Mulheres negras
O Instituto Moreira Salles está organizando uma exposição em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus pelo recém-criado conselho consultivo que integram 13 mulheres negras
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A escritora homenageada, Carolina Maria de Jesus | Foto: Reprodução.

O Instituto Moreira Salles (IMS) terá conselho consultivo com 13 mulheres negras que integram o recém-criado conselho consultivo da exposição em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus . Entre as 13 mulheres estão a escritora Carmen Silva e Conceição Evaristo, a  filósofa Sueli Carneiro e a atriz Zezé Motta. Boletim da inauguração da exposição, era prevista neste ano no  IMS Paulista, mas em razão da epidemia da Covid-19, a abertura da mostra foi transferida para junho de 2021.

Considerada um dos grandes nomes da literatura nacional, Carolina Maria de Jesus foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil. Suas milhares de páginas manuscritas, como romances, poemas, contos, crônicas, peças de teatro, canções. Suas obras eram instrumento de denúncia das mazelas sociais, são histórias de luta, superação e sofrimento da mulher negra e moradora da favela, no século XX. A autora foi publicada em mais de 40 países e traduzida para diversas línguas.

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914. Filha de uma lavadeira analfabeta e neta de escravos, a criança foi criada junto com sete irmãos por uma família muito humilde. Aos sete anos ela recebeu ajuda de uma freguesa de sua mãe, Maria Leite Monteiro de Barros, para estudar, então desde essa época já demonstrava o gosto pela leitura e a curiosidade pelo mundo.

Na década de 1930, Carolina trabalha como lavradora e empregada doméstica e aos 23 anos de idade, quando a sua mãe falece, ela segue com destino a cidade de São Paulo,onde é contratada como faxineira da Santa Casa de Franca, e depois empregada doméstica. Em 1948, desempregada e grávida, mudou-se para a favela do Canindé, onde teve e criou seus três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima.

Carolina trabalhava durante a noite como catadora de papel, mas durante o dia escrevia e lia as revistas que encontrava na rua. Então, em 1941 foi a redação do jornal Folha da Manhã com um poema escrito em homenagem a Getúlio Vargas. Logo depois disso, o seu texto e foto foram publicados no jornal. Persistente, continuou enviando os seus poemas para a redação, recebendo o apelido de “A poetisa negra“. Em 1958, o jornal Folha da Noite envia o repórter Audálio Dantas para escrever uma reportagem sobre a favela do Canindé, onde Carolina Maria de Jesus tem sua casa visitada. Ela lhe apresenta o seu diário, que surpreende o repórter com a história. E no mesmo ano, Audálio publicou trechos do texto de Carolina, tendo como consequência inúmeros elogios. 

E em 1960 vem o auge de sua carreira, onde é oficialmente divulgado o primeiro livro de Carolina, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, com edição de Audálio Dantas. O que trouxe-lhe, além do sucesso financeiro, obteve reconhecimento, sendo homenageada pela Academia Paulista de Letras e pela Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo. Porém, esse seu auge não durou muito e logo voltou a condição de catadora de papel, onde em 13 de fevereiro de 1977, no estado de São Paulo, Carolina Maria de Jesus veio a óbito por insuficiência respiratória, com 62 anos de idade.

Veja lista das 13 mulheres que integram o conselho:

– Vera Eunice

– Bel Santos Mayer

– Denise Ferreira da Silva

– Carmen Silva

– Conceição Evaristo

– Elisa Lucina

– Lúcia Xavier

– Mãe Celina de Xangô

– Paula Portinari

– Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva

– Sueli Carneiro

Algumas frases e poemas de Carolina de Jesus:

“Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário.”

“Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: faz de conta que eu estou sonhando.”

“Tem pessoas que, aos sábados, vão dançar. Eu não danço. Acho bobagem ficar rodando pra aqui, pra ali. Eu já rodo tanto para arranjar dinheiro para comer.”

“A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.”

“As crianças ricas brincam nos jardins com seus brinquedos prediletos. E as crianças pobres acompanham as mães a pedirem esmolas pelas ruas. Que desigualdades trágicas e que brincadeira do destino.”

“O maior espetáculo do pobre da atualidade é comer.”

“A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso país, tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos, fraquíssimos. E tudo o que está fraco, morre um dia.”

“Eu classifico São Paulo assim: O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.”

“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.” (Quarto de despejo)

“Não digam que fui rebotalho,

que vivi à margem da vida.

Digam que eu procurava trabalho,

mas fui sempre preterida.

Digam ao povo brasileiro

que meu sonho era ser escritora,

mas eu não tinha dinheiro

para pagar uma editora.” (Quarto de despejo)

 

“Muitas fugiam ao me ver

Pensando que eu não percebia

Outras pediam pra ler

Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava

Para custear o meu viver

E no lixo eu encontrava livros para ler

Quantas coisas eu quiz fazer

Fui tolhida pelo preconceito

Se eu extinguir quero renascer

Num país que predomina o preto

Adeus! Adeus, eu vou morrer!

E deixo esses versos ao meu país

Se é que temos o direito de renascer

Quero um lugar onde o preto é feliz.” (Antologia pessoal)

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