A política alucinada da Conlutas/PSTU, que acha que Bolsonaro representa os operários e não querem derrubar o seu governo

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A ‘central’ sindical CSP Conlutas, a central de brinquedo que o PSTU criou para chamar de sua, realizou entre os dias 23 e 25 novembro a reunião da sua Coordenação Nacional. Em nota publicada em seu portal, a CSP expressa toda a confusão e oportunismo políticos característicos do PSTU. A nota é longa, e para aqueles dispostos a se aventurar nesta zona política árida, recomendamos toda a leitura. Nesta matéria iremos destacar alguns pontos mais curiosos desta nota da central que já ficou conhecida popularmente como ‘Semlutas’.

CSP Conlutas e o PSTU, em plena campanha pelo “Fora Todos” em 2016.

De uma maneira geral, a nota da CSP não destaca em nenhum momento a gigantesca máquina de fraude eleitoral, a começar pela retirada do ex presidente Lula da disputa. Na realidade, a única vez em que a palavra ‘Lula’ aparece na nota é em uma afirmação, de que a CSP não participará de nenhuma discussão em torno da palavra de ordem “Lula Livre”, sob o pretexto de que se trata de uma política meramente eleitoral! Sim, isso mesmo. As eleições de 2018 acabaram de terminar, as próximas eleições estão previstas (?) para 2020, eleições aliás municipais e, de acordo com a CSP, a luta pela Liberdade de Lula seria uma política meramente eleitoral!

Não há nenhuma denúncia de toda a manipulação eleitoral, na realidade, a nota se refere ao governo Bolsonaro como o ‘governo eleito’ em diversas ocasiões. Como não enxergaram o golpe, como se recusaram e ainda se recusam a defender a liberdade de Lula, sobra como alternativa aceitar a vitória eleitoral fraudulenta de Jair Bolsonaro, que embora tenha como ponto central a perseguição à Lula não se restringiu a apenas isso. Neste parágrafo, destacado à seguir, a CSP revela claramente essa política:

“(…) Cabe-nos, agora, seguir apostando na disposição de luta de nossa classe para defender nossos direitos políticos, sociais, trabalhistas e também democráticos. Devemos, no entanto, encarar o fato de que a maioria de nossa classe que foi às urnas votou em Bolsonaro e, inclusive, que esse fenômeno teve muito peso na classe operária. (…)”.

Este parágrafo em específico merece uma análise em maior profundidade, sobretudo a frase que destacamos em negrito. Primeiramente, a CSP capitula, aceitando mansamente a ‘vitória’ eleitoral de Bolsonaro. A ‘Semlutas’ acaba fazendo então o papel de avalista de toda a fraude eleitoral, dizendo que a “maioria de nossa classe que foi às urnas votou em Bolsonaro“. Acima de tudo, essa frase é um absurdo, uma falsidade total. A classe trabalhadora foi proibida arbitrariamente de votar no seu candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, que vinha liderando com folga, com mais do dobro das intenções de voto de Bolsonaro nas próprias pesquisas da burguesia golpista. Isso levando-se em consideração que Lula já se encontrava preso, sem poder se comunicar e fazer campanha, e debaixo de um ataque duríssimo do PIG, o Partido da Imprensa Golpista. Sem levantar o problema do golpe que foi a retirada de Lula das eleições, falar abertamente que a maioria da ‘nossa classe’ votou em Bolsonaro é um verdadeiro crime político.

Ainda sobre este assunto devemos apontar claramente que é um equívoco extraordinário considerar que Bolsonaro tem um profundo apoio dentro da classe trabalhadora. A verdadeira base bolsonarista é composta por policiais, militares, etc., e é sustentada fundamentalmente pela burguesia e pequena-burguesia. O eleitorado da classe trabalhadora que seguiu Bolsonaro é justamente o setor mais atrasado e desorganizado da classe operária. Apresentar Bolsonaro como um líder popular é, além de uma grande mentira, um fator de profunda confusão no movimento de luta contra o golpe.

Um outro ponto que merece destaque nesta frase é o seguinte. Qual seria a nossa classe a que a CSP se refere? Não seria obviamente a classe operária, já que se trata supostamente de uma Central Sindical? Aparentemente não, já que na sequência a nota afirma que, “inclusive, que esse fenômeno teve muito peso na classe operária.“. Ora, se a maioria da ‘nossa classe’ votou em Bolsonaro, e se a ‘nossa classe’ é a classe operária, qual seria a necessidade de complementar a primeira frase com a segunda? Seria uma redundância incompreensível se se tratasse de algum representante da classe operária. Na realidade, esta frase completa revela que a própria CSP não se vê como representante da classe operária, um deslize que mostra que quando fala em ‘nossa classe’, a CSP não está se referindo exatamente ao povo trabalhador, o operário, mas sim aos setores médios e à burocracia sindical ligada aos sindicatos que estão em sua esfera de influência.

Mas, ainda pior, se é que é possível. A CSP tomou como realidade política a improvisação de última hora feita pelo dirigente do PSTU Zé Maria, que afirmou que a eleição de Bolsonaro seria justamente o resultado da política “Fora Todos!”! Diz a nota: “(…) Avaliamos que o resultado eleitoral foi uma expressão distorcida da indignação contra “tudo”, mas que acabou desembocando no voto na ultradireita. (…)”.

O que podemos concluir desta afirmação? Que a população brasileira teria enfim tirado a conclusão de que todos os políticos burgueses são iguais, aderindo enfim à Palavra de ordem “Fora todos”, embora de uma forma ‘distorcida’, segundo a nota. Se assim fosse, a classe operária brasileira, essa mesma que teria amadurecido ao ponto de questionar completamente o regime político burguês, teria sido infantilmente enganada por Jair Bolsonaro, ele próprio político burguês profissional há mais de 30 anos. Além disso, Bolsonaro se apresenta publicamente como um verdadeiro inimigo da classe operária, atacando negros, mulheres, LGBTs, o povo trabalhador brasileiro em geral. No final das contas, embora seja absurda, esta avaliação tem um certo fundo de verdade. A política de “Fora todos” e a luta contra a corrupção, que são sempre estimuladas pela própria burguesia, grande corruptora de toda a sociedade, conduz ao poder sempre a pior corja de vagabundos direitistas, através de uma ampla campanha de manipulação, arbitrariedades e fraudes.

Quem seria o gênio que poderia prever que a palavra de ordem descabeçada de “Fora Todos!” inevitavelmente jogaria água no moinho da direita, se até mesmo na época grupos fascistas como os carecas do ABC entraram de cabeça nesta política?

PSTU e suas relações carnais com a extrema direita

Há muitos outros aspectos da nota que poderiam ser destacados, mas para evitar que a polêmica com a Central de brinquedos CSP ‘Semlutas’ em torno da nota acabe se tornando maior do que a própria nota, é importante destacar somente mais dois pontos da mesma, na parte relativa ao programa político e as campanhas.

Em nenhum momento a CSP toca na questão relativa à disputa pelo poder político, mantendo-se na linha política da luta pelas pautas parciais, que foram praticamente todas derrotadas no último período. Não coloca o problema do golpe, da liberdade de Lula, de uma luta aberta contra Bolsonaro através da palavra de ordem “Fora Bolsonaro”, na verdade por algum motivo desconhecido este setor resolveu abandonar a política de “Fora Todos” por uma que poderíamos considerar como “Fica Bolsonaro”. Embora este aspecto, o de não apresentar uma perspectiva capaz de juntar todas as lutas políticas parciais em uma grande luta unificadora, seja muito negativo, há ainda a cereja do bolo. O último ponto do programa é justamente: “Não à Corrupção: Punição e confisco dos bens de todos os corruptos e corruptores;“. Sim, companheiros. A CSP ‘Semlutas’ e o PSTU ainda insistem em continuar em uma frente única com o judiciário e a direita golpistas!

Essa linha política de apoio aos golpes do imperialismo em todo o continente latinoamericano, incluindo aí o golpe no Brasil, provocou uma profunda crise no PSTU, que sofreu rachas enormes para o tamanho do partido, chegando a perder de uma vez mais de 700 militantes. A CSP, embora seja uma ‘central’ sindical umbilicalmente ligada ao PSTU, certamente apresenta em seu interior disputas com outros setores da esquerda pequeno-burguesa, como correntes do PSOL, PCB, PCdoB, etc.. Aonde esta política absurda do PSTU vai levar o partido? Até quando eles pretendem mantê-la?Como irão se comportar os outros partidos pequeno-burgueses? Cenas dos próximos capítulos.