Uma ideologia reacionária
Debate entre Djamila Ribeira e militante do MRT mostrou o conteúdo da política identitária: anti-marxista e reacionário
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A luta do negro é usada como refúgio para oportunistas. | Foto: Arquivo DCO

Nos últimos dias, a imprensa noticiou que a escritora e colunista da Folha de S. Paulo, Djamila Ribeiro, irá entrar com uma representação no Ministério Público contra a rede social Twitter por, segundo ela, “explorar economicamente o racismo e a misoginia”. Tal acusação, no momento em que a direita procura colocar em prática a chama “lei das fake news”, que entre outras coisas prevê que as redes sociais possam censurar perfis e postagens, veio à tona por conta de um debate ocorrido entre a escritora e uma ativista negra do grupo MRT e do jornal Esquerda Diário, Letícia Parks.

A militante do MRT criticou Djamila por conta de um vídeo promocional feito pela colunista da Folha para a empresa 99, vídeo que coincidiu com a mobilização dos entregadores de aplicativos (entre eles o 99) que realizaram nova greve no dia 25 de julho. Letícia Parks publicou um vídeo criticando Djamila, que, em entrevista para Marcelo Freixo, procurou desqualificar a crítica afirmando que a militante do MRT era uma “branquinha de turbante”.

A repercussão do caso nas redes sociais parece ter sido se não a principal, uma das motivações para Djamila decidir processar o Twitter. Mas deixemos o processo e o debate grotesco de lado.

Esse caso é bastante revelador sobre o significado do chamado identitarismo. Djamila Ribeiro, nome cada vez mais presente na imprensa golpista, em programas da Rede Globo e debates acadêmicos, é uma das principais representantes dessa política identitária no Brasil.

A esquerda pequeno-burguesa tem adotado, em maior ou menor grau, o identitarismo, resultado principalmente da política demagógica e oportunista que “abraça” todos os tipos de teoria para agradar determinados grupos que são potenciais eleitores. A própria crítica da militante do MRT (grupo que se reivindica como marxista), embora no sentido geral esteja correta, é também um produto da política identitária. Para ela, Djamila Ribeiro, ao aparecer como garota propaganda de uma marca capitalista, teria cometido um erro ocasional. Não se trataria, portanto, de uma contradição fundamental da política identitária, mas de uma espécie de um deslize de Djamila.

Tanto é sim que a militante do MRT inicia seu vídeo respondendo ao ataque de Djamila explicando que ela era negra e que usava turbante com muito orgulho, ou seja, adotando o ponto de vista da próprio Djamila.

Não se trata disso. O problema fundamental de todo esse debate é que o identitarismo – não importa a maneira como se apresenta – é uma ideologia anti-marxista e, independentemente do nível de consciência de seus seguidores, é também uma ideologia reacionária em última instância.

Esse é o problema de fundo que faz Djamila, que se afirma como grande defensora dos negros, aparecer como garota propaganda de um marca capitalista como a 99 e não apenas justificar sua ação, não vendo nada de contraditório com o que diz defender, como justificando tal ação. Mais ainda, para Djamila, aparecer defendendo uma empresa capitalista é tão correto que ela inclusive não aceita nenhuma crítica.

A mesma coisa vale para as inúmeras aparições na Rede Globo e na imprensa golpista, inimigos número 1 dos negros e do povo oprimido em geral.

O comportamento de Djamila não é nenhuma novidade. Ela esteve na França, no ano passado, recebendo um prêmio do presidente francês Emmanuel Macron. Perto disso, a propaganda para o 99 é café pequeno. Macron é o representante político do imperialismo francês, um dos responsáveis pelo massacre de negros na África e na América, isso não apenas no passado, mas também no presente. Na época, Djamila também considerou “tudo normal” e ainda ironizou quem a criticava mandando “beijos de Paris”.

O que queremos mostrar nisso tudo não é nenhum ataque pessoal contra a colunista da Folha. O importante dessas considerações é mostrar que o identitarismo é uma ideologia profundamente anti-marxista e reacionária. Por trás de uma suposta defesa dos oprimidos está uma política que defende os opressores.

O identitarismo, por isso mesmo, é um refúgio dos oportunistas. Se não se é marxista e portante não há o menor comprometimento com a defesa da classe operária, fica fácil aparecer fazendo propaganda de capitalistas ou apertando a mão de presidente imperialista. Fica fácil também ser porta-voz da “democrática” rede Globo quando o assunto é “luta da mulher negra”.

E quando a contradição dos identitários é exposta, como não precisa de ciência, ou seja, como não precisa de marxismo, ataca-se o adversário numa disputa sobre quem é mais retinto. Se fulano é mais retinto que cicrano então este não pode criticar. Segundo essa lógica, acabou a ciência. A lei de Newton, por exemplo, vale mais para negros mais retintos que outros? Fica claro que tudo não passa de um pensamento anticientífico e oportunista.

A chefe do partido de extrema-direita na Alemanha é uma lésbica assumida. Segundo os identitários, isso faria dela uma pessoa inatingível do ponto de vista da crítica política. Será? A esquerda pequeno-burguesa alemã que adota, mesmo que parcialmente a ideologia identitária, fica na defensiva diante da herdeira de Hitler na Alemanha, é incrível, mas acontece. Esse é o papel do identitarismo.

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