Golpe nos EUA
A tentativa de cassar os direitos políticos de Trump é, na verdade, uma manobra totalmente antidemocrática por parte da burguesia. Um verdadeiro atentado contra os seus eleitores
manifestação capitólio eua
Manifestação dos apoiadores de Trump, no dia 6 de janeiro | Foto: Jon Cherry/Getty Images/AFP
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Manifestação dos apoiadores de Trump, no dia 6 de janeiro | Foto: Jon Cherry/Getty Images/AFP

Nesta segunda-feira (25), a Câmara dos deputados norte-americana enviou para o Senado, o pedido de impeachment do ex-presidente Donald Trump. A acusação é de que Trump teria estimulado a invasão ao congresso ocorrida no começo do mês e, dessa forma, realizado um atentado contra a democracia. Embora ele não ocupe mais o cargo do qual ele estaria sendo removido no processo, tudo pode acabar com a retirada de seus direitos políticos.

O julgamento será presidido pelo senador democrata Patrick Leahy, ao contrário do primeiro impeachment de Trump, que havia sido presidido por um juiz da Suprema Corte. No processo atual, há a possibilidade de o próprio Senado conduzir o processo, visto que o réu não se encontra mais na cadeira da presidência.

Dentro do partido Republicano, a crise é gigantesca. Donald Trump foi o candidato republicano mais votado da história, com cerca de 70 milhões de eleitores. Por conta disso, o partido está dividido. O setor mais ligado aos setores fundamentais do imperialismo, como o grupo da família Bush e o senador Mitt Romney, que afirmou que votará a favor do impeachment. Ele afirma que “O que vimos, um estímulo à insurreição, é uma ofensa de impeachment. Se não é, o que seria?”. Por outro lado, há um grupo que não quer encaminhar o processo, como o senador pela Flórida, Marco Rubio, que afirmou: “seria como jogar gasolina no fogo”, ressaltando a preocupação com a polarização política em que se encontra os Estados Unidos.

Apesar de o pedido ter sido enviado agora, o processo não terá início imediato. Os dois partidos entraram em um acordo e estabeleceram que a análise do caso deverá começar no dia 9 de fevereiro. O tempo foi dado para que os partidos pudessem realizar as articulações necessárias para a condução do processo. Os democratas querem caminhar com a pauta de Biden dentro do Senado, enquanto os republicanos querem entrar em algum acordo no que diz respeito à contradição interna fundamental dentro do partido, que é o apoio a Trump.

O processo todo se caracteriza como um verdadeiro golpe de estado. É óbvio que não há nenhum sentido em dar andamento ao pedido de impedimento de alguém que já não mais ocupa o cargo. A carta que será analisada pelo Senado afirma que seria fundamental punir Trump por ter, supostamente, insuflado uma “tentativa de subverter a democracia” com a manifestação em frente ao Capitólio no dia 6 de janeiro.

Essa segunda afirmação é totalmente absurda, primeiro porque não ficou provado que Trump teve relação direta com o evento, segundo porque é totalmente descabido caracterizar o ocorrido como um atentado à democracia. A invasão de prédios públicos por manifestantes é algo natural e democrático. Inclusive, é muito comum em diversos atos levados adiantes por movimentos populares. Se aceitarmos que manifestantes de extrema-direita sejam punidos por isso, estaremos apoiando que manifestantes da esquerda também o sejam no futuro.

É extremamente grave que o ex-presidente Donald Trump esteja sendo punido por convocar um protesto, por criticar seus opositores ou por afirmar que houve fraude nas eleições. Não há absolutamente nada de criminoso ou de antidemocrático nessas afirmações. Todo esse pedido de impeachment se baseia em acusações totalmente farsescas. Trump é, naturalmente, um fascista, mas estes que procuram puni-lo por ter exercido seu direito à livre expressão são fascistas também.

Se tem algo de antidemocrático em toda essa história é, justamente, esse pedido de impeachment contra Trump. Trata-se de um setor da burguesia procurando calar o outro através da força da lei. Isso abre um precedente gravíssimo, que não deve nunca ser apoiado pela esquerda, que é sempre a vítima preferencial desse tipo de ação ditatorial. Além disso, a Constituição norte-americana não diz que é legal cassar o mandato de um presidente que não se encontra mais no cargo, mas eles o fazem sob a justificativa de que a Constituição também não o nega.

O objetivo final de toda essa manobra esdrúxula é impedir Trump de ser candidato no futuro, através da cassação dos seus direitos políticos. Trata-se de uma forma muito rasteira da burguesia procurar controlar o sistema político norte-americano. A esquerda não deve apoiar isso sob nenhum ângulo. Se a esquerda quer reconquistar o setor da classe trabalhadora que acabou sendo atraída pelo trumpismo, deve, primeiramente, respeitar o fato de que ele foi eleito. Se aliar com a burguesia golpista só irá reforçar para os trabalhadores a ideia de que a esquerda também não tem respeito à democracia. Além disso, essa cassação feita sem nenhum motivo real só reforça a tese de que sua derrota no ano passado foi uma grande fraude. Realizar o afastamento de um presidente sem apresentar um motivo constitucional e ainda mais depois do fim de seu mandato, apenas para que não haja a chance de ele se reeleger é uma manobra espúria, e a democracia não pode ser tutelada por tais expedientes.

Além disso, convém comparar o que é feito com Trump ao que foi feito aqui no Brasil com Lula. Apesar das diferenças ideológicas entre os dois políticos, a manobra é muito semelhante. Através do cancelamento dos direitos políticos do candidato com maiores chances de ganhar a eleição, procura-se manobrar o processo eleitoral para dar a vitória a um candidato preferencial da burguesia. Além disso, ambos os processos não possuem nenhum lastro na realidade e carecem de apresentar provas para os supostos crimes cometidos. É preciso se colocar contra o impeachment de Trump e contra o recrudescimento do sistema repressivo norte-americano, que tende a desembocar na instauração de um verdadeiro estado policial no país, com consequências nefastas para o mundo inteiro.

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