Polícia racista: jovem negro, jornalista do The Intercept, não tem o direito de ir e vir

Ocupação do Complexo da Maré

Jovem negro estudante na Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e jornalista pelo The Intercept Brasil, Bruno Sousa, foi recentemente abordado e humilhado por membros das Forças Armadas Brasileiras e da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Em uma postagem feita em sua linha do tempo no Facebook, o jornalista demonstra como é o dia à dia da juventude negra no Brasil.

A população do Rio de Janeiro está sofrendo um dos piores momentos de repressão da última década. Se antes do golpe de estado, a situação já era difícil para os moradores da periferia, e particularmente para a juventude negra, depois da Intervenção Militar no Estado carioca no início desse ano, a situação piorou ainda mais.

A cidade vive um clima de terror gerado pelas FAB, que invadem os bairros populares com tanques, helicópteros, caminhões etc. Este diário, junto com o Jornal imprenso Causa Operária, e a Causa Operária TV tem denunciando semanalmente as brutalidades cometidas pelas instituições assassinas da polícia militar e guarda armada dos golpistas, o exército – armado até os dentes. Reproduziremos, nesta matéria a íntegra do texto publicado por Bruno Sousa. Vale ressaltar, antes, de que o texto, assim como o ocorrido, aconteceu no dia da operação militar no Jacarezinho, bairro pobre da zona norte do Rio de Janeiro, onde o jornalista mora.

Bruno Sousa

“Vou contar pra vocês como o racismo me fez chorar hoje com 2 duras em menos de 10 minutos!
Ta rolando operação no Jaca, Exército e BOPE lá dentro, até ai tudo normal (não to naturalizando uma violência que ja é natural, só falando que esse não é o ponto). Um tanque de guerra parado logo na entrada, depois da linha do trem. Os caras do exército que estavam perto do tanque eram todos jovens, no máximo 25, e negros. Quando eles me abordaram e começaram a me revistar eu o tempo todo chamava eles de “mano”, foi muito involuntário, os mano que estavam me revistando parceria com um amigo meu, um moleque que eu trombo na favela, no baile… fiquei pensando nisso enquanto seguia pro metrô, os mano pareciam estar constrangidão de estarem me parando, segui matutando com isso. Quando tava em frente ao Super Market de Maria da Graça, vi um carro da PM vindo na minha direção, eu tava na calçada do mercado então eles não conseguiram vir ate a mim, pensei que ia ficar por isso, ai vi o carro dando meia volta e subindo uma ruazinha que tem em frente a uma pracinha pra chegar de metrô, os fdp pegaram outra rua só pra me pegar de frente, quando eu vi eles subindo ja sabia que iam vir pela outra rua pra me parar. 
A PM é uma piada tão grande que eles montam uma operação pra parar um mlk indo pegar o metrô. Eram 4 PM’s na viatura. Os 4 desceram. Já desceram daquele jeito, um bico (fuzil) apontado pra mim, pistola também, e pra deixar tudo mais irônico o que dirigia foi o mesmo que me parou essa semana. Ja chegou me mandando encostar na parede, abrir as pernas e a minha mochila. Me perguntou 40 vezes pra onde eu ia, se ja tinha sido preso e riu todas as vezes que eu respondia que era universitário.

Eu tava puto, esse cuzao ja tinha me parado essa semana e me parou denovo de sacanagem, eu tava respondendo todo bolado e eles me ironizando p crl. Falei que eles estavam de sacanagem e eles mais uma vez ironicamente falaram que era tudo pra minha segurança.
Debati com os fdp pra crl, mas o pior foi quando eu disse que era jornalista, ai fudeu.
Os caras literalmente riram na minha cara. “Tu ainda ta na faculdade, seu merda, tu não é nada”
Eu fiquei retrucando, falava o tempo todo que não era bandido e eles rindo pra caralho de tudo que eu falava, como se eu fosse um nada, 4 policiais militares. “Se tu fosse bandido ja tava com a cara no chão”
Quando finalmente me liberaram pra ir, largaram minha mochila no chão e mandaram eu seguir, mas nisso ficaram gritando de longe e debochando de mim.
“Vai la jornalista kkkkkkk vai escrever uma matéria sobre nós hoje”
“Adoraria um jornalista dando uma volta de carro com a gente, quer ir não jornalista?” E varias outros bag que eu não ouvi pq botei o fone. Eu me senti na necessidade de desabafar isso só hoje, mas isso acontece todos os dias, TODOS OS DIAS, eu sou abordado e esculachado, independente do bairro, independente da roupa que eu esteja usando, posso ta de smoking. Essa porra obriga os mano a me abordar. Bota preto pra esculachar preto. (Os do exercito, a PM era td branco).
O QUE MAIS ME DOI É QUE NÃO VALE DE NADA ESTUDAR NA MAIOR FACULDADE DE COMUNICAÇÃO DA AMÉRICA LATINA, NAO VALE NADA TER UM TRAMPO FODA NO THE INTERCEPT BRASIL, NAO ADIANTA NADA ESTAR EM UM PROJETO PIKA NO OBSERVATÓRIO DE FAVELA, NEM SER CASADO, TER FAMÍLIA, NEM PORRA NENHUMA, EU VOU SER SEMPRE BANDIDO PRA ELES, EU VOU SER SEMPRE SUSPEITO. 
EU TO CANSADO, A CADA DIA MAIS ODEIO O RIO DE JANEIRO, E O PIOR É NAO PODER FAZER NADA E SABER QUE AMANHA ESSE FDP VAI ME PARAR DNV E ALEM DE ME HUMILHAR VAI ME FAZER DESACREDITAR DE TUDO QUE EU TO CONSTRUINDO E TA SENDO DIFÍCIL PRA CARALHO!
To agoar sentado no banheiro do Intercept, escrevendo isso e chorando um pouco. Fé pra nois pq são tempos difíceis, somos a carne mais barata, pega a visão!” 

O texto revela a situação de terror que vive a classe trabalhadora brasileira. O negro não tem nem o direito de ir e vir, para as forças repressivas do estado capitalista. Já foram diversos assassinatos, casos de tortura e outras barbaridades cometidas desde a intervenção militar no Estado. É um clima de ditadura, e de fato é isso que deve ser denunciado. O que já ficou claro desde os primeiros anos, é que, com o golpe, a repressão e a opressão dos setores populares da sociedade se acentuou. Isso se adiciona às quebras dos direitos democráticos realizadas pelo regime golpista, por meio da polícia e do judiciário.

É importante ressaltar que, neste exato momento, os militares estão se tornando cada vez mais elementos importantes da situação política. E nesse sentido, a experiência do Rio de Janeiro é um laboratório para o resto do país. Os militares já controlam o executivo por meio do General de descendência golpista, Sérgio Etchegoyen, e o Supremo Tribunal Federal (STF), o órgão máximo do judiciário, já que o assessor do presidente da instituição, Dias Toffoli, é o General Fernando Azevedo. Isso sem contar das diversas ameaças realizadas pelo comandante do Exército, o General Villas Bôas; o vice de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão; e diversos outros militares, como os generais Paulo Chagas, Augusto Heleno e assim por diante.

O que aconteceu com o jovem carioca é uma realidade para a maioria dos brasileiros, sobretudo no Rio de Janeiro, onde a repressão aumentou exponencialmente. É diante disso que um partido operário, assim como o coletivo de negros João Cândido, defende o fim da polícia e o armamento da população e a formação de milícias populares de bairro, revogáveis pelo povo e totalmente controladas pela população local. Ao estilo do que os Panteras Negras defendiam, a própria comunidade faz a sua segurança, e não um órgão controlado por uma burocracia ligada às classes capitalistas. Esse é um programa operário, e não da extrema-direita que na verdade defende o armamento dos capachos de latifundiários e das milícias fascistas, contra a população, criando uma série de mecanismos para impedir o direito democrático ao armamento, conquistado pelas revoluções burguesas. Lembrando de que isso só será conquistado por meio da mobilização popular, e não por meio de eleições fraudadas, como as que estão ocorrendo.