Walter Casagrande
Neste final de semana, voltou à cena o ataque moralista aos jogadores, agora a suposta alienação dos atletas, como se em outras épocas a maioria destes fossem revolucionários

Por: Redação do Diário Causa Operária

No último sábado, o ex-jogador e atual comentarista esportivo e político da Rede Globo, Walter Casagrande Jr. em entrevista ao jornal UOL, na coluna UOL Esporte vê TV, expôs sua avaliação de que os jogadores brasileiros são alienados política e socialmente. Casagrande expôs o seguinte comentário: “Falta comprometimento ao jogador de futebol em relação à sociedade e ao que acontece no mundo. Movimentos antirracistas, vacina, homofobia e várias outras coisas para as quais a sociedade despertou e resolveu lutar contra com força e razão, estão sem a voz entre os ídolos do esporte, principalmente do futebol. Eu não vou usar a expressão ‘mais ignorantes’, mas acho que são mais alienados”.

Na entrevista Casagrande isentou alguns jogadores como Filipe Luís, Thiago Silva, David Luiz, Willian, Richarlison, e Igor Julião, do Fluminense dizendo que: “Tem exceções: vemos o Richarlison, por quem tenho uma admiração muito grande, e o Igor Julião, jogador do Fluminense, que eu também gosto muito. Mas é pouco. No universo do futebol, isso é quase nada. Os jogadores atuais são alienados politicamente e socialmente. Só pensam em ter, em ostentar e em comentar reality show em rede social, enquanto o Brasil está pegando fogo, sendo destruído”.

Não é de se estranhar a opinião de Casagrande, pois ela é típica da esquerda pequeno-burguesa brasileira que assim como a direita pequeno-burguesa é moralista. E assim, a classe média julga os indivíduos pelo seu pensamento ou comportamento, não pelo papel que eles desempenham dentro da sociedade. No caso em questão julgam os jogadores por suas opiniões, não pelo desempenho como jogadores de futebol. É de se esperar moralismos da direita pequeno-burguesa, o que é natural e comum, mas com a esquerda pequeno burguesa o fenômeno vem se repetindo.

A pequena burguesia é uma classe que vive espremida entre o proletariado e a burguesia, socialmente ela não tem um objetivo definido, vivendo a flutuar sobre moralismos de um sonho de sociedade, que só existe em suas cabeças. Ao contrário das duas outras classes fundamentais do capitalismo, que, por terem um objetivo concreto, que é derrotar a classe oposta, precisam mover-se de acordo com esse objetivo concreto. A pequena burguesia, por outro lado, não sendo uma classe independente – pendendo ora para a burguesia, ora para o proletariado – e não tendo um regime para chamar de seu ou a aspiração revolucionária para derrubá-lo, desfruta de migalhas que caem da mesa da burguesia, mas em um assento superior ao do proletariado. Em suma: essa esquerda moralista julga as pessoas pelo que elas dizem ou fazem de sua vida, não pelo que elas fazem como sujeitos sociais em benefício ou prejuízo da coletividade.

Deste ponto de vista, não é difícil perceber que o papel de Casagrande não se opõe ao papel da burguesia que o comanda, os donos da Rede Globo entretendo e estimulando este moralismo, que poderíamos dizer, não faz nada, mas na realidade o faz e seu papel social serve de obstáculo para as mobilizações políticas dos trabalhadores e da classe operária no país.

Casagrande e a esquerda pequeno burguesa que se delicia com comentários do ex-boleiro, deveriam enumerar quais são as centenas de craques ou jogadores que tiveram um exemplar papel político no país, talvez assim pudessem aprender que os jogadores de futebol, com raras exceções de geração a geração, não são revolucionários, são boleiros.

Na atualidade, de acordo com números de 2019 da Confederação Brasileira de Futebol são 22.177 jogadores com contratos profissionais, sendo, que ao fim dos campeonatos estaduais estes números diminuem para até 7 mil jogadores, fato este que não vemos a esquerda pequeno burguesa do futebol, levantando bandeiras e defendendo o emprego do boleiro, ah, mas as opiniões…

Na história do futebol, contam-se nos dedos os jogadores, ou craques que tiveram uma ascendência política de esquerda e realizaram uma determinada militância como Reinaldo do Atlético-MG, que inclusive em suas comemorações erguia o braço estendido com o punho fechado, gesto característico dos Panteras Negras, Afonsinho, ex-Botafogo, Tostão, Alex, ex-Palmeiras e Cruzeiro, Sócrates, Wladimir etc. Estes dois últimos, inclusive, junto a Casagrande, fizeram parte talvez do único movimento de um time em sua grande maioria que se mobilizou politicamente, numa defesa da maioria da população, com o movimento Democracia Corintiana, que se levantou num momento de ascensão da Classe Operária Brasileira contra a ditadura militar. Alguns outros jogadores também se mobilizaram ao longo da história, inclusive em época recente alguns se levantaram contra o racismo como o atual técnico Roger Machado, Marinho do Santos, Tche-Tche do São Paulo, Talles Magno do Vasco, Everton Ribeiro do Flamengo, Vinicius Jr. do Real Madrid e até Neymar do PSG.

No entanto, toda esta casta de classe média, que vive a expor as opiniões de boleiros, nas redes sociais ou mesmo na imprensa burguesa é incapaz de lutar contra o golpe de Estado. É vital ficar claro, que assim como em 1980-81, em plena ditadura militar, a politização partiu, não dos jogadores de futebol, dos quais Casagrande fazia parte, mas dos operários do ABC e suas organizações de classe, os sindicatos que começaram a ser bater contra os patrões e os militares nas grandes greves que se iniciaram em fins de 1978. A iniciativa política deve partir das organizações da esquerda, não do jogador avulso de futebol. E está faltando esta iniciativa política da imensa maioria das organizações de esquerda que se encontram em casa enquanto a extrema direita cresce.

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