplo, revelando para a população a natureza ditatorial do regime que perpetua um sistema de exploração e opressão das massas.

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