Bloqueios na internet
Dirigente do PSOL defende a repressão e a censura da extrema-direita em favor do imperialismo
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Mark Zuckerberg | Foto: Reprodução
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Mark Zuckerberg | Foto: Reprodução

Em artigo publicado no Brasil de Fato, Valério Arcary, principal dirigente da fração morenista Resistência/PSOL, egressa do PSTU, expressou, de maneira muito bem acabada, o clima de histeria total da esquerda pequeno-burguesa diante do aumento da polarização política. O título de sua coluna, em si, já é uma aberração: “nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade”. Contudo, uma rápida pesquisa mostrará que a frase consiste em uma espécie de lema do dirigente psolista. Em pelo menos um outro artigo e em três discursos diferentes, Valério Arcary clamou pela repressão aos supostos “inimigos da liberdade”

A frase é esquisita e profundamente antidemocrática, mas não é de autoria de Arcary, mas sim de Saint-Just, revolucionário francês do século XVIII. As circunstâncias, contudo, eram bem diferentes: Saint-Just defendia o terror revolucionário, em um período revolucionário, quando o setor revolucionário da burguesia estava em uma ofensiva contra os setores mais reacionários e restauracionistas. Hoje, não há uma ofensiva revolucionária, mas sim uma ofensiva do imperialismo, que é o setor mais reacionário da burguesia mundial, contra os trabalhadores e todos os demais oprimidos.

Na medida em que defende a repressão em um momento de ofensiva da direita, Arcary está defendendo, inevitavelmente, o próprio imperialismo. Como o dirigente deixa claro, trata-se da defesa do “direito” dos monopólios, como o Twitter, de censurar seus adversários, contra o direito democrático da liberdade de expressão. A essa altura, Arcary expressa, assim, uma tendência geral dos setores mais pequeno-burgueses da esquerda nacional: passou de amor discreto pelo imperialismo para um amor escandaloso. Ou, no caso do dirigente do Resistência/PSOL, da política ultrassectária do “Fora Todos”, que o colocava ao lado do imperialismo no golpe de 2016, mas de maneira disfarçada, para a política hiperoportunista do “Juntos com todos”, que o coloca abertamente ao lado dos grandes monopólios. Uma diferença de forma, mas que permite Arcary permanecer coerente em seu alinhamento com o imperialismo.

Mais uma vez, Valério Arcary expressa a tendência da esquerda pequeno-burguesa cair como um patinho na política do “espantalho”. Basta a burguesia organizar uma propaganda indicando um determinado elemento como o “mal maior”, como a expressão do “fascismo” para que a esquerda se alie aos setores mais direitistas em uma farsesca “frente antifascista”. Esse tipo de frente, que, no Brasil, pode ser encontrada no apoio a João Doria (PSDB) e Baleia Rossi (MDB), e que, nos Estados Unidos, pode ser encontrada no apoio aos monopólios das redes sociais, não engana ninguém: é apenas um pretexto para que a esquerda pequeno-burguesa siga a sua orientação de colaboração permanente com o regime político.

O problema do “espantalho” fica evidente quando Arcary afirma, claramente, que a esquerda não deveria se preocupar com os direitos democráticos:

“A esquerda deve denunciar o cancelamento de Trump e da extrema-direita das redes sociais? Não. Ao contrário, deve defender que todos os canais e contas associados aos grupos neofascistas sejam suspensos, banidos, interditados. (…) Defender a liberdade de expressão da extrema-direita é um erro grave. A defesa dos direitos democráticos de Trump ou dos neofascistas bolsonaristas não é a defesa da liberdade de expressão. Os neofascistas são os maiores inimigos da liberdade de expressão”.

Para o dirigente psolista, portanto, a “frente antifascista” com o Twitter justificaria que a esquerda abrisse mão dos direitos democráticos do povo. Em outras palavras, diante da luta contra o fascismo, a esquerda poderia abrir mão de seu programa e adotar o programa da direita.

Essa concepção já seria absurda em si, pois significaria que a esquerda teria se tornado uma nulidade política, na medida em que seu programa passou a ser o programa da burguesia. E é ainda mais absurdo porque a defesa da censura é, inevitavelmente, a defesa de um Estado repressivo, que é uma das características principais do fascismo. O perigo do fascismo para a classe operária não está no penteado de Donald Trump, mas justamente no interesse da burguesia de estabelecer um regime de terror contra as organizações operárias.

O argumento cretino de Arcary para justificar sua posição é o de que os direitos democráticos da extrema-direita não seriam os direitos democráticos do povo. Se assim for, para que existiria o direito? Se depender de um juiz ou de uma instituição para afirmar se um indivíduo merece ou não ter direito a um direito, então acabou-se qualquer possibilidade de um Estado de Direito — tem-se, portanto, uma ditadura.

Para tentar fugir dessa contradição, Valério Arcary recorre a outro argumento em voga na esquerda pequeno-burguesa: o de que não existe direito, e que, portanto, a esquerda não deveria se revoltar quando os direitos fossem rasgados:

“É insustentável a ideia que defendendo os direitos de Trump estaríamos defendendo os nossos direitos e as liberdades democráticas de todos. Não há isonomia alguma no mundo”.

Isso equivaleria a dizer que, ao ver a polícia matando alguém na rua, a esquerda não deveria se opor, pois, inevitavelmente, a polícia irá matar você também algum dia. Seria uma política absurda; afinal, quem não se opõe, é porque concorda com a matança da polícia.

O papel da esquerda não é ignorar as contradições criminosas do regime político, mas sim se levantar contra elas. É a partir da luta contra cada arbitrariedade que se constrói um movimento capaz de colocar o regime político abaixo.

A política absurda de Arcary, finalmente, está relacionada com um problema teórico bastante saliente: o dirigente psolista, que se diz trotskista, se mostra incapaz de assimilar o conceito de imperialismo proposto por Lênin, em uma das obras mais básicas da formação marxista: “Imperialismo, fase superior do capitalismo”. Disse Arcary:

“Twitter, Facebook, WhatsApp são um perigo maior que Trump e Bolsonaro? São um perigo maior que governos que controlam Estados Nacionais? Não, esse é um juízo esdrúxulo”.

São os monopólios, por definição, que controlam os Estados, e não os indivíduos. A própria eleição norte-americana deixou isso claro: Joe Biden venceu Donald Trump porque os monopólios, em peso, garantiram sua eleição. Assim como o Departamento de Estado norte-americano organizou o golpe contra o Brasil porque as petroleiras e os demais monopólios exigiram a mudança de governo.

Caso seja uma questão de ignorância, podemos apresentar o livro ao dirigente da Resistência/PSOL. No entanto, o problema é mais profundo: por ser um intelectual pequeno burguês, de um grupo pequeno burguês, Arcary entrou na mais bárbara histeria, no pleno desespero, encontrando, no colo do imperialismo, sua única saída. Sendo a pequena burguesia um setor muito frágil, é incapaz de se organizar enquanto classe, de ter um programa próprio, e acaba, em uma situação reacionária, se acoplando ao imperialismo.

A histeria e a ignorância de Arcary é tamanha que acaba sendo cabalmente demonstrada em outro trecho de seu artigo:

“Sempre e quando os movimentos sociais e a esquerda sejam suficientemente fortes serão reprimidos”.

A colocação é absurda. Se assim fosse verdade, o partido bolchevique teria feito a revolução mais importante do século XX por ser uma organização fraca. Afinal, não foi reprimido.

Mas novamente, não se trata apenas de uma ignorância histórica. Para a pequena burguesia, o terror constante de uma grande repressão às massas é uma de suas mais diletas táticas: assim, impede a mobilização dos trabalhadores contra a classe dominante e mantém seu amado regime político intacto.

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