Dilema da esquerda
Após 3 anos de crimes e 68 pedidos de impeachment engavetados, será que a esquerda entendeu que as instituições são golpistas?
Rodrigo Maia e Bolsonaro
Bolsonaro e Rodrigo Maia (esperança da frente ampla) | Foto: Reprodução
Rodrigo Maia e Bolsonaro
Bolsonaro e Rodrigo Maia (esperança da frente ampla) | Foto: Reprodução

Em 2018 o Brasil ficou chocado com a eleição de Bolsonaro para presidente da república, sobretudo uma parcela da esquerda, que chamaremos aqui de esquerda “bem-pensante” – aquela que quer pensar justamente o que a burguesia quer que ela pense. Desde a eleição, a esquerda limitou-se a fazer uma oposição parlamentar e a propaganda de que Bolsonaro não teria capacidade para exercer o cargo. Esta propaganda tinha como alvo o eleitor de Bolsonaro e obviamente não surtiu nenhum efeito. Passaram então aos pedidos de impeachment a cada crime e quebra de decorro do presidente. De lá para cá já se passaram 3 anos e 68 pedidos de impeachment se acumulam nas mãos do presidente do Congresso.

* O esquerdista bem-pensante é um pseudo intelectual que acredita que seu diploma de nível superior lhe confere uma inteligência superior capaz de interpretar de forma inequívoca os fatos políticos, no entanto sua principal fonte de informação é a própria imprensa burguesa, que também é a fonte que estabelece seus valores morais, sociais e políticos.

A esquerda bem-pensante não acreditava que um ex-capitão do exército, com um discurso de botequim de baixíssimo nível intelectual, recheado de preconceito e sem nenhum apelo às necessidades populares pudesse chegar ao poder. Como de costume culparam o povo de não saber votar, passaram então a “fazer a autocrítica” e concluíram portanto, que o povo brasileiro é machista, homofóbico e direitista.

A partir dessa conclusão passaram a apostar ainda mais nas instituições burguesas, as mesmas instituições que deram o golpe de Estado de 2016 e fraudaram a eleição de 2018 a partir da prisão do ex-presidente Lula. O primeiro pedido de impeachment veio quando Bolsonaro publicou um vídeo pornô de um homem urinando sobre outras pessoas, uma prática conhecida como “golden shower”. Na postagem, Bolsonaro atribuiu a cena como um fato real ocorrido no carnaval brasileiro, uma flagrante quebra do decorro do cargo. O fato gerou muito burburinho, memes de internet e Bolsonaro foi ridicularizado em programas de TV nos dois hemisférios do planeta, nada além disso.

O episódio do “golden shower” mostrou a Bolsonaro que ele era inimputável diante das instituições e melhorou sua imagem diante de seus apoiadores, a partir daí ele passou a acumular crimes de responsabilidade, quebras de decoro, agressões à imprensa e até crimes comuns como a defesa das milícias e ameaça e incentivo à invasão do Congresso e do STF. Não esqueçamos da comemoração da data do golpe de 64, da cocaína apreendida na Espanha no avião presidencial, da caricata reunião ministerial recheada de palavrões, confissão de interferência na Polícia Federal e xingamento e ameaça a ministros do STF e muito mais.

A cada pixotada de Bolsonaro, um novo pedido de impeachment recheava a gaveta de Rodrigo Maia. Enquanto isso a esquerda bem-pensante desenhava mais uma estratégia infalível, a frente ampla, uma frente com os golpistas de 2016 contra Bolsonaro, uma frente com aqueles que celebraram a prisão do ex-presidente Lula como um gol, todos eram bem-vindos na luta contra Bolsonaro, inclusive o maior protetor de Bolsonaro, Rodrigo Maia, Fernando Henrique Cardoso, João Doria o BolsoDoria e incontáveis outras figuras políticas que o povo já havia descartado na lata do lixo.

A falta de habilidade de Bolsonaro na arte da demagogia e sua falta de entendimento de quem são seus verdadeiros patrões abriu uma crise na burguesia, que colocou a possibilidade de substituir Bolsonaro por um político tradicional na direita. Este movimento ganhou força na pandemia quando se criou uma oportunidade de surgimento de um bloco dito “científico” liderado pelo governador de São Paulo, João Doria, que se apresentava com antítese ao bolsonarismo negacionista. Os científicos não fizeram nada a mais em relação à pandemia do que Bolsonaro, além de discursos, ainda assim atraíram a confusa esquerda bem-pensante, que abdicou de ter uma política própria de oposição a Bolsonaro para se colocar a reboque da direita.

Chegamos a 2021 com uma vitória esmagadora de Bolsonaro na eleição para presidente da Câmara. Arthur Lira, bolsonarista entusiasta, irá substituir Rodrigo Maia. A vitória de Lira se deu quando os deputados do bloco “antifascista”, esperança da frente ampla, se venderam a Bolsonaro. O resultado da eleição na Câmara garante a Bolsonaro um pouco mais de estabilidade, já que Maia funcionava como uma espécie de freio da burguesia aos delírios absolutistas do capitão. A posição da esquerda, contudo, findou numa completa desmoralização e na morte moral da frente ampla.

O fato político mais relevante nesse momento é a crise gerada pelas revelações dos diálogos dos procuradores da Lava Jato que colocam o STF contra a parede para absolver Lula de todos os processos fraudes de que foi vítima, no entanto isso implicaria na necessidade de devolver a Lula seus direitos políticos, o que colocaria a eleição de 2022 em risco para a direita. A direita rapidamente percebeu este cenário e já sinaliza que não terá dúvidas em repetir Bolsonaro em 2022 caso necessário. Isso ficou claro nas declarações de FHC, ACM Neto e Ronaldo Caiado que sinalizaram não terem grandes restrições a Bolsonaro em 2022.

Lula poderia ser o ponto de união da esquerda e atrair as amplas massas para um movimento de rua, contrário às arbitrariedades do judiciário, contra as reformas neoliberais, contra as privatizações, contra o abandono do povo diante da pandemia, contra o desemprego, o crescimento da miséria e da fome. Contudo, estranhamente, vemos sinais de que a esquerda não abraçará a causa de Lula. Recentemente o governador da Bahia, o petista Rui Costa, afirmou que não quer ser refém de Lula para sempre. Fernando Haddad disse em entrevista que será o candidato do PT em 2022 e que a escolha teria sido feita por Lula, o que foi motivo de protesto de Guilherme Boulos, que alimenta esperanças de ter o apoio da esquerda para 2022.

A esquerda precisa abandonar as ilusões e mobilizar os sindicatos, os movimentos sociais, o movimento estudantil, nos locais de trabalho, nas universidades, nas ruas, porque só assim será possível derrubar Bolsonaro em consonância com os interesses populares. Foram as mobilizações de rua e não a politicagem parlamentar que fizeram o golpe recuar no Chile e na Bolívia, mesmo que este recuo não tenha sido total devido à capitulação da esquerda nesses países. Cabe à esquerda liderar o povo que já deu mostras de atender ao chamado de luta por toda a América Latina, a não ser que se acredite no que pregam os derrotistas, que o povo brasileiro seja inferior e incapaz, o que sabemos não ser verdade.

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