Guerra das Palavras
A falácia das verdades preestabelecidas: não existe terrorismo, terrorismo é um pretexto para realizar terrorismo.

Por: Redação do Diário Causa Operária

Nas últimas décadas, as ações militares do imperialismo americano em todo o mundo foram justificadas em grande medida por uma pretensa guerra ao terrorismo internacional, assim os EUA estariam prestando um serviço à humanidade defendendo o mundo de gente capaz de terríveis atrocidades. Este discurso não se sustenta pois o significado de terrorismo se perdeu há muito tempo nos discursos recheados de hipocrisia dos políticos americanos, afinal não seria terrorismo o bloqueio a Cuba? E o que dizer da destruição do Iraque, da Síria e do Iêmen? Outra questão que gera muita confusão na esquerda brasileira é a crença de que o partido Republicano seria a face mais belicosa do imperialismo enquanto o partido Democrata seria a sua antítese. Mas será que há fundamento nessa crença? Vejamos mais amiúde esta questão através de uma análise publicada originalmente no sítio internet OPEU (Observatório Político dos Estados Unidos) sobre como os EUA associaram o Oriente Médio à tríplice fronteira em relatórios sobre terrorismo.

Os relatórios em questão são publicações anuais do Departamento de Estado dos EUA que servem como subsídio para que o Congresso decida sobre o orçamento, sobretudo a fatia destinada a gastos militares. Estes relatórios tratam de acontecimentos relacionados a atos, atividades de indivíduos e de grupos ligados ao terrorismo internacional.

Uma vez que os relatórios são públicos, foi feita uma análise detalhada destes relatórios dos períodos do governo George W. Bush e Barack Obama, inclusive com auxílio de software de inteligência artificial que esclarecem a falácia de que o identitário Obama, defensor da democracia, dos negros e das mulheres, ganhador do prêmio Nobel da Paz teria sido um presidente humanitário em contrate ao monstro intervencionista que foi Bush.

A região da tríplice fronteira foi foco do relatório por mais de uma década e meia, o software de IA concluiu que excetuando os nomes dos três países, Argentina, Brasil e Paraguai, a palavra mais recorrente era “terrorist”, esta palavra foi encontrada 92 vezes nos relatórios correspondentes ao período Bush e 192 vezes na era Obama. No campo semântico, a análise dos relatórios demonstrou que no período Obama o tema principal dos relatórios era o financeiro, dando conta da preocupação do Departamento de Defesa em relacionar a região da América do Sul com o financiamento de grupos terroristas.

Obama ganhou o Nobel da Paz em 2009, mas ironicamente foi o primeiro presidente dos EUA a estar em guerra durante todos os dias compreendidos nos 8 anos de seus 2 mandatos, nem mesmo Roosevelt que governou durante a 2ª grande guerra ficou tanto tempo em guerra. Sob Obama, os EUA realizaram a terceira ofensiva contra o Iraque que liquidou o país, consolidou sua presença no Afeganistão, liderou a Europa na invasão e assassinato de Kadafi na Líbia, bombardeou repetidas vezes a Síria, inclusive alvos civis, reduzindo o país a escombros. Obama também manteve o bloqueio desumano a Cuba e realizou diversos atentados e tentativas de golpes na Venezuela.

Síria devastada durante o governo Obama (foto: Bo Yaser)

 

Outdoor em Cuba: “Bloqueio, o o maior genocídio da História) (foto: Abderrahman Ait Ali)

Obama, Bush, democratas e republicanos são todos parte do mecanismo imperialista, se distinguem apenas no tipo de demagogia de seus discursos, trabalham para atrair setores distintos do eleitorado americano mas aplicam a mesma política. Em âmbito internacional, ambos usam a falácia do terrorismo como desculpa para oprimir e esmagar os povos dos países atrasados. No Oriente Médio, o termo serve de pretexto para invadir e pilhar o petróleo, na América Latina é justificativa secundária, junto com o combate às drogas para implementar golpes de Estado a fim de manter no poder políticos comprometidos em manter os países no atraso e submissos.

A chegada de Trump ao poder em 2016, político fascistoide, falastrão, com pouca habilidade no terreno da demagogia, só foi possível devido a profunda crise econômica e social por que tem passado os EUA, crise que se aprofundou em 2008 e radicalizou o eleitorado americano. Trump foi eleito com um discurso nacionalista prometendo defender os empregos americanos contra os imigrantes latinos e de repatriar a indústria que foi buscar mão de obra barata na China e na Índia. Trump também prometia reduzir o orçamento de guerra e chegou a reduzir as tropa na Europa.

Passados os 4 anos de Trump, a burguesia financeira e o complexo industrial militar que controla a política imperialista americana decide retomar as rédeas do Estado. Para isso cooptaram o partido Democrata que tinha como principal pleiteante a candidatura a presidente, o autodeclarado socialista Bernie Sanders. Sanders foi forçado a renunciar de suas pretensões em nome de Joe Biden, ex-vice presidente do belicoso Obama. Joe Biden foi eleito com o apoio de Bush e Obama, de democratas e de uma parcela dos republicanos, de Wall Street e do complexo de guerra, das grandes redes de comunicação incluindo aí as empresas de tecnologia como Facebook, Whatsapp e Twitter.

Joe Biden, assim como Obama e os democratas em geral fazem uso da demagogia identitária, ambientalista e antifascista, mas já se preparam para oprimir ainda mais os países atrasados. Isso já se manifestou com a recente reinclusão de Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo. Podemos esperar um recrudescimento nas ações contra a Venezuela e Irã, a intensificação da política intervencionista e mais golpes de Estado na América Latina.

A luta da esquerda mundial, em particular a brasileira, deve ser pautada numa política própria, independente da burguesia e de seu aparato de comunicação. Neste sentido precisamos ter claro o sentido falacioso do discurso hegemônico: não existe terrorismo, a democracia americana é um falácia, não existe liberdade de expressão na democracia burguesa, não há chances de libertação sem luta, o que há é a luta de classes.

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