Incontinência e haddaptação

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A reverência de Jair Bolsonaro ao assessor do presidente dos Estados Unidos deixou qualquer brasileiro com mais de dois neurônios de cabelos em pé essa semana. A demonstração de subserviência do capitão foi um aperitivo para acalmar a fome dos estrangeiros enquanto o prato principal não chega. Em janeiro, os generais começarão a desossar o estado nacional brasileiro, confirmando a simbologia da continência do saco de merda: o país está oficialmente à venda.

Enquanto isso, lá nos EUA, o senador democrata Bernie Sanders recebeu o antagonista artificial de Bolsonaro nas eleições, Fernando Haddad. O professor tem se notabilizado pelas suas declarações formidáveis, que vão desde desejar sorte e sucesso a um fascista em sua empreitada, até dizer que “não devemos torcer contra o governo Bolsonaro”. É preciso dar um desconto ao petista, afinal, o homem mal consegue ver que foi vítima de uma fraude. Dizem que quando um regime de exceção se aprofunda, burocratas como ele ficam mais perdidos do que cegos em um tiroteio.

Haddad foi recebido por Sanders para discutirem uma “Internacional Progressista”, uma espécie de movimento de políticos de vários países reunidos com a intenção de “resistir” à ascensão da extrema direita no mundo, em uma cruzada de discursos dentro de instituições controladas pela própria extrema direita. Se a Terceira Internacional, regida pela vacilante batuta do stalinismo, não foi capaz de identificar e exterminar o nazismo na Alemanha antes dele virar governo, imaginem o que nos espera sendo liderados por esses elementos ainda mais moderados.

Na internet, a esquerda compara os dois encontros. Em uma foto vemos Bolsonaro se curvando a John Bolton, e na outra, um Haddad altivo ao lado do senador americano. Infelizmente escapa desta comparação a questão dos interesses materiais implicados nessas reuniões. Eu sei que é difícil para essa esquerda ter sua ideologia sobreposta pela vida real, mas vamos lá. Enquanto nosso futuro presidente sinaliza que os empresários americanos serão bem recebidos na hora de repartir o bolo das riquezas nacionais, o derrotado das eleições de 2018 vai aos Estados Unidos para participar de um movimento de discursos, um movimento ideológico, simbólico, imaterial, toda essa farofada que a esquerda “quebradora de tabus” adora. “O simbólico também importa”, dirão. Toda vez que eu escuto essa frase, tenho pesadelos com jograis e cirandas.

A continência é o prenúncio de uma ação prática. A reunião dos “progressistas” é um falatório que renderá uns debates, que renderão umas reuniões, que talvez renda um congresso na Europa, que sabemos que não apresentará solução prática alguma para o problema. A experiência da luta contra o fascismo no mundo demonstra que uma única coisa é capaz de barrá-los: a ação das massas organizadas. Um estado de exceção não pode ser colocado em cheque através de mera atividade parlamentar. Quem acredita nisso precisa maneirar no tóchico, ou quando menos esperar, vai estar morando numa casa coletiva trabalhando de graça para uma seita de malucos qualquer.

Um dos aspectos mais sintomáticos no embate entre Bolsonaro e Haddad nas eleições era justamente essa relação entre ação e discurso. Bolsonaro era o candidato da suposta ação: prometia agir e “mudar isso daí”, limpando o país dos bandidos vermelhos. Haddad era o candidato do discurso: tentava explicar os fundamentos do tripé macro-econômico em respostas de um minuto e meio.

É claro que esse não foi o fator central da “derrota” do PT nas eleições. O que determinou o resultado foi a prisão política de Lula, e ponto final. Mas as declarações e a política de Haddad e de seus aliados, sua desesperada tentativa de se “haddaptar” ao regime com autocríticas, sua insistência em “resistir” ao governo Bolsonaro de maneira branda e republicana, são incapazes de deter a ascensão do fascismo, e cria um atalho para a próxima derrota da esquerda brasileira.