Golpe militar virtual
Militares foram peça fundamental para rifar a Frente Ampla do poder, levando assim o regime político uruguaio para a direita com tendências radicalizantes à extrema-direita
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Vázquez, atual presidente, e Manini Ríos: golpe militar virtual tira a FA do poder. Foto: Reprodução |

Por Eduardo Vasco

As eleições no Uruguai foram decididas por uma intervenção virtual dos militares. Em outras palavras, foi um golpe militar virtual. Algo semelhante ao que ocorreu em algumas ocasiões no Brasil, quando os generais – destacadamente Eduardo Villas Bôas e seu famigerado tuíte – ameaçaram o STF para impedir qualquer tipo de benefício ao ex-presidente Lula quando este ainda estava preso ilegalmente.

Foram variadas as formas como os militares interferiram. A primeira foi a criação do partido Cabildo Abierto, no meio deste ano, pelo general Guido Manini Ríos. Ele foi Comandante-em-Chefe do exército uruguaio de 2015 até março deste ano, quando foi exonerado do cargo pelo presidente Tabaré Vázquez por emitir declarações a respeito da política nacional – algo inconstitucional. Esse episódio gerou uma crise política e acendeu o farol amarelo para o crescimento da extrema-direita militar no Uruguai. Logo em seguida, os militares criaram o Cabildo Abierto, para demonstrarem claramente que estavam de olho no poder político.

Manini Ríos conquistou impressionantes 11% dos votos no primeiro turno das eleições, ficando em quarto lugar. Um resultado que pode ser comparado – guardadas as devidas proporções – ao que fez o Partido Nazista na Alemanha no final da década de 1920. Ou mesmo ao PSL de Bolsonaro: um partido artificial, dominado por militares e fascistas, que, de uma hora para outra, alcançou um resultado impressionante nas eleições, chegando à presidência da República e tornando-se a segunda maior bancada partidária na Câmara dos Deputados.

No mesmo dia do primeiro turno das eleições, houve uma consulta pública sobre uma reforma constitucional proposta pela direita para que os militares e policiais tivessem maiores poderes. Se aprovada, a reforma permitiria o aumento do número de militares nas forças de segurança regulares e uma espécie de toque de recolher, bem como uma melhoria na qualidade dos aparelhos de repressão usados pela polícia e pelo exército. Esse referendo serviria de termômetro para as eleições presidenciais: a reforma foi rejeitada, mas por pouco, com 53,89% de votos contra e 46,11% a favor. Mostrou como os militares impuseram um controle sobre as instituições do país, uma vez que a campanha a respeito da segurança pública foi pesadíssima e que, mesmo assim, a grande maioria da população entende que isso é uma campanha pela repressão. Tanto é que, na semana anterior ao referendo, uma multidão imensa tomou as ruas de Montevidéu, com muitas bandeiras vermelhas, rechaçando a tal reforma.

É importante ressaltar que toda a direita uruguaia, mesmo a tradicional e que se diz “democrática”, apoiou a reforma. A direita e a extrema-direita (militar e fascista) voltaram a se unir no segundo turno em torno da candidatura de Luis Alberto Lacalle Pou, do tradicional Partido Nacional – e filho do ex-presidente neoliberal Luis Alberto Lacalle, envolvido na trama golpista latino-americana.

Lacalle Pou radicalizou o discurso em torno da segurança pública, sendo assim levado ainda mais para a direita por pressão da extrema-direita e, logicamente, dos militares.

A Frente Ampla de Daniel Martínez (um candidato à direita até mesmo de Tabaré Vázquez) estava isolada, abrindo-se a possibilidade de, finalmente, apelar às massas trabalhadoras para vencer a direita. Mas, para isso, deveria ter também radicalizado seu discurso para polarizar a campanha e ter chances de derrotar a direita. Mas não o fez, demonstrando de uma vez por todas as limitações dessa frente que mais parece um MDB brasileiro do que um PSUV venezuelano.

A 48 horas do segundo turno nas eleições, quando todas as pesquisas indicavam a vitória de Lacalle Pou, expressando a união da burguesia uruguaia e internacional em torno da direita para rifar a Frente Ampla do poder após 15 anos, Manini Ríos divulgou um vídeo pedindo a todos os militares, de todas as hierarquias, que não votassem, de modo algum, em Martínez.

Ainda na véspera do segundo turno, foram disparadas mensagens automáticas pelo WhatsApp através de uma corrente ordenando que os cidadãos uruguaios votassem em Lacalle Pou. As mensagens diziam, dentre outras coisas: “No domingo se define o futuro de nossa Pátria. Temos que votar em Lacalle para presidente, apoiado pelo nosso comandante general do Exército Guido Manini Ríos. Sabemos quem são e contamos com o seu voto e da sua família para salvar a pátria. É uma ordem! As ordens se acatam, e quem não o fizer será um traidor. Sabemos como tratar os traidores. A única opção é ganhar. Antes cair de costas que de joelhos. […] Começamos a voltar.” O texto ainda continha uma citação bíblica e era assinado por um tal Comando Barneix.

Trata-se de uma nítida e perigosíssima ameaça aos uruguaios. “As ordens se acatam, e quem não fizer será um traidor. Sabemos como tratar os traidores” soa aterrorizante para quem recebeu a mensagem, até porque foi indicado que o Comando Barneix sabe para quem as enviou. E realmente é muito possível que saiba quem são todos os destinatários, uma vez que os militares têm o total controle dos órgãos de inteligência e espionagem. Ou seja: quem não votar na direita, será um traidor. A ditadura militar uruguaia (1973-1985) considerava traidores os que não concordavam com ela, e estes eram tratados de forma semelhante aos opositores da ditadura brasileira: com prisão, tortura, execução, exílio, etc.

Isso tem total ligação com o último exemplo da intervenção feita pelos militares nas eleições uruguaias, que será mostrado a seguir, após esta importante observação: há indícios de que muitas das mensagens do Comando Barneix foram disparadas a partir do Brasil. Isso sugere que a extrema-direita brasileira está fortemente articulada com a uruguaia. Manini Ríos é um admirador de Bolsonaro e veio a sua posse, no início do ano. É quase garantido que os militares dos dois países estejam em estreito contato para decidir os rumos políticos do Uruguai.

Por último, e o mais aterrorizante. Na última sexta-feira, o Centro Militar do Uruguai (o equivalente ao Clube Militar brasileiro) difundiu o editorial da revista Nación, financiada por diversas entidades militares. O artigo ataca violentamente a Frente Ampla e o conjunto da esquerda uruguaia e latino-americana, com uma conotação abertamente fascista e anticomunista. Afirma que os governos da Frente Ampla foram arbitrários e semitotalitários, tacha a Frente Ampla de comunista e marxista, marxismo este que quase teria levado o país à bancarrota.

Os marxistas finalmente deixarão o poder e com eles finalmente irá embora o longo rosário de ofensas à Constituição, a desordem e o desperdício em todos os níveis da Administração, o consentimento e estímulo ao delito, a tentativa clara de destruir a família tradicional, a vontade por degradar as relações sociais na base do ressentimento e de divisões artificiais, a corrupção sem limites que custou ao país bilhões de dólares que foram engrossar contas pessoais ou partidárias, os gerenciamentos obscuros de uma política exterior corrupta e obediente ditada por Havana e financiada com o dinheiro sujo da corrupção venezuelana, os maus-tratos às boas formas, a ordinariedade de vários dirigentes que em sua soberba acreditaram que podiam impor sua crença de sujeira, negligência e más palavras.

Quando o último dos governantes da Frente Ampla deixar o poder veremos o rastro de vários crimes cometidos contra o passado e contra o futuro do país e nos lamentaremos muitas vezes pensando como foi que permitimos tanta maldade impunemente por tanto tempo.

Esse trecho dá calafrios aos uruguaios. Introduz a ambição dos militares em extirpar a esquerda não só do poder, mas da política. E, para isso, é preciso sempre alguma justificativa. A propaganda é a mesma que no Brasil ou em todos os lugares: a corrupção, a subversão dos valores, a imoralidade etc.

E o trecho seguinte explica claramente o que querem os militares uruguaios: estabelecer uma nova ditadura de características fascistas para perseguir e esmagar a esquerda.

O que queremos dizer é:

A lei deve cair não suave mas implacavelmente sobre os corruptos de toda a espécie; cair sobre os que entregaram as ruas e bairros inteiros aos delinquentes para que os administrassem a seu bel prazer, sem nenhuma punição; deve cair sobre os que vilmente venderam em parcelas a política exterior aos interesses da narcoditadura de Caracas; deve cair sobre os que arruinaram as empresas estatais, sobre os que estiveram em negócios obscuros servindo-se do Estado e, principalmente, cair sobre os que, como o atual presidente da República, sistematicamente violaram a constituição e os limites que esta impõe a seu cargo.

O editorial conclui: “No próximo domingo há que selar o caminho de um novo amanhecer. O Marxismo deve começar a ser definitivamente extirpado do horizonte de nosso destino nacional. Viva a Pátria!”

Essas são apenas as demonstrações públicas da intervenção militar nas eleições uruguaias. A aliança de Lacalle Pou com a extrema-direita e os militares mostra que a burguesia de conjunto se unificou e se deslocou para a extrema-direita no Uruguai. O imperialismo decidiu pôr um fim nos governos de conciliação da Frente Ampla e, para isso, fez uso dos militares, sabendo que é preciso uma saída de força para reprimir a insatisfação popular com as políticas da direita que há de surgir inevitavelmente no Uruguai como já está surgindo por toda a América Latina.

Todas essas mensagens comprovam que o governo de Lacalle Pou será em grande medida controlado pelos militares. É muito provável que a reforma constitucional barrada em referendo popular seja aprovada por alguma manobra do novo governo, abrindo assim o caminho para a implementação de uma semiditadura militar no país oriental. Se a situação se polarizar, o regime uruguaio irá cada vez mais para a direita e, levando em conta o poder dos militares no regime golpista brasileiro e na Bolívia, no Chile e no Equador, é possível que eles tomem o poder diretamente em suas mãos no Uruguai.

* O resultado completo da apuração só será conhecido no meio desta semana, porque houve um empate técnico entre os dois candidatos, com uma vantagem de apenas alguns milhares de votos para Lacalle Pou. Mesmo que as urnas deem a vitória apertada para Martínez, podemos esperar com alguma certeza um desenlace parecido com o que ocorreu quando da vitória de Maduro em 2013 na Venezuela, de Dilma em 2014 no Brasil ou de Evo há um mês na Bolívia: a direita utilizou a estreita margem de derrota para dar um golpe. E, no Uruguai, é possível que esse golpe deixe de ser uma intervenção militar virtual para ser uma intervenção real.

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