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E o radicalismo?

Iglesias e o fim do Podemos: o resultado da adaptação à burguesia

Qualquer coincidência com os partidos da esquerda pequeno-burguesa brasileira não é mero acaso – é a fórmula para o fracasso – tanto na Espanha quanto em qualquer lugar do mundo

Tempo de Leitura: 3 Minutos

Pablo Iglesias e Pedro Sánchez Pérez-Castejón – Reprodução

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Quando o grito de salvação da crise capitalista ecoa nas ruas, certos posicionamentos nos chamam atenção. Na esquerda há os que insistem em adaptar-se ao regime com fraseologias de efeito e propagandas insidiosas de baixo poder real, assim como há os que enxergam uma possibilidade real de concretizar as demandas das massas e pôr abaixo toda a máquina política burguesa. Em todo caso, nessas condições, estão dadas ou ao menos encaminhadas as chances de avançar contra o regime político. Nesse misto de posições, é preciso identificar e separar os oportunistas dos revolucionários. Afinal, esses momentos exigem uma direção política capaz de alçar o proletariado ao poder.

É sabido que a política da esquerda reformista e pequeno-burguesa nunca ultrapassa os limites institucionais. Quando a ruína do sistema capitalista torna-se aparente, é hora de abandonar o barco. Pelo menos é isso que o Podemos, partido da esquerda pequeno-burguesa espanhola, tem a nos oferecer. Nesta terça-feira, 11, Pablo Iglesias, candidato da Unidas Podemos – coligação eleitoral formada por Podemos, Esquerda Unida e outros diversos partidos de esquerda para concorrer às Eleições gerais na Espanha em 2016, anunciou que deixará todos os cargos institucionais. “Deixo todos os meus cargos. Deixo a política entendida como política de partido e institucional”, disse Iglesias. “Continuarei comprometido com meu País, mas não vou ser um empecilho para a renovação de lideranças que precisa ocorrer na nossa força política”, complementou.

Todo esse descontentamento não é por acaso; o secretário-geral do partido espanhol viu o desmanche dos seus sonhos ao se deparar com o jogo de cartas marcadas pela burguesia. Segundo Iglesias, “o sucesso eleitoral impressionante da direita trumpista que [a candidata conservadora Isabel Díaz Ayuso] representa é uma tragédia para a saúde, a educação e os serviços públicos”. Ayuso, presidente do Partido Popular (PP) de direita na região de Madri despontou como solução para a crise do sistema político espanhol. Quando a tática é ineficaz, todo sacrifício é invalido. Na mesa do jogo, a burguesia manipula as peças, confunde os adversários e deixa os de discursos mais eloquentes desatinados. “Fracassamos”, disse Iglesias. Após os resultados da esquerda na eleição de terça-feira, o sonho do reformismo cedeu lugar à realidade imposta pelo regime burguês. Nas contas de Iglesias “estivemos muito longe de somar uma maioria suficiente para montar um Governo decente”. Esse desdobramento, contudo, é a consequência lógica da inserção do Podemos no joguete institucional. Criado no intento de apresentar-se como solução para a crise de 2008, que atingiu fortemente os trabalhadores espanhóis, serviu apenas como válvula de alívio da pressão contra os trabalhadores enquanto a direita articulava uma reviravolta.

Quando do seu surgimento era um movimento pequeno-burguês, sem grandes ligações com as massas, semelhante ao Siryza na Grécia. Pegando a onda dessa mobilização das massas contra a crise, o Podemos se apresentou como uma esquerda radical e conseguiu algum apoio institucional. Mas sua luta sempre foi a luta institucional. De início, o partido se presentou como antissistema, buscando, na verdade, ocupar o lugar do PSOE na esquerda burguesa. Bastaram alguns anos e uma reviravolta institucional para a máscara cair e tornarem-se cristalinas as criticas ao PSOE. Eram – ao fim e ao cabo – totalmente oportunistas. Em realidade, abandonou o radicalismo e adotou o centrismo, formando governo e sustentando o direitista PSOE de Pedro Sánchez, atual presidente do Governo da Espanha. Passado o frenesi eleitoral, com o aprofundamento da crise política, o regime espanhol os arremessou contra a parede e alocou seus preteridos nas cadeiras cativas do Parlamento. Naturalmente e em acentuada decadência, os partidos ligados a ele decaem da mesma forma. PP, PSOE e agora o Podemos, que antes almejaram um lugar ao sol no esquema viciado do regime burguês espanhol, agora desfrutam da melancolia e da frustração. Isso tudo porque não estão conseguindo o resultado eleitoral previsto.

Em razão dessas derrotas, Iglesias abandonou a política. A vitória da direita espanhola exasperou todas as agremiações da esquerda pequeno-burguesa, ameaçando os objetivos imediatos e parlamentares dos setores centristas que não querem derrubar o regime político espanhol, mas apurá-lo com uma dose de conformismo e sentimentalismo pequeno-burguês. Isso porque a esquerda pequeno-burguesa tem como principal motivo e objetivo político a conquista de cargos no Estado. Sendo assim, já não veem mais razão de participar na política. A política deles nunca foi para os trabalhadores, para uma verdadeira transformação social, se não, não teria abandonado a política. É luta por cargos. Qualquer coincidência com os partidos da esquerda pequeno-burguesa brasileira não é mero acaso – é a fórmula para o fracasso – tanto na Espanha quanto em qualquer lugar do mundo.

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