O famigerado “autoritarismo”
Segundo o portal, a esquerda deveria abandonar qualquer perspectiva de luta radical contra o fascismo e se aliar à direita tradicional, mãe do fascismo
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A revolução é a única forma de derrotar a contrarrevolução. Foto: Lenin. Créditos: Jorge Gobbi |
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A revolução é a única forma de derrotar a contrarrevolução. Foto: Lenin. Créditos: Jorge Gobbi |

O portal The Intercept Brasil publicou artigo intitulado “Elogiar ditadores é a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo”, no qual defende a famigerada tese do “totalitarismo”, que iguala o comunismo ao fascismo, ao mesmo tempo em que promove a ilusão de que o melhor para a esquerda seria formar uma frente ampla com a direita supostamente democrática contra Bolsonaro.

Tatiana Dias e Rafael Moro Martins, autores da peça ridícula, atacam a esquerda que, de alguma forma, reivindica o legado da Revolução Russa de 1917. A esquerda “partidária de regimes autoritários”, assim, estaria se entregando “de bandeja para a direita, que mais uma vez alimentou o fantasma anticomunista que acaba tragando a todos nós”.

Não é que ao contrapor a contrarrevolução bolsonarista à revolução comunista a esquerda estaria combatendo o fascismo, fazendo-o tremer e recuar. Não, na lógica nitidamente liberal e pequeno-burguesa dos autores, a revolução estaria, na verdade, alimentando a contrarrevolução. Seria como se, ao atacar o fascismo de maneira contundente, ao invés de ele se enfraquecer ele se fortalecesse. Algo sem sentido nenhum. É, acima de tudo, uma ideia covarde, advogando que a esquerda rejeite suas ideias e os exemplos revolucionários para que, quem sabe, a extrema-direita deixe de nos atacar. É a mesma lógica, alavancada igualmente por essa esquerda, de que, se o armamento da população for legalizado, quem sofrerá serão os pobres, embora eles possam, assim, ter condições de se armar contra o Estado armado. No final das contas, ao propor que a esquerda não combata a reação com a revolução, os autores bebem da mesma água batizada que aqueles que dizem ser possível vencer os canhões oferecendo flores ao inimigo.

E o artigo, de fato, defende que a esquerda ofereça flores ao inimigo. Mas a inimigo “menos pior”. Impulsiona a ideia da frente ampla, que vem sendo difundida por diversos setores da esquerda burguesa e pequeno-burguesa parlamentar, e pela própria burguesia, para fazer com que as organizações de esquerda fiquem totalmente a reboque dos partidos direitistas sob a desculpa de enfrentar um inimigo mais perigoso, o bolsonarismo.

“Estamos sob um governo fascista. Ponto. A esquerda é múltipla e comporta alas mais radicais e mais moderadas.  Ainda assim, mesmo que tenha gente que siga piamente acreditando que o regime bolsonarista possa ser derrubado com uma revolução do proletariado, o cenário mais pragmático – e evidências de outros países reforçam isso – aponta que o único jeito de derrotar um governo autoritário é formando uma coalizão. Para isso, é preciso que exista gente disposta a abrir mão de certos valores e divergências irreconciliáveis em favor de (muitos) pontos em comum e dar a mão pro amiguinho que não pensa exatamente como nós para disputar o pouco espaço democrático que ainda nos resta”, escrevem.

É a velha e batida política de frente ampla, ou frente popular, com fins exclusivamente eleitorais, para “derrotar o fascismo”, aliando-se justamente com aqueles que criaram e promoveram o fascismo. Ou o PSDB não foi o partido que mais trabalhou para a desestabilização dos governos petistas e, logo em seguida, pela sua derrubada no golpe de 2016?

Os autores citam como algo positivo o exemplo da votação de Marcelo Freixo a favor do pacote anticrime de Sergio Moro. Afinal, esse voto teria ajudado a derrubar “a pior parte do pacote”. Varrem a realidade para debaixo do tapete, uma vez que a pena máxima foi aumentada de 30 para 40 anos de prisão, por exemplo. Belo exemplo de combatividade e de enfrentamento ao fascismo, não?!

O apoio de parcela da esquerda “à ditadura de Nicolás Maduro”, afirmam nossos interlocutores, “também alimentou a paranoia anticomunista”. Mas o que alimenta essa paranoia é justamente o contrário: o ataque ao governo venezuelano, à Revolução Russa e ao comunismo é o que reforça a propaganda da direita. E esse ataque vem exatamente desses setores pequeno-burgueses que encontram eco no artigo do Intercept, que não passa de uma propaganda direitista travestida de esquerdista para enganar os leitores de esquerda mais leigos e tentar convencê-los de abandonar qualquer perspectiva minimamente revolucionária, radical e combativa e entrar na política suicida de ficar a reboque da direita tradicional acreditando que, assim, poderá derrotar o bolsonarismo nas eleições controladas pelos golpistas.

Então chegamos ao ponto que desmascara completamente a que serve esse artigo absurdo. Dizem: “A sociedade polarizada é o que permite que emerjam governos fascistas.” E, alimentando essa polarização, a esquerda “fortalece a narrativa que criminaliza e desumaniza a esquerda como um todo, beneficiando mais uma vez o bolsonarismo e a extrema-direita que se alimenta disso”.

É o medo da polarização. E polarização significa, sim, que a direita vá para o seu extremo. Mas também que o mesmo ocorra com a esquerda e o movimento de massa dos trabalhadores, que é potencialmente muito mais poderoso que a direita. E a burguesia morre de medo que os trabalhadores se mobilizem de maneira radical e revolucionária. Da mesma forma que a esquerda liberal pequeno-burguesa, cujas ideias estão muito bem representadas no artigo mencionado.

Assim, o Intercept ataca o comunismo, tachando-o de um regime autoritário, o colocando no mesmo nível do fascismo e, portanto, o incriminando. Ao mesmo tempo, defende integralmente o regime burguês da direita que incentivou o fascismo, ao propor uma aliança da esquerda com a direita falsamente democrática, na qual a esquerda ficaria inevitavelmente a reboque dessa direita, uma vez que abriria mão de sua política e participaria sem nenhuma arma das eleições controladas pelos golpistas.

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