A intervenção acontece no momento que a situação política se agrava

Ouça o trecho a seguir da Análise Política da Semana onde o companheiro Rui Costa Pimenta analisa que a intervenção militar no Rio de Janeiro acontece em um momento onde a situação política se agrava a ponto de ocorrer uma explosão popular.

“Uma operação dessas de grande envergadura é uma operação que tem uma concepção estratégica por trás. Nós já assinalamos isso. Há declarações de vários comandantes militares de que eles podem intervir. O exército realizou nos últimos três ou quatro meses, centenas de operações GLO que são Operações de Garantia da Lei e da Ordem em todos os estados do país; ocupou o estado do Rio Grande do Norte e controla a Secretaria de Segurança Pública desse estado. E agora ocupou o Rio de Janeiro.

O exército ocupou o Rio de Janeiro no momento em que a situação política fica cada vez mais complicada, por exemplo, vários setores do PT e outros assinalam que o STF estaria dividido em relação à questão da segunda instância. De fato, há essa divisão, não é uma imaginação deles. Logicamente, que nós sabemos que na hora do vamos ver, não é um problema de opinião que vale, chega àquela pressão e o pessoal vota de acordo com os desejos de forças exteriores ao STF, muito poderosos, mas, enfim, vamos supor que o STF deixa o Lula livre. Isso acentuaria o caos na situação política do ponto de vista da direita. Eles não conseguiram até agora montar um esquema eleitoral sólido. Estamos entrando em Fevereiro, estamos no meio de fevereiro, daqui a pouco é o mês de março. E então, quem eles vão lançar? Como é que eles vão fazer? A questão Lula não foi decidida até agora {essa ideia}

Se a tentativa de prisão do Lula dá lugar a uma rebelião popular. É óbvio que a intervenção militar no Rio de Janeiro é a preparação, é um primeiro passo no sentido de uma intervenção militar mais geral que pode inclusive descambar para uma ditadura militar aberta no Brasil. É isso que todo mundo teria que analisar, deixando de lado se… Você vai fazer uma operação desse tamanho por uma mera cortina de fumaça.

Se você vai fazer uma operação desse tamanho para contentar a classe média histérica que morre de medo do crime na cidade. Isso não tem nada a ver, não se trata disso. Haveria muitas maneiras de você fazer as coisas de modo diferente. Inclusive, colocar o exército já no controle da segurança de uma cidade como o Rio de Janeiro tem duas possibilidades muito grandes: primeiro que o exército provoca uma chacina em algumas dessas comunidades das favelas do Rio de Janeiro que estão a ponto de explodir, o que seria catastrófico para o governo golpista e desencadearia uma série de acontecimentos posteriores; segundo que se crie uma reação popular tão forte a medidas de menor impacto que a população venha sentir, que eles sejam obrigados a se retirar. Se eles forem obrigados a se retirar depois de terem dito que isso é a última palavra em termos de garantir a segurança no Rio de Janeiro e no país trata-se de um fiasco, uma desmoralização e aprofundaria a crise geral do estado.

A intervenção é de altíssimo risco, eles teriam que controlar o crime organizado no Rio, dinheiro que existe desde quando Estácio de Sá estava lutando na praia do Rio de Janeiro tem crime organizado. Eles teriam que acabar com isso. Agora, como é que vai ser se não for por uma violência indescritível que também não vai acabar com nada, só vai provocar mesmo violência e escândalo na população? O próprio comandante das Forças Armadas, quando ele ainda não tinha em vista ser esse tipo de coisa ele falou: “não adianta nada mandar o exército, exército é que anestesia: vai lá e acalma a situação”. Depois, você teria que ir lá e corrigir os problemas de fundo. E quem vai corrigir os problemas de fundo? Qual é o plano? O estado de Rio de Janeiro está falido. A situação da população nas favelas é indescritível. Os próprios inventores da guerra contra as drogas já falaram que é uma guerra que não para ganhar porque é uma coisa óbvia: você tem um grupo de traficantes que tem muito mais dinheiro do que a própria Secretaria de Segurança Pública. É uma questão de contabilidade. Como é que você vai ganhar a guerra? Eles têm mais influência social porque têm mais dinheiro; têm mais armas; existe mais pessoal. O pessoal que eles têm é gente desesperada, sem perspectiva econômica que vê no tráfico uma possibilidade de sobrevivência até de ascensão social. É gente que vive na comunidade, conhece a comunidade. Como é que eles vão ganhar essa guerra?

Se o exército entrasse nas favelas do Rio de Janeiro e matasse todos os traficantes que seria um massacre inacreditável, era só o exército sair e surgir outras quadrilhas. Porque várias já foram destruídas, mas as drogas são um motor muito importante da organização dessa criminalidade. Se eles estivessem em mente, por exemplo, legalizar as drogas. Se tivesse um plano para legalizar as drogas, reorganizar as comunidades, coisa que eles não têm porque a política do governo é matar todo mundo de fome, ainda se falaria: pelo menos têm um plano estratégico. Aqui não tem nada disso, e, portanto, a questão da segurança pública é uma besteira. É lógico que não é para isso. Se fosse para isso, as próprias Forças Armadas diriam: “não vou assumir a Secretaria de Segurança, se quiser, nós ocupamos uma favela, você prende meia dúzia de traficante e pronto, eu saio”. Ou seja, se elas estão ocupando, não tem nada a ver com a luta contra o crime. É um problema político e a esquerda deveria estar atenta.”

Esse trecho faz parte da Análise Política da Semana, programa de maior audiência do canal COTV. O programa acontece todos os sábados em São Paulo a partir das 11h30 na rua Serranos, 90 bem próximo a estação Saúde de metrô. Para aqueles que moram longe, podem assistir o programa pela internet no canal Causa Operária TV no Youtube.

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